A morte de uma estudante de 11 anos, registrada no último dia 23 de julho, levou a família a denunciar que a menina sofria bullying em Colégio Militar dos Bombeiros, em Fortaleza. Segundo os pais, a aluna era vítima de agressões físicas e psicológicas praticadas por outros estudantes e, mesmo após comunicarem a situação à instituição e solicitarem a transferência da filha para outra unidade, o pedido não foi atendido.
O Colégio Militar do Corpo de Bombeiros Escritora Rachel de Queiroz afirma que seguiu os protocolos internos previstos para esse tipo de situação e prestou o devido atendimento às demandas apresentadas.
De acordo com os familiares, a estudante cursava o 6º ano do ensino fundamental e começou a apresentar sinais de que algo estava errado poucos meses após o início das aulas. No início, os pais acreditavam que os machucados eram consequência de brincadeiras ou acidentes ocorridos na escola. Com o passar do tempo, porém, passaram a desconfiar das explicações dadas pela filha.
Família relata que descobriu o bullying após mensagens enviadas pela estudante
A mãe da menina, Manoela do Nascimento, conta que a filha frequentemente chegava em casa com hematomas nas pernas, nos pés e em outras partes do corpo. Em algumas ocasiões, também apresentava cortes, mas sempre dizia que havia caído ou se machucado durante atividades escolares.
Conforme relato da mãe, a família só compreendeu a gravidade da situação quando a estudante decidiu desabafar com a irmã por meio de mensagens.
Manoela afirma que a filha dizia não suportar mais o que vivia dentro da escola e relatava ser alvo constante de provocações, humilhações e agressões praticadas por colegas.
"Ela chegava machucada e sempre inventava uma desculpa. Foi quando ela não aguentou mais e contou tudo para a irmã. A partir dali eu fui imediatamente à escola para tentar resolver a situação", relata Manoela.
Após tomar conhecimento do relato, a mãe diz que procurou a direção da escola e solicitou que a filha fosse transferida para outra unidade.
"Eu pedi várias vezes que transferissem minha filha. Eu já tinha conseguido uma vaga em outra escola. Disseram que a transferência não poderia ser feita, mas que resolveriam o problema do bullying. Depois disso, ninguém me deu retorno sobre as providências", afirma.
Segundo a família, antes mesmo da descoberta das agressões já existia um pedido de transferência motivado pela dificuldade de deslocamento entre a residência e a escola. Após os relatos da estudante, no entanto, a prioridade passou a ser retirá-la do ambiente escolar o mais rapidamente possível.
Família afirma que pediu transferência após denunciar bullying
O pai da estudante, Valmir Ricardo, relata que procurou a direção do Colégio Militar do Corpo de Bombeiros logo após descobrir o que a filha enfrentava. Posteriormente, também buscou apoio junto ao comando-geral da corporação para tentar obter uma autorização excepcional para a transferência.
De acordo com ele, a justificativa apresentada foi a impossibilidade legal de realizar a mudança antes da conclusão do primeiro ano letivo na instituição.
Ricardo afirma que explicou aos responsáveis que o pedido não estava relacionado apenas à logística, mas principalmente à situação vivida pela filha. "Eu disse que minha filha estava sofrendo bullying e precisava sair dali. Mesmo assim, informaram que não poderiam mudar a decisão porque a legislação não permitia", afirma.
Segundo o pai, ele insistiu para que fosse aberta uma exceção diante das circunstâncias apresentadas. "Eles colocaram a legalidade da norma acima da situação da minha filha. Eu só queria protegê-la", declara.
Ainda conforme o relato da família, a estudante demonstrava entusiasmo com a possibilidade de estudar em outra escola após o período de férias.
Ao lembrar da filha, Ricardo conta que ela sonhava em seguir carreira como perita criminal. "Passei 31 anos no Corpo de Bombeiros salvando vidas. Nunca imaginei viver uma dor como essa", lamenta. Os pais afirmam ainda que os estudantes envolvidos nas agressões já haviam sido identificados e que a direção da escola tinha conhecimento das denúncias apresentadas.
Colégio Militar afirma que seguiu protocolos internos e prestou atendimento
Em nota, o Colégio Militar do Corpo de Bombeiros Escritora Rachel de Queiroz manifestou solidariedade à família pelo falecimento da estudante.
A instituição confirmou que recebeu um pedido de transferência para o 3º Colégio da Polícia Militar, em Maracanaú, mas informou que a solicitação foi indeferida porque o Regimento Interno dos Colégios Militares Estaduais estabelece que esse tipo de transferência somente pode ocorrer após o aluno concluir, no mínimo, um ano letivo na unidade de origem e desde que exista vaga disponível.
Segundo a direção, a família também foi orientada sobre a possibilidade de solicitar matrícula em outra escola das redes pública ou privada no município de Maracanaú.
Em relação às denúncias de bullying, o colégio afirma que todas as situações formalmente comunicadas receberam o encaminhamento previsto nos protocolos internos e que não há registros de solicitações sem atendimento.
A escola informa ainda que mantém ações permanentes de prevenção ao bullying, promoção da cultura de paz, orientação sobre convivência e uso consciente das redes sociais, além de disponibilizar acompanhamento psicológico aos estudantes.
Por fim, o Colégio Militar afirma que permanece à disposição das autoridades para colaborar com qualquer procedimento de apuração e reafirma o compromisso com a proteção dos alunos e com o esclarecimento dos fatos.
O que caracteriza o bullying escolar?
O bullying é caracterizado pela prática repetitiva de agressões físicas, verbais, psicológicas ou de exclusão social contra uma pessoa, geralmente em situação de vulnerabilidade. No ambiente escolar, esse tipo de violência pode ocorrer por meio de ofensas, intimidações, apelidos pejorativos, agressões físicas, isolamento e ataques pelas redes sociais.
No caso da estudante, a família afirma que ela era vítima desse tipo de comportamento dentro da escola. Já o Colégio Militar sustenta que adotou os procedimentos previstos em seus protocolos internos sempre que as situações foram formalmente comunicadas e afirma permanecer à disposição das autoridades para colaborar com a apuração dos fatos.




