Dois tubarões foram registrados no litoral do Ceará nos últimos dias, em ocorrências nas cidades de Fortim e Icapuí, no Litoral Leste do estado. Os animais pertencem a espécies ameaçadas de extinção, mas a presença deles nas duas localidades não significa que estejam se aproximando da costa em busca de banhistas.
O primeiro registro ocorreu no Rio Jaguaribe, em Fortim, onde um tubarão foi encontrado dentro do ambiente aquático. O segundo aconteceu em Icapuí, durante uma atividade de pesca, envolvendo um tubarão-lixa.
Os casos chamaram atenção pela proximidade entre os registros e pelas características dos animais. Segundo o biólogo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) Vicente Faria, porém, a presença de tubarões na costa cearense é natural.
O especialista explica que existem dezenas de espécies que ocorrem no litoral do estado e que os registros recentes não representam, por si só, uma situação fora do padrão da fauna marinha cearense.
Tubarões no Ceará: dois registros foram feitos nos últimos dias
Em Fortim, o animal foi encontrado na região do Rio Jaguaribe, em um ponto afastado da faixa de areia.
Vicente Faria explica que o tubarão estava dentro do ambiente aquático e provavelmente se deslocava em busca de alimento. Segundo o biólogo, a possibilidade é de que o animal tenha acompanhado a movimentação de peixes até uma área mais rasa.
“Ele estava no ambiente aquático mesmo, bem afastado da costa”, explica o professor.
De acordo com o especialista, o animal pode ter encontrado um banco mais raso durante o deslocamento e, por isso, acabou sendo encontrado naquela região. Faria ressalta que o tubarão não estava encalhado na beira da praia.
O segundo registro aconteceu em Icapuí, também no Litoral Leste do Ceará. Nesse caso, o animal identificado foi um tubarão-lixa, capturado durante uma atividade de pesca de curral.
Segundo Faria, esse tipo de estrutura utilizada na pesca pode acabar funcionando como uma barreira para o deslocamento do animal e levá-lo a uma área onde ele fica preso.
“A pesca de curral cria uma barreira e pode conduzir o animal para uma área em que ele fica preso”, afirma o biólogo.
As duas ocorrências envolvem situações diferentes: em Fortim, o animal foi encontrado no ambiente do Rio Jaguaribe; em Icapuí, o tubarão-lixa acabou capturado durante uma atividade pesqueira.
Por que tubarões aparecem no litoral do Ceará?
A ocorrência dos animais em diferentes pontos da costa pode gerar dúvidas, especialmente quando registros feitos próximos a áreas frequentadas por pessoas ganham repercussão.
Segundo Vicente Faria, entretanto, os tubarões fazem parte naturalmente da fauna marinha do Ceará.
O professor explica que existem mais de 30 espécies de tubarões que ocorrem no litoral cearense. Por isso, encontrar representantes desses animais em diferentes ambientes da costa não significa necessariamente uma mudança de comportamento ou uma aproximação deliberada de pessoas.
“São parte integrante natural. Então nós temos mais de 30 espécies que ocorrem aqui e não tem nada que esteja fora realmente do comum”, afirma Faria.
A presença desses animais também precisa ser analisada de acordo com as características de cada ambiente.
No caso de Fortim, por exemplo, o tubarão estava na região da foz do Rio Jaguaribe, onde há circulação de espécies que servem de alimento para animais maiores.
Já em Icapuí, o registro ocorreu associado a uma atividade de pesca de curral, o que pode explicar a permanência do tubarão em uma área onde acabou sendo capturado.
Presença de tubarões não significa risco para banhistas
Embora os registros chamem atenção, o Ceará possui uma realidade diferente de outras áreas do Nordeste conhecidas pela ocorrência de incidentes envolvendo tubarões.
Vicente Faria cita Pernambuco, especialmente a região de Recife, onde existem condições ambientais específicas associadas aos encontros entre animais e banhistas.
Segundo o professor, uma das hipóteses discutidas para a ocorrência de tubarões de maior porte próximos às praias de Recife está relacionada à profundidade do mar em determinadas áreas.
“Especula-se que, muito perto da praia, fique muito fundo”, explica o biólogo.
A existência de um canal profundo próximo à faixa costeira poderia permitir a circulação de animais de maior porte em locais mais próximos de áreas utilizadas por banhistas.
O especialista também menciona discussões científicas relacionadas à localização de Recife entre dois estuários e às modificações provocadas pela ocupação humana nesses ambientes. Essas características podem estar entre os fatores que influenciam a circulação dos animais na região.
A realidade, segundo ele, não deve ser automaticamente aplicada ao litoral do Ceará.
No estado, os registros acontecem em pontos específicos e, até o momento, não há registro de incidentes envolvendo tubarões e banhistas, conforme as informações apresentadas pelo especialista.
Quais cuidados devem ser tomados ao encontrar um tubarão?
Mesmo que a presença desses animais seja considerada natural no litoral cearense, a orientação é evitar qualquer aproximação.
Ao encontrar um tubarão, o banhista não deve tentar tocar, perseguir ou interagir com o animal. Também não é recomendado oferecer alimento ou criar situações que possam despertar sua curiosidade.
Outro cuidado citado pelo especialista envolve objetos ou elementos muito chamativos durante a permanência na água.
A recomendação é manter distância e permitir que o animal siga seu deslocamento natural.
“Evitar alimentar os animais e também o uso de objetos ou elementos muito chamativos são alguns dos cuidados para os banhistas”, orienta Faria.
A recomendação também vale para situações em que o animal esteja aparentemente debilitado, preso ou encalhado. A tentativa de ajudar diretamente pode representar risco tanto para a pessoa quanto para o próprio animal.
Nesses casos, o mais adequado é acionar profissionais ou órgãos responsáveis pelo atendimento da fauna.
Tubarões fazem parte do ecossistema marinho do Ceará
Os dois registros recentes também ajudam a chamar atenção para a diversidade da fauna marinha existente no litoral cearense.
Os tubarões ocupam diferentes posições nas cadeias alimentares e fazem parte do funcionamento dos ecossistemas marinhos. A presença de espécies ameaçadas de extinção reforça ainda a necessidade de cuidado com esses animais.
Para Vicente Faria, o fato de tubarões aparecerem no litoral do estado não deve ser interpretado automaticamente como um problema.
“Os tubarões fazem parte da fauna aqui da costa do nosso estado”, explica o professor.
A ocorrência em Fortim e Icapuí, portanto, está relacionada à própria dinâmica dos ambientes costeiros e marinhos. Os animais podem circular em busca de alimento e utilizar diferentes áreas da costa durante seus deslocamentos.
Ao mesmo tempo, os registros reforçam a importância de observar esses animais sem interferir em seu comportamento.
No Ceará, a convivência entre os tubarões e as pessoas que frequentam o mar ocorre, até o momento, sem registros de incidentes envolvendo banhistas. A orientação dos especialistas é manter distância, não alimentar os animais e evitar qualquer tentativa de interação.




