A soldado da Polícia Militar do Ceará Júlia Nathalia Girão Gomes passou mal durante a madrugada desta quinta-feira (13) enquanto estava presa no presídio militar, segundo informações obtidas pela equipe de reportagem da TV Cidade Fortaleza. Ela recebeu atendimento de emergência em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) no bairro Pirambu, em Fortaleza, foi medicada e, após ser estabilizada, recebeu alta e retornou ao presídio.
O episódio pode interferir no depoimento da policial e na programação dos procedimentos previstos para esta quinta. Até o momento, porém, não há confirmação de que o depoimento será efetivamente adiado. Júlia permanece presa em flagrante por homicídio durante a investigação sobre a morte do soldado Raphael Sampaio da Silva, de 27 anos.
Soldado Júlia passa mal durante a madrugada
Segundo as informações levantadas pela reportagem junto a equipes de segurança pública, Júlia apresentou um comportamento considerado incomum quando agentes chegaram à cela durante a madrugada. Diante da situação, equipes de emergência foram acionadas e levaram a policial para uma unidade de pronto atendimento no bairro Pirambu.
Depois de receber atendimento médico e ser medicada, ela foi estabilizada, recebeu alta e retornou ao presídio militar. A causa do mal-estar não foi informada no material disponibilizado à reportagem.
A defesa da policial e as forças de segurança ainda estavam sendo procuradas para confirmar e detalhar o episódio. A situação ocorre antes da audiência de custódia prevista para esta quinta-feira, na Delegacia de Capturas (Decap).
Depoimento de Júlia pode ser afetado pelo atendimento médico
Júlia foi presa durante as diligências da investigação conduzida pela Polícia Civil. A expectativa era de que ela participasse dos procedimentos relacionados à prisão, mas o atendimento médico durante a madrugada pode alterar a programação.
Durante o depoimento prestado anteriormente à Polícia Civil, Júlia teria negado a existência de um relacionamento com Raphael. De acordo com a versão atribuída à soldado, ela havia pegado uma carona no veículo do policial quando o automóvel teria sido interceptado por outro carro escuro, descrito como preto, e uma motocicleta.
Ainda segundo esse relato, Júlia teria ouvido disparos e uma pessoa teria chamado Raphael pelo sobrenome Sampaio. Na sequência, ela afirmou que foi vendada e colocada no porta-malas do veículo utilizado na abordagem. Posteriormente, foi encontrada em uma área de mata às margens da BR-116, no distrito de Justiniano de Serpa, em Aquiraz.
Câmera de oficina contradiz versão apresentada por Júlia
A Polícia Civil investiga as divergências entre o relato atribuído à soldado e outros elementos reunidos no inquérito. Entre eles está uma gravação de câmera de segurança instalada em uma oficina ligada ao companheiro de Júlia, Antoneudo Ribeiro.
As imagens registraram a presença da policial no estabelecimento às 8h52 da terça-feira (11). Segundo as informações apresentadas na investigação, o registro não seria compatível com a versão atribuída a Júlia sobre o período em que teria sido mantida amarrada.
A Polícia Civil deverá confrontar as imagens com o depoimento da soldado e outros registros para estabelecer a sequência dos acontecimentos. Também são analisados os momentos anteriores e posteriores à localização de Júlia na área de mata.
Investigação apura possível relação entre policiais
A Polícia Civil investiga se um possível relacionamento entre Júlia e Raphael tem ligação com o homicídio. Uma das linhas analisadas é a hipótese de que Antoneudo, apontado como companheiro de Júlia, teria descoberto um possível envolvimento entre os dois policiais.
A partir dessa possibilidade, os investigadores verificam se Raphael teria sido atraído para uma situação previamente planejada antes de ser morto. Essa hipótese ainda não foi confirmada e precisa ser confrontada com depoimentos, imagens, registros e demais provas reunidas no inquérito.
Antoneudo foi conduzido à Polícia Civil e presta depoimento aos investigadores. A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) não informou que ele tenha sido preso em flagrante pelo homicídio de Raphael.
Segundo a SSPDS, Antoneudo responde por estelionato, falsa identidade, lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, integrar organização criminosa, receptação e posse irregular de arma de fogo de uso permitido. Esses registros anteriores, contudo, não estabelecem participação no assassinato de Raphael.
Júlia também responde a procedimentos relacionados a estelionato, lavagem ou ocultação de bens e por integrar organização criminosa.
O que a perícia descobriu sobre a morte de Raphael
Raphael foi encontrado dentro de um veículo incendiado na região do Ancuri, na divisa entre Fortaleza e Itaitinga, na manhã da terça-feira (11). Uma testemunha percebeu o automóvel em chamas e acionou as forças de segurança.
O Corpo de Bombeiros foi enviado para controlar o incêndio. Após o combate às chamas, o corpo do soldado foi localizado dentro do veículo. Equipes da Polícia Militar, Polícia Civil e Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) participaram dos procedimentos.
Os exames periciais identificaram lesões provocadas por disparos de arma de fogo. Conforme a SSPDS, os tiros atingiram Raphael quando ele ainda estava vivo, enquanto a carbonização ocorreu posteriormente. A perícia também não identificou amputação traumática.
A Delegacia de Homicídios Contra Agentes de Segurança Pública (DHASP) conduz a investigação. Entre os pontos analisados estão o percurso feito pelo soldado antes de ser encontrado, o local dos disparos, a maneira como o corpo chegou ao automóvel e as circunstâncias que levaram à carbonização.
Ministério Público cria força-tarefa para acompanhar o caso
O Ministério Público do Ceará (MPCE) criou uma força-tarefa para acompanhar a investigação sobre a morte de Raphael. A determinação partiu do procurador-geral de Justiça, Herbet Santos.
O grupo é formado pelos promotores de Justiça André Clark Nunes Cavalcante, Renato Magalhães de Melo, Luís Bezerra Lima Neto, Geraldo Nunes Laprovitera Teixeira e Oscar Stefano Fioravanti Junior. Eles atuarão em conjunto com Gustavo Santos Gomes de Souza, titular da 2ª Promotoria de Justiça de Itaitinga, em eventuais procedimentos investigatórios e judiciais relacionados ao caso.
Segundo o MPCE, a medida considera a complexidade da ocorrência e o fato de Raphael integrar as forças de segurança pública.
Raphael havia ingressado na Polícia Militar do Ceará em junho de 2022 e estava lotado na 2ª Companhia do 16º Batalhão de Polícia Militar. A informação foi divulgada pela Associação das Praças Militares do Ceará (Aspra-CE), que publicou uma nota de pesar e manifestou solidariedade aos familiares, amigos e colegas de farda.
Júlia ingressou na Polícia Militar do Ceará em novembro de 2024. A investigação continua para esclarecer a dinâmica do homicídio, a motivação, a relação entre os envolvidos e a eventual participação de Antoneudo ou de outras pessoas.
Denúncias para a polícia
A população pode contribuir com investigações das forças de segurança do estado do Ceará repassando informações que auxiliem os trabalhos policiais. As informações podem ser direcionadas para o número 181, o Disque-Denúncia da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), ou para o (85) 3101-0181, que é o número de WhatsApp, pelo qual podem ser feitas denúncias via mensagem, áudio, vídeo e fotografia ou ainda via "e-denúncias", o site do serviço 181, por meio do endereço eletrônico: https://disquedenuncia181.sspds.ce.gov.br/.




