Quem passa pela Beira-Mar de Fortaleza, especialmente pelo Espigão do Náutico, pode encontrar uma combinação de música e artes visuais em meio ao movimento da orla. É nesse espaço que Rasjader, artista de rua nascido na Bahia e morador de Fortaleza há muitos anos, apresenta seu trabalho e transforma a relação com o público em parte da própria produção artística.
Com a música e a pintura como formas de expressão, Rasjader construiu nas ruas uma maneira de manter a arte próxima das pessoas. O trabalho reúne o reggae e outras manifestações artísticas em uma rotina que, segundo ele, nasceu da necessidade de ocupar os espaços públicos e compartilhar sua produção.
Da Bahia para Fortaleza
Rasjader nasceu em Felipe Santana, na Bahia. Desde a infância, conta que desenvolveu o interesse pelo desenho e pela pintura, além da proximidade com a música. A influência veio também do ambiente familiar, já que um de seus irmãos é músico e mantinha instrumentos em casa. Ele falou com o repórter Edney Cunha, da TV Cidade Fortaleza, sobre a própria trajetória:
"Cara, eu nasci em Felipe Santana, na Bahia. E desde criança eu tive essas habilidades, né, cara? Sempre gostei de desenhar, de pintar, né? A música também. Acho que toda criança, todo artista apenas mantém viva, né, cara? Essa essência, né? Essa magia, né? De colorir, de pintar, né? Essa necessidade de se expressar, em geral."
Morando em Fortaleza há muitos anos, o artista também construiu parte da vida pessoal na capital cearense. Ele conta que tem duas filhas, de 16 e 15 anos, nascidas na cidade.
A música, segundo Rasjader, esteve presente desde cedo em sua vida:
"Sempre tive esse contato com a música, né? Tem um irmão meu que é músico, e ele tinha instrumentos musicais, os amigos também frequentavam lá na minha casa. E eu sempre tive acesso, né, cara? À arte. E isso me ajudou muito, né?"
A arte da urgência cotidiana
A escolha de trabalhar nas ruas não surgiu, segundo o artista, apenas como uma alternativa profissional. Rasjader define o próprio caminho como uma "arte da urgência cotidiana", expressão que alude à vontade de levar sua produção diretamente para os espaços onde as pessoas estão.
Ele explica que, durante sua trajetória, também esperou por oportunidades externas, contratos e possibilidades de trabalho. Com o tempo, porém, passou a enxergar a ocupação dos espaços públicos como uma forma de disseminar sua arte.
"Na verdade, eu sempre trabalhei com arte em geral. Só que eu venho a despertar que às vezes a gente espera de fora, né? As oportunidades, os contratos. Isso às vezes é desfavorável por vários aspectos, né?"
A mudança de perspectiva fez com que ele passasse a observar a presença da arte no cotidiano de outra maneira. Para Rasjader, apesar da existência de eventos culturais, parte da população não consegue ter acesso a essas atividades.
"E nessa luta, eu despertei pra ocupar, disseminar minha arte, sabe? Eu acho que só depende da gente. Acho que eu mudei o olhar e passei a perceber no cotidiano o quanto é carente de arte a sociedade em geral."
Segundo ele, levar a produção artística para a rua também permite aproximar pessoas que não necessariamente frequentam eventos de arte.
"Porque temos eventos de arte, mas nem todo mundo tem acesso à arte, né? Nem todo mundo tem condições financeiras."
Reggae, pintura e contato com o público
No Espigão do Náutico, na Beira Mar, a música ocupa um papel central na interação de Rasjader com quem passa pelo local. O reggae aparece entre as principais referências de seu trabalho musical, ao lado da produção artística que ele desenvolve.
Para o artista, a rua também funciona como um espaço de troca. O cotidiano, com suas pressões e dificuldades, pode ser transformado por meio da arte e da maneira como o artista interfere no ambiente.
"E, assim, esse caos hoje em dia, essa corrida, né? Essa ansiedade de... Sabe? Esse desgaste, né? Emocional, esse desgaste emocional. Eu acho que os dons que nos são dados, nem sempre a gente vai conseguir encaixar ele de uma forma comercial."
Rasjader afirma que a atividade artística não precisa necessariamente estar vinculada a uma lógica comercial para produzir efeitos sobre as pessoas e os espaços onde é apresentada.
"Mas a gente consegue, como eu digo pra ti, inverter e ver o lado bom, né? E dar a sua contribuição. Eu consigo influenciar, eu consigo mudar o ambiente. O artista, na minha visão, é o alquimista. Ele é o que transmuta aquela energia."
Como Rasjader mantém o trabalho nas ruas
A decisão de ocupar os espaços públicos também representou, para Rasjader, uma mudança na forma de encarar a própria carreira. Em vez de concentrar a expectativa em contratos e oportunidades externas, ele decidiu assumir diretamente a iniciativa de apresentar seu trabalho.
As redes sociais e o próprio círculo de amizades também passaram a fazer parte desse processo de divulgação. Segundo o artista, essas ferramentas ajudam a ampliar a disseminação do trabalho e a manter a motivação para continuar.
Gorjetas fazem parte da rotina do artista
Além da possibilidade de apresentar a produção artística para o público, a atividade na rua também pode resultar em contribuições financeiras de quem acompanha o trabalho.
Durante a passagem pelo Espigão do Náutico, o repórter Edney Cunha observou a presença de pessoas próximas aos bancos onde Rasjader costuma ficar e perguntou sobre a possibilidade de o momento da apresentação resultar em uma gorjeta.
O artista confirmou que essa possibilidade faz parte da dinâmica de sua atividade:
"O que vier, o que está encaminhado, já está encaminhado. Eu acredito assim, na naturalidade, na espontaneidade. Saber que as coisas andam, né?"
No Espigão do Náutico, Rasjader encontrou uma forma de unir diferentes expressões artísticas e estabelecer contato direto com quem circula pela Beira-Mar. A pintura, a música e o reggae fazem parte de uma rotina que ele descreve como uma maneira de ocupar os espaços, compartilhar sua produção e manter viva a relação com a arte.




