Uma nova espécie de ave foi identificada na Serra de Baturité, no Ceará, e pesquisadores estimam que menos de 100 indivíduos existam na região. Batizada de tovaca-de-baturité (Chamaeza baturitensis), a ave ocorre em apenas dois pontos do maciço, principalmente na área do Parque Estadual do Pico Alto, em Guaramiranga.
A identificação amplia o conhecimento sobre a biodiversidade da Serra de Baturité, uma das áreas de maior importância ambiental do Ceará. Estudos recentes destacam a diversidade da região e também a pressão provocada pela ocupação humana sobre seus ambientes naturais.
Segundo a apuração apresentada pelos pesquisadores, a ave foi durante anos considerada integrante de outra espécie, a tovaca-campainha (Chamaeza campanisona). A distinção foi estabelecida a partir de características físicas e, principalmente, das diferenças encontradas nas vocalizações.
A descrição da nova espécie foi realizada pelos pesquisadores Vagner Cavarzere, professor do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Lucas Romero e Enrico Breviglieri, também ligados à universidade.
Tovaca-de-baturité vive em apenas dois pontos da Serra de Baturité
A área conhecida de ocorrência da tovaca-de-baturité é bastante restrita. Conforme a pesquisa apresentada, a espécie foi identificada em somente dois pontos da Serra de Baturité, com ocorrência principalmente dentro do Parque Estadual do Pico Alto, em Guaramiranga.
Ainda não existe uma contagem populacional precisa. A estimativa dos pesquisadores aponta para menos de 100 indivíduos distribuídos na região. A combinação entre população pequena e área de ocorrência limitada passou a ser um dos principais pontos de atenção para os cientistas. A partir da identificação da espécie, novos estudos deverão investigar com maior precisão o tamanho da população, sua distribuição, reprodução e as condições do ambiente utilizado pelas aves.
O Parque Estadual do Pico Alto já é reconhecido por sua importância para a fauna e a flora da Serra de Baturité. Em 2023, a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Ceará (Sema) informou ter identificado no local uma tovaca-campainha, além de espécies raras de plantas. Na ocasião, o órgão destacou a realização de levantamentos para subsidiar o conhecimento sobre a biodiversidade e a conservação da unidade.
Como os pesquisadores identificaram a nova espécie de ave
Durante anos, as aves encontradas na Serra de Baturité foram consideradas pertencentes à tovaca-campainha (Chamaeza campanisona), espécie registrada em outras regiões do Brasil. A diferenciação começou a ser observada a partir de características físicas. Uma das diferenças apontadas está na coloração da testa: nos exemplares da Serra de Baturité, a região apresenta tonalidade marrom, enquanto a população utilizada na comparação apresenta a testa preta.
O principal elemento para a distinção, entretanto, foi o canto. Os pesquisadores analisaram centenas de gravações de vocalizações realizadas em diferentes pontos da área de distribuição das aves. Os registros foram submetidos a análises visuais e estatísticas para identificar padrões capazes de separar as populações.
Também foram utilizados gravadores instalados em diferentes áreas de floresta. Os equipamentos registraram as vocalizações em períodos específicos do dia, permitindo comparar os cantos das aves de diferentes regiões.
A análise indicou que a população encontrada na Serra de Baturité apresenta características próprias de vocalização. A combinação desses dados com as diferenças físicas permitiu aos pesquisadores propor a separação da população cearense como uma espécie distinta.
Onde vive a tovaca-de-baturité?
A tovaca-de-baturité está associada a áreas de floresta da Serra de Baturité. O comportamento observado pelos pesquisadores indica que a ave passa boa parte do tempo próxima ao solo. Ela pode utilizar galhos, mas não costuma permanecer em pontos muito altos da vegetação. Outro aspecto destacado é a preferência por ambientes mais fechados e com pouca entrada de luz.
Essa característica aumenta a importância da conservação das áreas de floresta onde a espécie foi encontrada. Alterações na cobertura vegetal podem modificar as condições do ambiente utilizado pela ave. A abertura de áreas, a retirada de árvores e a fragmentação da vegetação estão entre os fatores que precisam ser avaliados pelos pesquisadores para compreender possíveis impactos sobre a população.
O Museu de História Natural do Ceará Professor Dias da Rocha, vinculado à Universidade Estadual do Ceará (Uece), possui dois exemplares conservados da espécie para estudos científicos. A instituição também avalia a possibilidade de disponibilizar a ave para exposição aos visitantes.
Menos de 100 indivíduos são estimados na região
A população da tovaca-de-baturité ainda não foi contabilizada com precisão. A estimativa apresentada pelos pesquisadores indica a existência de menos de 100 indivíduos na Serra de Baturité. O número será um dos elementos considerados nas próximas avaliações sobre a conservação da espécie. A área ocupada pela população também deverá ser analisada para determinar a extensão real de ocorrência da ave.
Entre as questões que ainda precisam ser respondidas estão a quantidade de indivíduos adultos, a distribuição dentro dos fragmentos de floresta, o comportamento reprodutivo e a quantidade de filhotes produzidos. Os pesquisadores também pretendem avaliar as condições do habitat e verificar a existência de fatores que possam comprometer a permanência da espécie na região.
A classificação oficial quanto ao grau de ameaça depende de avaliações específicas. Por isso, a estimativa de menos de 100 indivíduos e a área restrita de ocorrência devem ser tratadas como elementos de preocupação para conservação, e não como uma classificação oficial de ameaça, enquanto essa avaliação não for concluída.
Desmatamento preocupa pesquisadores
A conservação da tovaca-de-baturité está diretamente relacionada à manutenção das áreas florestais onde a espécie ocorre. O biólogo Marco Crozariol, curador do Museu de História Natural do Ceará Professor Dias da Rocha, chama atenção para o avanço da ocupação humana na Serra de Baturité e para a pressão do desmatamento, incluindo áreas afetadas pela especulação imobiliária.
A preocupação é especialmente relevante porque a ave apresenta preferência por ambientes florestais fechados. A redução ou fragmentação dessas áreas pode diminuir os espaços disponíveis para a população. A própria Serra de Baturité é apontada em estudos recentes como uma região de elevada biodiversidade submetida a significativa pressão provocada pela atividade humana. A Área de Proteção Ambiental da Serra de Baturité abrange 32.690 hectares e reúne diferentes unidades de conservação, entre elas o Parque Estadual do Pico Alto.
Outro obstáculo apontado pelos pesquisadores é a disponibilidade de recursos para ampliar os estudos. A existência de profissionais especializados permite avançar na pesquisa, mas a realização de levantamentos de longo prazo depende de financiamento.
Serra de Baturité concentra espécies raras de aves
A descoberta da tovaca-de-baturité acrescenta uma nova espécie ao conhecimento sobre a fauna da Serra de Baturité. A região já abriga aves com distribuição bastante restrita. Entre elas está o soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni), espécie exclusiva do Ceará e associada à Chapada do Araripe.
Na Serra de Baturité, documentos ambientais também registram espécies raras e ameaçadas. Em levantamento realizado no Parque Estadual do Pico Alto em 2023, a Sema destacou a ocorrência da tovaca-campainha do Nordeste, além de espécies raras de bromélias.
A nova identificação reforça a necessidade de ampliar o conhecimento sobre a fauna da região. Uma ave anteriormente identificada como parte de outra espécie passa agora a ser investigada de maneira específica, com estudos voltados à sua distribuição, população e conservação.
Nova espécie pode impulsionar observação de aves
Além da importância científica, a tovaca-de-baturité pode aumentar o interesse pela observação de aves na Serra de Baturité. A região já recebe visitantes interessados em biodiversidade e atividades relacionadas à observação da fauna. Uma espécie com ocorrência restrita ao Ceará pode se tornar um elemento adicional de interesse para esse público.
O eventual crescimento desse tipo de turismo, porém, precisa ser acompanhado de medidas de proteção ambiental. Como a população conhecida da ave está concentrada em uma área pequena, a visitação deve ser compatível com a conservação do habitat.
A descoberta de Chamaeza baturitensis abre, portanto, uma nova etapa de investigação científica na Serra de Baturité. O desafio agora é ampliar o conhecimento sobre quantas aves existem, onde estão distribuídas, como se reproduzem e quais condições são necessárias para manter a população.




