A Escola Jesus Maria José, um dos prédios históricos do Centro de Fortaleza, está em estado avançado de deterioração e preocupa moradores que vivem no entorno. A estrutura apresenta paredes degradadas, portas e janelas fechadas com tijolos, vegetação tomando áreas internas e acúmulo de lixo e entulho.
A situação também envolve uma preocupação de segurança. No último sábado, a Prefeitura de Fortaleza iniciou a demolição de uma parte do muro do imóvel que apresentava risco de desabamento.
O prédio está localizado na região central da Capital e faz parte do patrimônio histórico e cultural do município. O tombamento do imóvel e de seu entorno foi determinado por decreto municipal em 2007, em razão do valor histórico e cultural da edificação.
Para quem mora próximo ao local, o cenário coloca em lados diferentes duas preocupações: a necessidade de garantir a segurança de quem circula pela região e o desejo de preservar uma construção que integra a memória de Fortaleza.
A artesã Carol Marques mora ao lado do imóvel há quatro meses e afirma que o estado da estrutura provoca receio. Ao mesmo tempo, ela defende que qualquer intervenção considere o valor histórico e ambiental do espaço.
"Um prédio antigo, existe o medo do desabamento, mas existe um apego também com a arquitetura, com a história e com toda essa área verde que tem aqui dentro", relata Carol.
Por isso, ela considera que o imóvel precisa ser analisado com cuidado antes de qualquer decisão definitiva. "Existe uma relação de medo, mas também uma sensação de que é necessário olhar com calma e atenção para esse espaço", afirma a moradora.
Estrutura sofre com falta de manutenção e ação do tempo
O estado atual do prédio também chama atenção pelo desgaste acumulado ao longo dos anos. Para o professor Eduardo Cabral, coordenador do Departamento de Engenharia da Universidade Federal do Ceará (UFC), a própria atmosfera de Fortaleza contribui para a deterioração de estruturas que não recebem manutenção periódica.
Segundo o especialista, estudos realizados no Laboratório de Materiais de Construção do curso de Engenharia Civil da UFC apontam que a agressividade atmosférica da cidade é elevada. Esse fator, combinado à idade da construção e à ausência de manutenção regular, acelera o processo de desgaste.
"Nós temos estudos desenvolvidos no Laboratório de Materiais de Construção do curso de Engenharia Civil da Universidade Federal do Ceará, aqui em Fortaleza, que apontam que a agressividade atmosférica da cidade é uma das maiores do mundo", explica Eduardo Cabral.
O professor destaca que a Escola Jesus Maria José é uma construção do início do século XX e, portanto, está exposta há décadas às condições ambientais da Capital. Sem intervenções periódicas, a estrutura fica mais vulnerável.
"Não é surpresa de que uma edificação que data do início do século XX, como é a Escola Jesus Maria José, que não passa por manutenções periódicas, esteja em alto grau de deterioração", afirma o professor.
A avaliação ajuda a explicar por que construções históricas precisam de acompanhamento e manutenção contínuos. Em imóveis antigos, o desgaste não ocorre apenas pela idade da estrutura. A exposição prolongada à umidade, poluentes e outros agentes presentes na atmosfera pode contribuir para a degradação dos materiais.
Prefeitura isola imóvel e prevê instalação de escoras
Diante das condições do prédio, a Secretaria Municipal da Infraestrutura (Seinf) adotou medidas emergenciais para reduzir os riscos no entorno.
O imóvel foi isolado com tapumes e a Prefeitura prevê a instalação de escoras para aumentar a estabilidade da estrutura. A intervenção ocorre após a identificação de pontos que apresentavam risco e a demolição de parte do muro considerado comprometido.
A previsão também inclui uma limpeza da área interna. A operação deve retirar a vegetação que cresceu dentro do imóvel, além de entulhos e resíduos acumulados ao longo do período de abandono.
Outra medida prevista é a retirada da estátua existente no local.
As ações, neste momento, estão concentradas na segurança e na redução dos riscos provocados pelas condições estruturais. A situação, no entanto, reacende uma discussão mais ampla sobre o destino de um imóvel que possui relevância para a história da cidade.
Prédio histórico foi construído no início do século XX
A história da Escola Jesus Maria José remonta ao início do século XX. A construção começou em 14 de setembro de 1902, e a instituição foi inaugurada em 22 de janeiro de 1905. O projeto esteve ligado à atuação de Dom Joaquim José Vieira, então bispo do Ceará, e tinha como objetivo atender crianças pobres e desvalidas.
A administração ficou sob responsabilidade das Irmãs de Caridade da Congregação de São Vicente de Paulo. A escola funcionou como espaço de educação e formação, com ensino de disciplinas como leitura, escrita, matemática e instruções religiosas.
Com o passar das décadas, o imóvel deixou de exercer sua função original e passou a receber outras atividades. Registros históricos apontam que o espaço abrigou, em diferentes períodos, a Casa Paroquial, o Auditório da Rádio Assunção Cearense, associações e o Cine Paroquial.
O imóvel também integra um conjunto arquitetônico de relevância para o Centro de Fortaleza. Em 2015, o município destacou a Escola Jesus Maria José como parte do conjunto formado ainda pelo Colégio Imaculada Conceição, pela Igreja do Pequeno Grande e pela Escola Justiniano de Serpa.
A importância histórica da construção também está registrada em documentos oficiais de preservação. O município reconhece o imóvel como patrimônio histórico e cultural e determinou o tombamento definitivo da escola e de seu entorno.
Moradores dividem opiniões sobre futuro da construção
O estado de deterioração faz com que parte dos moradores defenda uma solução mais radical para o imóvel, enquanto outros consideram fundamental preservar a estrutura histórica.
Entre os que defendem uma intervenção mais profunda está a ideia de demolir completamente a construção e dar uma nova utilização ao terreno. A preocupação é evitar que o prédio continue oferecendo riscos à população.
Por outro lado, há quem considere que uma eventual intervenção precisa levar em conta não apenas a arquitetura, mas também a vegetação existente no interior do terreno e a memória associada ao espaço.
Esse dilema aparece no relato de Carol Marques. Para ela, o medo provocado pela possibilidade de um desabamento não elimina o vínculo com o patrimônio.
A discussão, portanto, vai além da condição física das paredes e dos muros. Envolve a segurança de moradores e pedestres, a preservação de um imóvel tombado e a definição de um futuro para uma construção que atravessou mais de um século da história de Fortaleza.
Enquanto as medidas emergenciais avançam, a expectativa dos moradores é que o imóvel tenha uma solução capaz de reduzir os riscos sem desconsiderar seu valor histórico.
O desafio é conciliar a proteção da população com a preservação de um patrimônio que, apesar do abandono e da deterioração, ainda carrega parte da memória arquitetônica, educacional e cultural do Centro de Fortaleza.




