A entrada de Augusto Cury na disputa pela Presidência da República em 2026 colocou em evidência também o posicionamento político do escritor e psiquiatra. Candidato pelo Avante, ele tem apresentado durante a campanha uma combinação de propostas econômicas, sociais e institucionais, além de adotar um discurso crítico à polarização que marcou as últimas eleições nacionais. Mas, afinal, Augusto Cury é direita ou de esquerda?
A posição política de Augusto Cury pode ser analisada a partir de três elementos: a maneira como o próprio candidato define sua ideologia, a classificação atribuída ao Avante e as propostas apresentadas durante a campanha. Esses aspectos nem sempre apontam exatamente para o mesmo lugar no espectro político e ajudam a explicar por que uma classificação baseada exclusivamente no partido ou em uma única proposta seria insuficiente.
Augusto Cury é de direita ou de esquerda?
Augusto Cury afirma ser de centro e evita se definir exclusivamente como de direita ou de esquerda. O candidato tem repetido essa posição em diferentes entrevistas desde que entrou na disputa presidencial e procura associar princípios econômicos capitalistas a uma agenda de preocupação social.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, ao ser questionado sobre o posicionamento político, Cury afirmou: “Eu sou de centro. Sou mente capitalista e com um coração que cuida dos desvalidos.” A declaração resume uma das ideias que o escritor passou a utilizar para explicar onde pretende se colocar no espectro ideológico.
A mesma combinação apareceu em entrevista concedida à Itatiaia, em abril de 2026. Na ocasião, ainda como pré-candidato, Cury afirmou ter “mente capitalista e coração social” e utilizou a expressão “capsocial” para definir a tentativa de conciliar liberdade econômica e empreendedorismo com atenção às pessoas mais vulneráveis.
Em uma sabatina da Brasil Paralelo, Cury voltou a ser questionado diretamente sobre direita e esquerda e respondeu: “Eu sou centro, mas o que eu mais sou é ponte.” Na mesma entrevista, relacionou ao que considera positivo no conservadorismo temas como liberdade de expressão, economia forte, impostos mais baixos, empreendedorismo e livre iniciativa.
A definição pessoal do candidato, portanto, é de centro. Isso não significa que todas as propostas apresentadas por Cury estejam localizadas no centro do espectro ideológico. A plataforma reúne posições associadas a diferentes correntes políticas.
O que Augusto Cury diz sobre direita e esquerda?
A crítica à polarização tornou-se um dos componentes do discurso eleitoral de Augusto Cury. Em diferentes entrevistas, o candidato argumenta que problemas sociais e econômicos não deveriam ser tratados exclusivamente a partir da divisão entre direita e esquerda.
Durante a sabatina promovida por O Globo, CBN e Valor, realizada na sexta-feira (28), Cury voltou ao assunto. Ao comentar a polarização política, afirmou: “No mundo todo, nos enganaram, de maneira cruel, dizendo que temos que estar divididos em dois barcos.”
Na mesma entrevista, o candidato utilizou novamente a combinação entre economia e preocupação social para definir a própria posição: “Minha mente é capitalista, com todos os pressupostos do capitalismo. Mas meu coração é social porque eu escutei a dor a vida toda.”
Cury também havia detalhado essa visão em entrevista à BBC News Brasil, em abril. Na ocasião, afirmou: “Tenho uma mente liberal, quero um Estado enxuto e eficiente”. Ao explicar a outra parte do posicionamento, acrescentou que essa visão econômica deveria estar acompanhada de um “coração social”, com atenção aos direitos humanos, à educação e à proteção das mulheres.
As declarações ajudam a compreender por que dizer simplesmente que Augusto Cury é de direita ou que Augusto Cury é de esquerda não corresponde à maneira como o próprio candidato apresenta a candidatura. Cury reivindica uma posição de centro e procura construir a imagem de uma alternativa aos polos predominantes da política nacional.
Qual é o partido de Augusto Cury?
Augusto Cury disputa a Presidência da República pelo Avante, número 70. A legenda oficializou a candidatura do escritor durante convenção nacional realizada em agosto de 2026, em São Paulo.
O partido surgiu com outro nome. Durante décadas, a legenda foi denominada Partido Trabalhista do Brasil (PTdoB) e passou a utilizar o nome Avante em 2017.
A filiação partidária é um elemento importante para compreender a ideologia de Augusto Cury, mas não permite definir isoladamente todas as posições políticas do candidato. Durante a campanha, o escritor procura construir um discurso próprio, baseado principalmente na crítica à polarização e na combinação de propostas econômicas liberais com políticas sociais.
O Avante é de direita ou de esquerda?
A classificação ideológica do Avante varia conforme a metodologia utilizada. Estudos que analisam os partidos brasileiros podem considerar critérios diferentes, como comportamento das bancadas no Congresso, votações, alianças, programas partidários e posicionamentos dos parlamentares.
Uma classificação produzida no âmbito do Observatório Nacional da Mulher na Política, em parceria com pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), posiciona o Avante no campo da direita brasileira.
O Monitor da Câmara dos Deputados, por outro lado, coloca a legenda na centro-direita. A diferença entre as classificações demonstra que não existe uma única metodologia capaz de determinar de forma absoluta a posição de um partido no espectro político.
Também é necessário distinguir o posicionamento da legenda da autodefinição do candidato. Enquanto estudos classificam o Avante entre a direita e a centro-direita, Augusto Cury afirma ser de centro e procura sustentar essa posição a partir da combinação entre propostas econômicas e sociais.
Quais propostas ajudam a entender o posicionamento de Augusto Cury?
As propostas apresentadas por Augusto Cury transitam por diferentes campos e ajudam a compreender por que uma classificação baseada apenas em uma bandeira pode produzir uma leitura incompleta do candidato.
Na economia, Cury defende Estado enxuto, responsabilidade fiscal, empreendedorismo, meritocracia e maior liberdade para a atividade econômica. Em entrevista à BBC News Brasil, resumiu parte dessa visão ao afirmar: “Tenho uma mente liberal, quero um Estado enxuto e eficiente.”
O candidato também defende uma reforma administrativa, com redução de cargos comissionados e do número de ministérios. O empreendedorismo aparece como outro eixo importante da plataforma, inclusive com propostas de formação de estudantes e trabalhadores para a abertura e administração de negócios.
Ao mesmo tempo, parte relevante do programa está concentrada em educação, saúde mental, neurodivergência, direitos humanos, proteção das mulheres e atendimento às populações vulneráveis. Cury atribui ao poder público responsabilidades nessas áreas e coloca a saúde emocional entre os principais temas de sua plataforma.
No campo institucional, uma das propostas é a implantação do semipresidencialismo no Brasil, com divisão de atribuições entre presidente da República e primeiro-ministro. Cury chegou a defender Tarcísio de Freitas para ocupar a função de primeiro-ministro caso o modelo fosse implantado.
Mudanças no Supremo Tribunal Federal também aparecem entre as propostas. O candidato defende a adoção de mandatos para ministros do STF, alterando o sistema atual de permanência no cargo até a aposentadoria compulsória.
A combinação mostra que a posição política de Augusto Cury não pode ser analisada exclusivamente a partir de uma proposta. A agenda econômica apresenta aproximações com o liberalismo e a centro-direita, enquanto o discurso social enfatiza políticas públicas e proteção a grupos vulneráveis.
Augusto Cury já apoiou Lula?
Não há registro que permita afirmar que Augusto Cury apoiou pessoalmente Lula na eleição presidencial de 2022. A ausência dessa comprovação é importante porque o posicionamento adotado por um partido não pode ser automaticamente atribuído individualmente a todos os integrantes da legenda.
O que está documentado é a posição do Avante. Nas eleições presidenciais de 2022, o partido integrou a coligação Brasil da Esperança, formada em torno da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Geraldo Alckmin (PSB).
A informação diz respeito à posição institucional do Avante naquela eleição. Não há, nas informações disponíveis, declaração ou documentação que permita concluir que Augusto Cury tenha manifestado pessoalmente apoio a Lula naquele momento.
Também não é adequado utilizar a participação do Avante na coligação de 2022 para classificar automaticamente o partido como de esquerda. Aliança eleitoral e classificação ideológica são conceitos diferentes, e legendas podem estabelecer alianças com partidos posicionados em outros campos do espectro político.
Em 2026, Cury procura construir uma identidade política própria. Na entrevista à Folha de S.Paulo, definiu-se como “de centro”; à Itatiaia, apresentou a fórmula “mente capitalista e coração social”; e, durante a sabatina da Brasil Paralelo, afirmou ser “centro” e, principalmente, uma “ponte”.
As declarações, combinadas às propostas apresentadas durante a campanha, permitem uma resposta mais precisa à dúvida sobre se Augusto Cury é de direita ou de esquerda: o candidato se apresenta como de centro e contrário à polarização, embora parte de sua agenda econômica tenha características associadas ao liberalismo e à centro-direita, enquanto outras propostas enfatizam políticas sociais e maior atenção do Estado a grupos vulneráveis.




