Há 40 anos, um transplante mudou a trajetória de Geraldo Silva. Diagnosticado com uma doença renal ainda na adolescência, ele passou por sessões de hemodiálise até receber o transplante aos 25 anos. Quatro décadas depois, a experiência permanece presente na rotina do cearense e ganhou espaço também na literatura.
A relação com a escrita começou justamente durante o período de tratamento. Aos 15 anos, Geraldo precisou enfrentar a hemodiálise e encontrou nas poesias uma maneira de lidar com a nova realidade.
“Na sala de hemodiálise, comecei a escrever as minhas poesias. Estou no meu primeiro livro. E foi uma grande mudança na minha vida, porque eu acreditei, e venho a essa luta sempre por um incentivo à doação de órgãos.”
O transplante permitiu que Geraldo seguisse outros projetos pessoais. Depois do procedimento, ele formou uma família, tornou-se pai e, posteriormente, avô.
Transplante de órgão mudou a vida de Geraldo há 40 anos
Quatro décadas após o procedimento, Geraldo continua escrevendo e transformou a própria experiência em uma forma de falar sobre a importância da doação de órgãos. O trabalho iniciado durante as sessões de hemodiálise evoluiu para a publicação de livros.
Agora, ele se prepara para lançar o terceiro livro. A obra vai abordar o histórico da doença renal e do transplante vivenciado por ele.
A publicação também terá uma finalidade social. Toda a renda obtida com o livro será destinada à Associação dos Pacientes Renais do Ceará, que mantém o projeto de construir uma casa de apoio para pacientes.
“Eu vou deixar para ajudar o paciente renal, aquele mais necessitado. A gente tem o sonho de construir uma casa de apoio.”
Doação de órgãos é tema de campanha no Ceará
A campanha Maria Sofia, do Grupo Cidade de Comunicação, trabalha a conscientização sobre a doação de órgãos e busca estimular o diálogo dentro das famílias. A proposta é mostrar a importância da decisão de doar e como esse gesto pode influenciar a vida de pessoas que aguardam por um transplante.
No Ceará, foram realizados 2.102 transplantes em 2025. O número superou os 2.060 procedimentos registrados no ano anterior.
Dos transplantes realizados em 2025, 1.371 foram de córnea. Os números representam procedimentos realizados no estado, mas cada transplante está associado a uma história de pacientes que aguardam ou receberam a possibilidade de um recomeço.
Para Geraldo, a decisão sobre a doação também precisa ser discutida dentro de casa. Ele ressalta o papel dos familiares no processo e faz um apelo para que mais pessoas considerem a possibilidade de se tornar doadoras.
“Temos muitas leis, muitas coisas, mas a palavra final é da família. Então seja mais um doador de órgãos. Trazendo mais um transplante, que você pode necessitar de um transplante amanhã. Setembro Verde é isso. É abrir as portas para a doação, abrir as portas para a vida.”
A experiência de Geraldo reúne, assim, três momentos de uma mesma história: o enfrentamento da doença renal desde a adolescência, o transplante aos 25 anos e a vida construída depois do procedimento. A escrita, iniciada durante a hemodiálise, tornou-se outra forma de compartilhar essa trajetória e contribuir com pacientes que ainda enfrentam problemas relacionados à doença renal.
O terceiro livro pretende dar continuidade a esse trabalho. Além de registrar a experiência do autor, a renda da publicação será direcionada ao projeto de uma casa de apoio para pacientes renais no Ceará.
Importância de conversar com a família sobre a doação
No Brasil, mesmo que a pessoa tenha manifestado em vida a intenção de ser doadora, a autorização precisa ser dada pela família. Por isso, conversar sobre o assunto antes de uma situação de luto pode ajudar os parentes a conhecer a vontade do familiar.
Segundo Lucyara Catunda, integrante do Programa de Transplante Pulmonar do Hospital de Messejana, conversar previamente com os familiares sobre o desejo de ser doador pode facilitar todo o processo:
"Os principais responsáveis pela liberação do órgão na doação, quando o paciente está em morte encefálica, é a família. O familiar mais próximo. Então, ele sabendo que você já é doador, facilita esse processo da doação, que então acontece de modo mais rápido e menos doloroso. Porque a gente sabe que é muito doloroso. Mas já sabendo, é importante essa conscientização e sensibilização da população."




