A sequência de mortes registradas em academias de Fortaleza e da Região Metropolitana reforçou a discussão sobre a necessidade de equipamentos para atendimento de emergências nesses estabelecimentos. Entre as medidas defendidas por entidades está a presença do desfibrilador externo automático (DEA), equipamento que pode auxiliar no atendimento de pessoas em parada cardiorrespiratória até a chegada do socorro especializado.
Pelo menos oito pessoas morreram após passarem mal em academias da Grande Fortaleza em pouco mais de um ano, em ocorrências registradas entre 2025 e setembro de 2026. Os casos envolvem vítimas de diferentes idades e atividades físicas.
O episódio mais recente ocorreu na segunda-feira (14), quando um homem de 55 anos morreu após passar mal durante exercícios em uma academia no bairro Dom Lustosa, em Fortaleza. Pessoas que estavam no estabelecimento iniciaram os primeiros socorros e tentaram reanimá-lo até a chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas ele não resistiu.
A repetição das ocorrências recoloca em discussão a estrutura disponível nas academias para responder aos primeiros minutos de uma emergência, período em que o atendimento rápido pode ser determinante.
Entidades defendem DEA em academias
O debate sobre a presença de desfibriladores em academias ganhou força diante dos episódios registrados na Capital. A defesa é de que esses estabelecimentos estejam preparados para reconhecer uma emergência, iniciar os procedimentos de primeiros socorros e utilizar o DEA quando houver indicação.
O equipamento analisa o ritmo cardíaco da pessoa e, em determinadas situações, orienta a aplicação de um choque elétrico. O DEA foi desenvolvido para ser utilizado também por pessoas treinadas que não necessariamente sejam profissionais médicos, seguindo as orientações fornecidas pelo próprio aparelho.
A presença do equipamento, porém, precisa estar associada a outras medidas. Entre elas estão treinamento dos funcionários, definição de protocolos de emergência, manutenção do aparelho e acionamento imediato do Samu.
O que acontece quando uma pessoa passa mal na academia?
Em uma situação de emergência, a rapidez da resposta é um dos principais pontos de atenção. A identificação de que o aluno está em uma situação grave deve ser seguida pelo acionamento do serviço de emergência e pelo início dos procedimentos adequados.
Quando há suspeita de parada cardiorrespiratória, as manobras de ressuscitação e o uso do DEA, quando disponíveis e indicados, podem ser iniciados enquanto a equipe especializada está a caminho.
Por isso, especialistas e entidades que defendem maior estrutura nas academias consideram que não basta apenas disponibilizar o aparelho. É necessário que os funcionários saibam onde ele está, tenham treinamento para utilizá-lo e conheçam os procedimentos que devem ser adotados diante de uma emergência.
Fortaleza já possui regra para instalação de desfibriladores
Em Fortaleza, a legislação prevê a instalação de desfibriladores em locais com circulação superior a 2 mil pessoas por dia. A discussão levantada diante das mortes em academias envolve a possibilidade de ampliar a exigência para estabelecimentos voltados à prática de atividades físicas, considerando as características desses espaços e a possibilidade de ocorrência de emergências médicas durante os exercícios.
A existência de um DEA, no entanto, não substitui a atuação de profissionais de saúde. O equipamento deve integrar uma cadeia de atendimento que inclui o reconhecimento rápido da emergência, primeiros socorros e acionamento do serviço médico.
Decon já recomendou medidas para academias
Em abril de 2026, o Programa Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor (Decon), vinculado ao Ministério Público do Ceará, recomendou que academias adotassem medidas para reforçar a segurança dos alunos após uma morte registrada durante exercícios em Fortaleza.
Entre as orientações estavam a apresentação de atestado médico no momento da matrícula e uma avaliação prévia das condições de saúde dos alunos. O órgão também recomendou que os estabelecimentos mantenham profissionais habilitados para acompanhar as atividades e estabeleçam protocolos para situações de emergência. As recomendações ampliam a discussão sobre a responsabilidade das academias na prevenção e no atendimento de ocorrências que possam colocar alunos em risco.
Oito mortes foram registradas em academias
O levantamento reúne oito mortes ocorridas em academias da Grande Fortaleza desde 2025. Os episódios envolvem pessoas de diferentes idades e ocorreram durante ou após atividades físicas.
Entre os casos está o de uma adolescente de 17 anos, que morreu após passar mal em uma academia no bairro João XXIII, em agosto de 2026. Em abril, o profissional de Educação Física Renan Guedes Brito da Silva, de 31 anos, morreu depois de passar mal durante um treino no bairro Parreão. Também estão no levantamento mortes registradas nos bairros Papicu, Sapiranga e Castelão, além de ocorrências em municípios da Região Metropolitana.
Os casos, porém, não permitem estabelecer que a atividade física tenha provocado os óbitos. Em parte das ocorrências, as causas das mortes não foram divulgadas ou dependiam de avaliação pericial.
Relembre alguns casos
Homem de 55 anos morreu no Dom Lustosa
O caso mais recente ocorreu na manhã de segunda-feira (14), em uma academia localizada em um centro comercial no bairro Dom Lustosa. O homem fazia exercícios por volta das 6h quando passou mal. Pessoas que estavam no local iniciaram os primeiros socorros e acionaram o Samu. As tentativas de reanimação continuaram até a chegada da equipe médica, mas o homem não resistiu. A Polícia Militar e a Perícia Forense também foram acionadas.
Adolescente de 17 anos morreu no João XXIII
Em agosto de 2026, uma adolescente de 17 anos passou mal enquanto utilizava uma esteira em uma academia no bairro João XXIII. Ela recebeu atendimento e foi encaminhada para um hospital, mas morreu posteriormente na unidade. A ocorrência foi registrada pela Polícia Civil. Não havia confirmação sobre a causa do mal-estar ou sobre eventual relação entre o exercício e a morte.
Professor de Educação Física morreu no Parreão
Em abril de 2026, Renan Guedes Brito da Silva, de 31 anos, morreu após passar mal durante um treino em uma academia no bairro Parreão. Ele havia terminado a musculação e fazia exercícios cardiovasculares em um equipamento de escada quando passou mal. O homem caiu do aparelho e morreu. Renan era profissional de Educação Física e dava aulas de hidroginástica no prédio onde morava.
Mulher morreu durante exercício no Papicu
Em dezembro de 2025, uma mulher de aproximadamente 60 anos morreu enquanto praticava atividade física em uma academia no bairro Papicu. Ela utilizava um aparelho de leg press quando passou mal. Profissionais do estabelecimento e outros alunos prestaram auxílio até a chegada do Samu. Os socorristas realizaram manobras de ressuscitação por mais de uma hora, mas a mulher não resistiu.
Homem morreu após treino na Sapiranga
Em 20 de outubro de 2025, Artur do Nascimento Rodrigues, de 44 anos, morreu após passar mal em uma academia localizada na Avenida Washington Soares, no bairro Sapiranga. Segundo uma testemunha, ele havia realizado exercícios para as pernas e estava próximo ao aparelho Leg 45° quando apresentou o mal súbito. O Samu foi acionado e realizou procedimentos de reanimação, mas Artur não respondeu.
Homem morreu no Castelão
Em 13 de outubro de 2025, Cristiano Silva Honorato, de 44 anos, morreu depois de passar mal em uma academia no bairro Castelão. Segundo as informações divulgadas na época, ele havia terminado o treino e não utilizava nenhum equipamento quando apresentou o mal-estar. O Samu foi acionado e realizou procedimentos de reanimação, mas Cristiano não resistiu. A academia informou que aguardaria o laudo oficial para confirmação da causa da morte.
DEA não substitui treinamento
A discussão sobre o uso do desfibrilador nas academias envolve também a preparação das equipes. Ter o equipamento disponível não garante, sozinho, uma resposta adequada diante de uma emergência.
É necessário que funcionários saibam reconhecer sinais de gravidade, acionem rapidamente o Samu, iniciem os procedimentos indicados e estejam preparados para utilizar o DEA quando houver indicação.
Também são importantes a manutenção periódica do equipamento, a sinalização e o acesso rápido ao aparelho. Diante das mortes registradas em academias de Fortaleza e da Região Metropolitana, a cobrança por maior estrutura de atendimento coloca em evidência uma questão prática: o que o estabelecimento consegue fazer nos primeiros minutos após um aluno passar mal?
A defesa do DEA nas academias está associada justamente à necessidade de reduzir o tempo entre o início de uma parada cardiorrespiratória e o começo do atendimento, enquanto o socorro especializado se desloca até o local.




