A consultoria do Sebrae tem sido utilizada por empreendedores como ferramenta para organizar processos, modernizar sistemas e melhorar a gestão dos negócios. A experiência de empresários acompanhados pela instituição mostra como empresas que cresceram ao longo dos anos podem enfrentar um novo desafio: estruturar a administração na mesma velocidade em que o empreendimento se desenvolve.
Um dos exemplos é o de um restaurante que está próximo de completar 19 anos de funcionamento. Quando o estabelecimento foi criado, os sócios decidiram apostar em um endereço que ainda não era considerado tradicional para restaurantes de gastronomia sofisticada.
A proposta era reunir famílias cearenses e recuperar uma experiência de restaurante que fazia parte da memória dos sócios.
O empresário Agostin Herrero explica que a ideia inicial era criar um espaço com características de restaurantes frequentados pela família e pelo público cearense.
“Montar um restaurante para reunir as famílias cearenses, um restaurante que remetesse um pouco como era aquele restaurante que todo mundo frequentava na Beira-Mar, que era o Trapiche.”
A estratégia deu resultado. O estabelecimento cresceu gradualmente, passou a receber eventos e incorporou novas demandas. O problema é que a expansão aconteceu de forma mais rápida do que a organização dos processos internos.
Crescimento do negócio trouxe novos desafios
Segundo Agostin, a evolução do restaurante ocorreu de maneira orgânica. Com o aumento das atividades, porém, surgiu a necessidade de parar e reorganizar a empresa.
“Tudo isso foi acontecer de uma forma orgânica, sem a gente ter muito planejamento.”
O empresário afirma que, em determinado momento, percebeu que o crescimento havia criado uma estrutura empresarial que precisava de processos mais organizados.
“Eu me vi com uma empresa que cresceu, cresceu, cresceu e a gente nunca teve tempo de parar e organizar a empresa.”
Foi nesse momento que o Sebrae passou a fazer parte do processo de reorganização.
A situação relatada pelo empresário representa um desafio comum para negócios que começam pequenos e ampliam suas operações ao longo do tempo. O crescimento pode significar mais clientes, funcionários, fornecedores, produtos e serviços, mas também aumenta a necessidade de planejamento, controle e definição de processos.
Sem uma estrutura de gestão compatível com o tamanho da empresa, tarefas que antes eram simples podem se tornar mais complexas.
Modernização passa por sistemas e automação
Além da organização da gestão, a modernização tecnológica também entrou no processo de transformação do restaurante.
A empresária Cecília Selegmann destaca que algumas práticas utilizadas pelo negócio permaneceram praticamente iguais durante anos e que a atualização dos sistemas passou a ser necessária.
“A gente também tá se modernizando bastante, porque, enfim, a gente tá quase 19 anos. E a gente, algumas coisas, trabalhava da mesma forma há 19 anos atrás.”
Segundo ela, a implantação de soluções mais automatizadas passou a fazer parte dessa nova etapa.
“A parte da modernização de sistemas, implantar coisas mais automatizadas e tudo também foi bem importante pra gente.”
A modernização, nesse contexto, não significa apenas incorporar novas ferramentas. Ela está relacionada também à capacidade de tornar processos mais eficientes e permitir que os gestores tenham mais tempo para atividades estratégicas.
Para empresas que passaram anos concentradas na operação diária, essa mudança pode representar uma alteração na própria forma de administrar o negócio.
Consultoria do Sebrae e sobrevivência das empresas
Dados apresentados pelo Sebrae ajudam a dimensionar a importância do acompanhamento especializado para pequenos negócios.
Um levantamento da instituição aponta que 77% dos negócios que receberam consultoria permanecem ativos cinco anos depois da abertura. Segundo o estudo, a assistência também reduz de forma significativa o risco de encerramento das empresas.
A análise considera microempreendedores individuais (MEIs), microempresas e empresas de pequeno porte de todo o país.
Outro dado apresentado no levantamento mostra uma diferença entre os MEIs que receberam acompanhamento técnico e aqueles que não tiveram esse tipo de assistência. Entre os que não receberam atendimento, 33,7% permaneciam ativos após cinco anos. Entre aqueles acompanhados pelo Sebrae, a taxa de sobrevivência chegava a quase 65%.
O levantamento considera um universo de empresas ativas no país e foi desenvolvido justamente para comparar a trajetória dos negócios atendidos diretamente pelo Sebrae com aqueles que não receberam esse acompanhamento.
Os números não significam que a consultoria seja o único fator responsável pela continuidade de uma empresa. A sobrevivência de um negócio também depende de aspectos como mercado, demanda, capacidade financeira, gestão, concorrência e condições econômicas.
Os dados, porém, mostram uma associação entre o acompanhamento técnico e taxas maiores de permanência no mercado.
Sebrae oferece diferentes soluções para empreendedores
A atuação da instituição não se limita a empresas que já estão consolidadas. De acordo com Suilany Teixeira, articuladora de competitividade, o Sebrae possui diferentes modalidades de atendimento para acompanhar negócios em fases distintas.
A proposta é oferecer suporte desde a preparação do empreendimento até etapas relacionadas à consolidação e expansão.
Entre os serviços estão consultorias, capacitações e ações direcionadas à estratégia, ao mercado, à gestão e à inovação.
Suilany explica que o atendimento pode começar ainda na fase de planejamento do negócio.
“A gente atende inclusive desde o processo de preparação desse negócio, fazendo todo o planejamento de ações, seu plano de ação, seu posicionamento de mercado.”
O acompanhamento também pode envolver áreas específicas da administração.
“Através de consultorias de gestão, de mercado, de inovação, que hoje a gente tem falado muito sobre isso.”
A lógica é adaptar o suporte às necessidades de cada empresa. Um empreendimento em fase inicial pode precisar de orientação para estruturar seu planejamento. Já uma empresa consolidada pode buscar auxílio para reorganizar processos, modernizar sistemas ou encontrar novas possibilidades de mercado.
Organização libera gestores para pensar no futuro
No caso do restaurante acompanhado pelo Sebrae, a consultoria chegou quando o negócio já havia alcançado uma estrutura maior. O desafio, portanto, não era apenas crescer, mas criar condições para administrar o crescimento.
A avaliação apresentada por Suilany é que processos mais organizados podem diminuir a sobrecarga dos gestores na rotina operacional.
“Você tendo a casa organizada, os processos que funcionam de uma forma mais fácil, os gestores têm mais tempo para estar pensando, para estar inovando, para estar indo atrás de outros tipos de incentivos, de mercados.”
A organização interna passa, dessa forma, a ter impacto sobre decisões estratégicas. Com processos definidos, a gestão pode dedicar mais atenção à inovação, à busca por novos mercados e à identificação de oportunidades.
A experiência dos empresários também mostra que modernizar uma empresa não necessariamente significa mudar completamente o modelo de negócio. Em alguns casos, trata-se de atualizar sistemas, automatizar tarefas e estabelecer procedimentos capazes de acompanhar o tamanho que a empresa alcançou.
Para pequenos negócios, esse processo pode ser especialmente relevante porque decisões de gestão costumam estar concentradas em poucos responsáveis.
A consultoria especializada surge, nesse cenário, como uma possibilidade de apoio externo para identificar gargalos e estruturar mudanças.
O caso do restaurante de Cecília e Agostin ilustra uma trajetória em que a expansão aconteceu primeiro e a reorganização administrativa veio depois. A partir do acompanhamento do Sebrae, a empresa passou a olhar para processos, tecnologia e gestão como partes importantes de uma mesma estratégia.




