A história de Fortaleza ganhou novas formas e cores em uma exposição que utiliza o bordado para homenagear os 300 anos da capital cearense. Intitulada “Soul Fortaleza”, que significa “A alma da cidade”, a mostra reúne trabalhos de 43 artistas têxteis e transforma acontecimentos, lugares e costumes da cidade em peças de arte.
Em cada tela, um período da história de Fortaleza é representado a partir de um ícone da cultura local. O projeto une referências históricas à trajetória das próprias artistas, com diferentes interpretações sobre a identidade da capital.
A exposição está em cartaz no Banco do Nordeste Cultural e, até o fim do ano, as 43 obras também passarão pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) e pela Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece).
Primeiro mapa de Fortaleza ganha versão em bordado
Entre as obras está uma representação do primeiro mapa de Fortaleza, datado de 1726. A peça foi bordada pela artista têxtil Maria Jurandi Carneiro, que transformou o registro histórico em uma tela dedicada à cidade.
Para Jurandi, o processo exigiu cuidado e envolvimento pessoal com o tema. Ele falou sobre o tema com a TV Cidade Fortaleza:
"Foi um prazer muito grande bordar esse quadro. Eu bordei com muita paciência, com muito carinho, para sair um trabalho bem feito, para ter uma identidade, do meu amor, da minha alma por Fortaleza."
Outro marco da história da capital aparece pelas mãos da artista têxtil Sônia Castelo Branco. O bordado representa a Igreja do Rosário, considerada a primeira igreja de Fortaleza e construída em 1730.
A escolha da igreja também tem um significado pessoal para a artista:
"Eu cresci e me criei na Igreja Católica, e achei uma coisa muito boa de se fazer. Então trouxe uma conotação muito grande em termos de significado para o catolicismo aqui em Fortaleza."
Bode Ioiô, sol e educação entram na exposição
A mostra também percorre características que fazem parte do imaginário dos fortalezenses. Entre elas estão a eleição do bode Ioiô, personagem conhecido pela irreverência da cidade, a tradição de vaiar o sol e o humor presente no chamado Cajueiro da Mentira.
A educação também aparece entre os temas representados pelas artistas, com referências ao Liceu, à Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC) e a outras instituições de ensino.
Para a artista têxtil Cristina Borges, esse aspecto é parte essencial da capital cearense:
"Não é à toa que a educação do Ceará e a educação de Fortaleza se destacam nacionalmente. É parte da nossa identidade."
O objetivo da exposição não é apenas reproduzir acontecimentos históricos, mas também registrar elementos que fazem parte da maneira como a cidade é percebida por seus moradores.
Artistas bordam até o vento da Praça do Ferreira
Um dos elementos mais simbólicos da proposta aparece em uma obra dedicada ao vento da Praça do Ferreira. A artista, bordadeira e curadora Lourdes Bernardo decidiu representar algo que não pode ser visto, mas que faz parte da experiência de quem conhece o local.
"Como a nossa exposição tem esse intuito de retratar a alma, o imaginário, o sentimento, a emoção, ou seja, o invisível da cidade, eu vou me atrever e bordar o invisível, que é o vento da Praça do Ferreira."
A proposta da exposição passa por elementos que ultrapassam registros materiais. A intenção é identificar sentimentos, memórias e características percebidas por quem vive em Fortaleza.
Lourdes destaca ainda a relação entre a obra e a experiência dos moradores da capital:
"Nós queremos justamente identificar isso, aquilo que está no íntimo do fortalezaense, aquilo que só o fortalezaense sente."
43 artistas representam três séculos de Fortaleza
Cada década dos 300 anos de Fortaleza foi representada pelas mãos das 43 artistas têxteis que participam do projeto. As telas apresentam diferentes referências da história e da cultura da capital, enquanto também carregam elementos das trajetórias individuais das bordadeiras.
A exposição transforma o bordado em uma forma de preservar memórias e apresentar a cidade a partir de um símbolo presente na cultura cearense.
O trabalho também teve uma etapa de produção em um ateliê de cerâmica de Fortaleza. Como homenagem às artistas participantes, o espaço produziu uma jangada e a escultura “La Femme Bateau” em cerâmica.
Cerâmica também homenageia as bordadeiras
As peças criadas no ateliê foram pensadas para representar aspectos históricos e culturais de Fortaleza e também como presentes para as mulheres que participaram da exposição.
A artista plástica Raquel Bernardo explica a escolha dos elementos utilizados nas criações.
"Buscamos representar a cultura e o momento histórico que é o momento da abolição dos escravos, com as jangadas do Drago no Mar. E a parte cultural e cenográfica, artística da cidade, com La Femme Buteau. Então foram modeladas à mão 300 pingentes, como forma de presentear e homenagear essas mulheres tão importantes que fizeram essa exposição tão grande."
Exposição percorre outros espaços até o fim do ano
Além de reunir referências históricas, “Soul Fortaleza” dá visibilidade ao bordado como uma expressão do artesanato típico do povo cearense. As obras apresentam diferentes períodos e símbolos da capital a partir do olhar de artistas que vivem na cidade.
Depois da temporada no Banco do Nordeste Cultural, as 43 telas passarão pela Uece e pela Assembleia Legislativa até o final do ano.




