O Ceará apresenta o maior percentual do Brasil de estudantes dos anos finais do ensino fundamental, do 6º ao 9º ano, matriculados em tempo integral na rede pública. Em 2025, 74,9% dos alunos dessa etapa permaneciam na escola por pelo menos 35 horas semanais, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026, elaborado pelo Todos Pela Educação com dados oficiais da educação brasileira.
Quando são consideradas as redes pública e privada, o percentual do Ceará fica em 61,9%. Na rede particular, apenas 1,5% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental estavam em tempo integral, mostrando que a oferta da jornada ampliada no Estado está concentrada principalmente na rede pública.
O levantamento, publicado em setembro de 2026, também apresenta outros aspectos da educação cearense. Ao mesmo tempo em que a jornada ampliada alcança uma parcela expressiva dos alunos, os dados apontam desafios relacionados à conectividade das escolas e à aprendizagem, especialmente na transição entre o ensino fundamental e o médio.
Ceará tem 74,9% dos alunos da rede pública em tempo integral
O percentual de 74,9% coloca o Ceará na primeira posição nacional entre os estados no recorte de estudantes do 6º ao 9º ano da rede pública matriculados em tempo integral. O indicador considera alunos que permanecem pelo menos 35 horas semanais em atividades presenciais de escolarização.
O conceito utilizado pelo Anuário não se limita aos estudantes que têm aulas regulares durante dois turnos. Também são considerados aqueles que cumprem a carga horária curricular em um período e participam, no contraturno, de atividades complementares, atendimento educacional especializado ou outras atividades previstas na metodologia, desde que o total alcance pelo menos 35 horas semanais.
No conjunto das redes pública e privada, o Ceará registra 61,9% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental em tempo integral. A diferença ocorre principalmente porque a participação da rede particular nessa modalidade é bem menor: 1,5% dos alunos dessa etapa estudam em jornada ampliada.
O dado mostra que a expansão do tempo integral no Ceará está fortemente concentrada na rede pública. O Estado aparece, assim, com uma das maiores coberturas nacionais de jornada ampliada entre os estudantes dessa faixa de escolarização.
Como funciona a jornada de tempo integral
A ampliação da permanência na escola não significa necessariamente repetir durante mais horas o conteúdo do turno regular. A jornada pode incluir reforço escolar, atividades esportivas e culturais, disciplinas eletivas, projetos de vida e outras ações complementares.
A gerente de políticas educacionais do Todos Pela Educação, Manoela Miranda, explica que a proposta busca utilizar o tempo adicional para ampliar as oportunidades de formação dos estudantes. Entre as possibilidades estão atividades diversificadas, maior contato com educadores e participação em projetos escolhidos pelos próprios alunos. A lógica, portanto, envolve não apenas o número de horas que o estudante permanece no ambiente escolar, mas também a forma como esse período é organizado e utilizado pedagogicamente.
Um estudo divulgado em setembro pelo Instituto Natura e pelo Instituto Sonho Grande analisou dados do Saeb, do Ideb e do Censo Escolar de 2025 e encontrou desempenho superior em escolas de ensino médio do Ceará com todas as turmas em tempo integral em comparação com unidades de período parcial. Segundo o levantamento, a diferença de desempenho equivale a cinco anos de aprendizado. Esse estudo, porém, trata especificamente do ensino médio e não deve ser confundido com o indicador de 74,9% dos anos finais do ensino fundamental.
Conectividade ainda é desafio nas escolas do Ceará
A expansão do tempo integral ocorre em um cenário no qual a infraestrutura digital ainda apresenta limitações. Segundo o Anuário, em julho de 2026, 51,7% das escolas públicas do Ceará estavam no nível 5 de conectividade, classificação que reúne unidades com velocidade de internet e rede Wi-Fi adequadas.
Esse percentual foi o terceiro menor entre os estados brasileiros, à frente apenas de Amapá e Roraima. No cenário nacional, 78,7% das escolas públicas estavam dentro dos parâmetros considerados adequados de conectividade em julho de 2026.
No Ceará, 31,5% das escolas estavam no nível 2, caracterizado por velocidade e rede Wi-Fi inadequadas. Outras 16% estavam no nível 4, com velocidade adequada, mas rede Wi-Fi considerada insuficiente. Os demais níveis reuniam parcelas menores: 0,4% das escolas estavam no nível 1, com velocidade inadequada e sem rede Wi-Fi; 0,3% estavam no nível 3, com velocidade adequada, mas sem rede Wi-Fi; e 0,1% estavam no nível 0, correspondente a unidades sem conexão ou sem energia elétrica adequada.
Para Manoela Miranda, além da ampliação da cobertura, o uso pedagógico da tecnologia precisa estar associado ao planejamento dos professores. O diagnóstico das áreas sem cobertura e a definição de estratégias para ampliar o acesso também são apontados como etapas necessárias.
Aprendizagem cai na comparação entre ensino fundamental e médio
Os indicadores de aprendizagem mostram outra diferença relevante na trajetória escolar. No Ceará, 33,4% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental apresentaram aprendizagem adequada em matemática em 2025, enquanto o índice chegou a 51,2% em língua portuguesa.
No ensino médio, os percentuais foram menores: 13,6% em matemática e 39,7% em língua portuguesa. A comparação não acompanha necessariamente os mesmos estudantes individualmente, mas apresenta os resultados registrados em cada etapa de ensino.
Também aumenta a parcela de estudantes classificados abaixo do nível básico. Nos anos finais do ensino fundamental, 22,2% estavam abaixo do básico em matemática e 11,9% em língua portuguesa. No ensino médio, os índices chegavam a 52,5% em matemática e 28,7% em língua portuguesa. O próprio Anuário apresenta esses indicadores como parte do retrato da aprendizagem em cada etapa escolar.
A análise da especialista do Todos Pela Educação aponta, entre os fatores relacionados a essa diferença, a necessidade de consolidar conhecimentos fundamentais antes da progressão para conteúdos mais complexos. Em matemática, por exemplo, dificuldades em operações básicas podem comprometer a compreensão de conteúdos posteriores.
O que os dados mostram sobre a educação cearense
Os números do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026 apresentam um cenário com avanços e desafios distintos. Na jornada escolar, o Ceará aparece na liderança nacional entre os estudantes da rede pública dos anos finais do ensino fundamental: 74,9% estão matriculados em tempo integral.
Considerando todas as redes, o percentual é de 61,9%. Já no ensino médio, o índice de matrículas em tempo integral no Estado é de 52,3%, segundo o panorama estadual do Anuário. A infraestrutura tecnológica apresenta uma realidade diferente. Pouco mais da metade das escolas públicas cearenses, 51,7%, estava no nível considerado adequado de conectividade em julho de 2026, percentual inferior ao registrado nacionalmente.
Na aprendizagem, os resultados mostram uma diferença entre os anos finais do ensino fundamental e o ensino médio, com percentuais menores de desempenho adequado e maior presença de estudantes abaixo do nível básico na etapa mais avançada.
Os dados utilizados pelo Anuário incluem os microdados do Censo Escolar da Educação Básica de 2025 e os resultados do Saeb 2025. Para o indicador de conectividade, são considerados dados do monitoramento das escolas conectadas, com referência a julho de 2026.
O retrato, portanto, combina uma ampla presença do tempo integral na rede pública dos anos finais do ensino fundamental com desafios ainda presentes na infraestrutura digital e na consolidação da aprendizagem ao longo da trajetória escolar.




