A história dos governadores do Ceará nos últimos 60 anos é marcada por mudanças na forma de escolha dos chefes do Executivo estadual e pela sucessão de diferentes grupos políticos no comando do Estado. O período começa ainda durante a ditadura militar, quando os governadores eram escolhidos de forma indireta, passa pela retomada do voto popular e chega à atual gestão de Elmano de Freitas (PT), em um momento de reconfiguração das forças políticas cearenses.
Embora Virgílio Távora seja uma das principais referências daquele período, a cronologia começa em 1966, com Plácido Aderaldo Castelo. A partir daquele ano, quatro governadores chegaram ao cargo por eleição indireta: Plácido Castelo, César Cals, Adauto Bezerra e Virgílio Távora. A escolha direta pelo eleitorado foi retomada em 1982.
Governadores do Ceará: da ditadura militar à volta do voto direto
A mudança ocorreu durante o regime militar, quando a escolha dos governadores passou a ser feita pela Assembleia Legislativa, por indicação dos presidentes militares. No Ceará, quatro nomes chegaram ao Palácio da Abolição por esse modelo.
Plácido Castelo governou entre 1967 e 1971. Na sequência, vieram César Cals, de 1971 a 1974; Adauto Bezerra, de 1975 a 1978; e Virgílio Távora, que retornou ao governo em 1979 e permaneceu até 1982. A Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) registra esse período como marcado pela atuação dos chamados coronéis da política cearense.
Na literatura política do Ceará, esse período ficou conhecido como “era dos coronéis”, em referência principalmente a César Cals, Adauto Bezerra e Virgílio Távora. Para a professora Monalisa Torres, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), pesquisadora do OPN/UECE e do LEPEM/UFC, o período foi marcado pela concentração de poder e pela formação de redes políticas entre o governo estadual e lideranças municipais.
“A ciência política no Ceará delimitou a chamada era dos coronéis a partir de elementos comuns, principalmente a ausência de eleições diretas para governador e para prefeitos de cidades estratégicas. Havia uma forte centralização do poder e relações políticas marcadas pelo clientelismo", afirmou.
Segundo a pesquisadora, esse modelo também ampliava a dependência dos municípios em relação aos governos estadual e federal. “Naquela época, o governador tinha um poder muito grande sobre a estrutura pública. Os prefeitos dependiam fortemente dos repasses de recursos e, portanto, manter uma relação próxima com o governador era fundamental para a própria administração municipal.”
Monalisa ressalta, porém, que a avaliação histórica daquele período não deve considerar apenas os aspectos políticos. “Embora a política fosse marcadamente tradicional, clientelista e centralizada, os governos dos coronéis também foram responsáveis pelo início de um processo de modernização econômica do Estado. Eles começaram a construir a infraestrutura necessária para atrair indústrias para o Ceará.”
Gonzaga Mota marca a retomada das eleições diretas
A abertura política mudou o cenário eleitoral. Em 1982, os cearenses voltaram a escolher diretamente o governador, e Luiz Gonzaga da Fonseca Mota foi eleito para comandar o Estado a partir de 1983. A retomada do voto direto abriu uma nova etapa na política cearense.
Para a cientista política Carla Michele Quaresma, essa transição começou antes mesmo da eleição de Tasso Jereissati, em 1986. “Essa transição no Ceará começa na década de 1980. Nós tivemos a eleição de Gonzaga Mota, que, embora tivesse o apoio dos coronéis, rompe com aquela lógica mais tradicional de poder.”
A retomada do voto direto também alterou a dinâmica das disputas pelo governo estadual, na avaliação da especialista. “A volta do voto direto acabou deslocando esse poder para a mobilização do eleitorado mais urbano, principalmente na Região Metropolitana. Além disso, havia uma demanda por uma lógica de maior eficiência administrativa.” O cenário abriu espaço para a eleição de 1986, considerada pelas especialistas um dos principais pontos de inflexão da política cearense.
Tasso Jereissati e a chamada Era das Mudanças
Em 1986, Tasso Jereissati foi eleito governador do Ceará. Ele assumiu em março de 1987 e passou a comandar um projeto político que ficou conhecido como “Era das Mudanças”. A proposta se apresentou como uma alternativa ao modelo político tradicional associado aos coronéis.
Carla Michele Quaresma explica que a candidatura de Tasso encontrou um ambiente favorável à ideia de renovação política. “Em 1986, Tasso Jereissati consolida essa ruptura com a política dos coronéis, trazendo a vertente empresarial urbana para a lógica do poder no Estado.” Segundo a cientista política, a campanha também modificou a forma de fazer política no Ceará. “A campanha de 1986 trouxe uma lógica baseada em técnicas modernas de marketing eleitoral, com a popularização e a interiorização dos meios de comunicação e a possibilidade de tornar o candidato conhecido em todo o Estado.”
Para Monalisa Torres, o chamado ciclo mudancista também foi marcado pela tentativa de aproximar a administração pública de métodos de gestão utilizados no setor privado. “Tasso promove uma mudança profunda na forma de gerir o Estado. Ele inaugura um modelo baseado em uma perspectiva muito próxima da gestão empresarial, enxuga a máquina pública, enfrenta os chamados funcionários fantasmas e reorganiza a estrutura administrativa.”
A pesquisadora também cita a reorganização das secretarias e a privatização do Banco do Estado do Ceará, o BEC, como parte desse processo. “O Ceará se tornou um modelo de gestão pública para o Brasil. Era uma administração preocupada em organizar as contas públicas para conseguir recursos para investimentos.”
Tasso governou de 1987 a 1990. Depois dele, Ciro Gomes comandou o Estado entre 1991 e 1994. Tasso voltou ao governo em 1995 e permaneceu até 2002, quando deixou o cargo. O vice-governador Beni Veras concluiu o mandato. Em 2003, Lúcio Alcântara assumiu o governo após vencer a eleição de 2002.
A chegada dos Ferreira Gomes ao comando do Estado
A eleição de Cid Gomes em 2006 marcou uma nova mudança na configuração política do Ceará. Ele assumiu em janeiro de 2007 e foi reeleito em 2010, dando início a um período de forte influência dos Ferreira Gomes na política estadual.
Para Monalisa Torres, a vitória de Cid representou o início de outro ciclo político. “A emergência dos Ferreira Gomes como grandes lideranças políticas praticamente domina a política cearense de 2006 até 2022.” Na avaliação da pesquisadora, uma das diferenças em relação ao período de Tasso estava na composição das alianças. “Quando olhamos para o período dos Ferreira Gomes, temos uma coalizão mais heterogênea. Há partidos de diferentes matizes ideológicas, lideranças de lugares diferentes, com bases eleitorais e interesses distintos.”
Essa composição, segundo Monalisa, aumentava a necessidade de negociação entre as diferentes forças políticas. “Era uma coalizão mais ampla e, por isso, mais difícil de gerenciar. Isso exigia uma capacidade maior de negociação da principal liderança, no caso Cid Gomes.” A articulação política se tornou uma das características destacadas pela pesquisadora ao analisar aquele período. “O Cid se tornou uma liderança imprescindível para a política no Estado, dada a sua capacidade de negociação e de gerenciamento de coalizões tão extensas e heterogêneas.”
Camilo Santana amplia o ciclo político
Depois dos dois mandatos de Cid Gomes, Camilo Santana foi eleito governador em 2014 e assumiu o cargo em janeiro de 2015. Reeleito em 2018, permaneceu no Palácio da Abolição até abril de 2022, quando deixou o governo para disputar uma vaga no Senado.
Camilo havia participado das gestões de Cid e, segundo Monalisa Torres, sua chegada ao governo pode ser entendida dentro da continuidade daquele grupo político. “O Camilo entra como um dos nomes importantes nessa continuidade do ciclo ferreiragomista.”
A especialista identifica, ao mesmo tempo, uma característica própria das gestões daquele período: a combinação entre equilíbrio fiscal e investimentos sociais. “Se na era Tasso a grande marca era a modernização e a industrialização do Estado, nos Ferreira Gomes o grande legado foi esse equilíbrio entre a saúde financeira e os investimentos sociais, principalmente na educação.”
A educação passou a ocupar espaço importante na avaliação sobre os resultados das administrações daquele ciclo. Carla Michele Quaresma também destaca a continuidade administrativa como um dos fatores para explicar a permanência do grupo político.
“Para que haja longevidade, os governos precisam apresentar resultados. A legitimidade e a aceitação decorrem também dessa sensação de que as coisas estão funcionando.” Ela cita a educação como exemplo. “Nós tivemos um investimento muito grande nessas últimas gestões na área da educação, e os resultados mostram avanços bastante positivos.”
Izolda Cela e a ruptura política de 2022
Com a saída de Camilo Santana do governo em abril de 2022, a vice-governadora Izolda Cela assumiu o comando do Estado e permaneceu no cargo até o fim daquele ano. A mudança ocorreu em meio ao desgaste da aliança que reunia diferentes forças partidárias no Ceará. Para Monalisa Torres, a ruptura se tornou definitiva naquele período.
“Em 2022, a ruptura do grupo acontece em definitivo. O PT passa a se autonomizar, com Camilo assumindo protagonismo dentro do partido, enquanto os Ferreira Gomes também se distanciam.” Carla Michele Quaresma também considera 2022 um momento decisivo para a reorganização do sistema partidário estadual. “Depois da ruptura do PDT nas eleições de 2022, nós tivemos uma reconfiguração desse sistema partidário, porque o PT acabou assumindo essa hegemonia.”
Elmano de Freitas inaugura um novo ciclo?
Em 2022, Elmano de Freitas (PT) foi eleito governador do Ceará no primeiro turno. Ele assumiu o cargo em janeiro de 2023, com apoio político de Camilo Santana. A chegada de Elmano ao Palácio da Abolição alterou a composição das forças que haviam sustentado os governos anteriores. A questão levantada pelas especialistas é se essa mudança representa apenas uma nova composição dentro de um ciclo político anterior ou se marca o início de uma nova fase.
Monalisa Torres é cautelosa ao avaliar o cenário atual. “Eu não me sinto segura, com as evidências que temos hoje, para afirmar que estamos em uma nova era.” A pesquisadora trabalha com diferentes possibilidades para interpretar o momento político do Estado. “Se estamos em uma nova era, uma das hipóteses é que ela seja camilista, com Camilo assumindo esse protagonismo e personalizando o ciclo. Outra possibilidade é que seja uma era petista, em que a marca não esteja associada a uma única pessoa, mas a um grupo maior ligado ao partido.”
Para ela, as eleições de 2026 poderão fornecer novos elementos para essa análise. “As eleições de 2026 podem nos dar pistas importantes para pensar essa continuidade e entender se estamos, de fato, diante de um novo ciclo político.” A pesquisadora também avalia o papel de Elmano nessa configuração. “O Elmano ainda está em uma posição que precisa ser melhor compreendida. É preciso saber se ele será uma liderança aliada e submetida ao camilismo ou se estará associado a um novo ciclo mais diretamente petista.”
Seis décadas de mudanças na política cearense
A trajetória dos governadores do Ceará desde os anos 1960 passa por diferentes formas de organização do poder. O Estado saiu de um período em que os governadores eram escolhidos indiretamente durante o regime militar, retomou a eleição direta em 1982 e, posteriormente, passou por diferentes ciclos de liderança política.
Nesse percurso, a chamada Era das Mudanças, associada a Tasso Jereissati, foi sucedida por governos de diferentes grupos e alianças até a ascensão dos Ferreira Gomes e, posteriormente, pela reorganização política iniciada em 2022. A própria documentação histórica da ALECE identifica a eleição de Gonzaga Mota e, depois, a ascensão de Tasso como momentos importantes da transição política cearense.
Para Carla Michele Quaresma, um dos elementos que ajudam a explicar a permanência de determinados grupos é a capacidade de articulação com as lideranças municipais. “As lideranças municipais precisam se adequar à lógica de poder. Existe uma dependência muito grande dos municípios em relação ao Estado e à União, então os líderes municipais acabam aderindo com facilidade ao gestor de plantão.”
A cientista política também aponta a capacidade de adaptação partidária como uma característica da política cearense. “Ao contrário de muitos estados, onde existe uma questão partidária mais definida e um rigor ideológico maior, aqui há uma facilidade muito grande de migração entre partidos. Isso permite manter a capilaridade e a capacidade de atuação.”
É nesse contexto que as eleições de 2026 entram na análise das especialistas. A disputa poderá acrescentar novos elementos para compreender a configuração das forças políticas do Ceará após a ruptura de 2022 e a chegada de Elmano de Freitas ao governo.
Governadores do Ceará nos últimos 60 anos
Período de escolha indireta
- Plácido Castelo 1967 a 1971
- César Cals 1971 a 1974
- Adauto Bezerra 1975 a 1978
- Virgílio Távora 1979 a 1982
Retomada das eleições diretas
- Gonzaga Mota 1983 a 1987
Período da chamada Era das Mudanças
- Tasso Jereissati 1987 a 1990
- Ciro Gomes 1991 a 1994
- Tasso Jereissati 1995 a 2002
- Beni Veras 2002
- Lúcio Alcântara 2003 a 2006
Ciclo associado aos Ferreira Gomes e período posterior
- Cid Gomes 2007 a 2014
- Camilo Santana 2015 a 2022
- Izolda Cela 2022
- Elmano de Freitas desde 2023




