Uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre os R$ 350 mil em espécie apreendidos com um homem dentro de um carro, no último dia 30 de setembro, em Fortaleza, revelou uma sequência de provisionamentos de saques que somou R$ 2,45 milhões nos dias 25 e 27 de setembro, na semana anterior ao primeiro turno das Eleições 2026. O montante envolve operações relacionadas ao homem preso e a outra pessoa mencionada no Relatório de Inteligência Financeira (RIF).
O documento registra ainda novos provisionamentos para os dias 30 de setembro, 1º e 2 de outubro, com valores de R$ 150 mil e R$ 200 mil. As informações constam nos autos do processo que tramita na 12ª Vara Federal do Ceará, originado a partir de um auto de prisão em flagrante.
O material reúne uma análise preliminar feita pela PF a partir de um Relatório de Inteligência Financeira. Segundo os documentos, o homem detido e outra pessoa relacionada a ele aparecem em comunicações envolvendo provisionamentos de saques de valores considerados expressivos e aparentemente incompatíveis com a capacidade financeira declarada.
A investigação permanece em andamento e os próprios documentos policiais ressaltam o caráter preliminar da análise. Até o momento, não há comprovação nos autos analisados de que os R$ 350 mil apreendidos seriam destinados a campanha eleitoral ou a qualquer candidato.
PF identifica R$ 2,45 milhões em provisionamentos de saques
A análise da Polícia Federal registra 13 provisionamentos de saques em espécie, feitos nos dias 25 e 27 de setembro, em valores de R$ 150 mil e R$ 200 mil.
Somados, os provisionamentos alcançaram R$ 2,45 milhões. O total envolve operações relacionadas ao homem detido no carro com o dinheiro e a outra pessoa mencionada no RIF.
Os documentos não permitem afirmar que todo esse montante tenha sido efetivamente retirado das instituições financeiras. O que consta no relatório são comunicações de provisionamentos de saques em espécie. Além desses valores, havia novas retiradas programadas.
Uma das pessoas mencionadas no relatório aparecia como responsável por três provisionamentos de R$ 200 mil cada, previstos para 30 de setembro, 1º e 2 de outubro. A justificativa apresentada nas comunicações bancárias era de “pagamento a fornecedor”.
No caso do homem detido, o relatório registra outros provisionamentos de R$ 150 mil e R$ 200 mil em agências de Fortaleza. Em algumas operações, a finalidade informada também teria sido pagamento a fornecedor; em outras, segundo a documentação, constava a opção “não desejo informar”.
Também foram identificados dois provisionamentos de R$ 200 mil cada em outra instituição financeira para os dias 1º e 2 de outubro, sob a justificativa de “obras”.
PF aponta movimentação de R$ 3,85 milhões entre 2021 e 2025
O relatório também analisa movimentações bancárias anteriores. Segundo a documentação policial, entre fevereiro de 2021 e agosto de 2025 foram registrados aproximadamente R$ 1,96 milhão em créditos e R$ 1,89 milhão em débitos, totalizando cerca de R$ 3,85 milhões.
As instituições financeiras classificaram as movimentações como incompatíveis com o perfil financeiro declarado. Os registros utilizados na análise indicavam renda mensal de R$ 10,3 mil em 2021, R$ 2 mil em 2023/2024 e R$ 2,73 mil em 2025.
Em uma das contas analisadas, entre julho de 2023 e junho de 2024, entraram cerca de R$ 819,8 mil e saíram aproximadamente R$ 819,7 mil. A diferença entre créditos e débitos foi de apenas R$ 64,29, indicando que praticamente todo o dinheiro recebido voltou a circular.
O documento detalha ainda transferências entre o homem detido pela PF e diferentes pessoas físicas e jurídicas. Os nomes dessas contrapartes foram preservados nesta reportagem porque a simples presença delas em transações mencionadas no relatório não significa participação em eventual irregularidade. A própria Polícia Federal ressalta que a análise do RIF é sumária e preliminar e prevê a continuidade dos trabalhos de apuração.
Homem foi detido após saque de R$ 350 mil
O homem foi preso em flagrante na tarde de 30 de setembro, após realizar um saque em uma agência bancária de Fortaleza. De acordo com o relato policial, agentes acompanhavam a operação após receberem uma informação de inteligência sobre a previsão de um saque de valor considerado incompatível com a renda declarada.
Segundo a PF, o homem deixou a agência e, durante uma tentativa de abordagem nas proximidades da Praça Portugal, tentou se afastar de carro. Conforme o relato policial, o veículo colidiu com três automóveis e, posteriormente, com um poste.
Dentro do carro, os policiais encontraram duas mochilas com dinheiro. Douglas informou que estava com R$ 350 mil e afirmou trabalhar com compra e venda de veículos.
A versão apresentada pela defesa é diferente. Os advogados afirmam que o homem acreditou estar sendo perseguido por criminosos porque a abordagem teria sido realizada por agentes em veículo descaracterizado. Segundo essa versão, ele tentou se afastar por temer um roubo ou atentado.
PF não encontrou propaganda eleitoral com Douglas
A Polícia Federal registrou que não encontrou material de propaganda eleitoral dentro do veículo nem em poder do homem que foi detido. O automóvel, entretanto, possuía adesivos de candidatos que disputam as Eleições 2026.
Os documentos policiais analisados não apresentam esse fato, isoladamente, como prova de vínculo entre os R$ 350 mil e uma campanha eleitoral.
A proximidade temporal entre a movimentação em espécie e o primeiro turno aparece na documentação como uma das circunstâncias consideradas pela PF na análise do caso. O próprio material, entretanto, ressalva a necessidade de aprofundamento das investigações.
Até o momento, os documentos analisados não comprovam destinação eleitoral para os R$ 350 mil apreendidos.
Dinheiro estava dividido até em notas de R$ 5
Os R$ 350 mil apreendidos estavam distribuídos em cédulas de diferentes valores.
Conforme certidão mencionada pela Polícia Federal, havia:
- R$ 70 mil em notas de R$ 100;
- R$ 200 mil em notas de R$ 50;
- R$ 52 mil em notas de R$ 20;
- R$ 25 mil em notas de R$ 10;
- R$ 3 mil em notas de R$ 5.
Na avaliação apresentada pela Polícia Federal, a composição das cédulas indicaria uma possível intenção de “pulverização” dos valores. Trata-se, entretanto, de uma interpretação da autoridade policial e não de uma conclusão definitiva sobre a destinação do dinheiro.
A PF também destacou no documento que a utilização de grandes quantias em espécie reduz a rastreabilidade das movimentações financeiras quando comparada aos meios eletrônicos de pagamento.
PF pediu prisão preventiva e acesso aos celulares
Após o flagrante, a Polícia Federal pediu à Justiça a conversão da prisão em preventiva. A autoridade policial também solicitou autorização para acessar os dados dos aparelhos celulares apreendidos durante a operação, incluindo mensagens, ligações, vídeos, fotografias e informações armazenadas em nuvem.
A medida foi solicitada como parte do aprofundamento da investigação sobre a origem dos recursos e a finalidade das movimentações financeiras.
Justiça mandou soltar o homem detido pela PF com medidas cautelares
Na sexta-feira (2), após audiência de custódia, a Justiça Federal determinou a soltura do homem que foi apreendido com R$ 350 mil e estabeleceu medidas cautelares. Entre as medidas impostas estão o monitoramento por tornozeleira eletrônica e a retenção do passaporte. Com a decisão, Douglas passou a responder à investigação em liberdade.
A decisão sobre a necessidade da prisão cautelar não representa uma conclusão sobre o mérito das suspeitas investigadas pela Polícia Federal. A apuração financeira continua.
Defesa nega crime e pede devolução dos R$ 350 mil
A defesa do homem detido apresentou uma versão diferente para os fatos e contesta as suspeitas levantadas na investigação. Segundo os advogados, o dinheiro foi retirado de uma instituição bancária após um saque previamente provisionado e a posse do numerário, por si só, não comprovaria a prática de lavagem de dinheiro.
A defesa sustenta ainda que o homem acreditou estar sendo perseguido por criminosos porque a abordagem teria sido realizada por policiais em veículo descaracterizado. Conforme essa versão, ele tentou se afastar por temer um roubo ou atentado e acabou colidindo com um poste.
Os advogados também afirmam que o suspeito trabalha como empreiteiro da construção civil, possui residência fixa e não tem condenação criminal transitada em julgado. A defesa destaca ainda que não foram apreendidos drogas, armas ou documentos falsos e sustenta que registros policiais eventualmente mencionados no procedimento não equivalem a condenações definitivas.
Além de ter pedido o relaxamento da prisão ou, subsidiariamente, liberdade provisória, a defesa solicitou a restituição dos R$ 350 mil, argumentando que não teria sido demonstrada a origem criminosa do dinheiro.
A petição apresentada pela defesa confirma que o argumento central é de que o homem realizou um saque bancário previamente aprovisionado e contesta que a posse dos R$ 350 mil seja suficiente, isoladamente, para caracterizar lavagem de dinheiro.



