O vício em apostas online levou um homem a acumular mais de R$ 500 mil em dívidas, prejudicar relações pessoais e enfrentar dificuldades para reorganizar a vida financeira. Sem revelar a identidade, ele conta que já pagou parte dos valores que devia, mas continua com mais de 20 pendências registradas no Serasa e não sabe como quitar todo o restante.
O endividamento atingiu diferentes áreas da vida. Além de recorrer a agiotas e pedir dinheiro emprestado a pessoas próximas, o homem admite ter mentido e manipulado conhecidos para conseguir recursos para continuar lidando com as dívidas. Mesmo depois de interromper as apostas por períodos prolongados, ele enfrentou recaídas e precisou retomar a busca por ajuda.
“Eu priorizei as dívidas com agiotas, que eram o que me preocupavam mais, e posteriormente eu priorizei as pessoas que eu manipulei e menti, né, para pedir emprestado. Meu nome encontra-se sujo ainda, eu devo mais de 20 dívidas no Serasa. Que eu não sei como vou pagar”, relata.
Há cerca de dois anos, ele procurou o grupo Jogadores Anônimos, que oferece apoio a pessoas com dificuldades para controlar o hábito de jogar. A primeira tentativa de recuperação, no entanto, não impediu novos episódios de apostas. O entrevistado conta que voltou a jogar depois de seis meses sem apostar e teve outra recaída aos 11 meses.
A história ocorre em um momento de mudanças nas regras brasileiras para as apostas. Em 25 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou a Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país. A norma também estabeleceu procedimentos para devolver aos usuários os saldos mantidos nas plataformas.
A interrupção do funcionamento das plataformas, porém, não resolve automaticamente os problemas financeiros nem elimina a compulsão. No caso de quem enfrenta dificuldades para parar de apostar, a recuperação pode exigir acompanhamento psicológico, apoio de pessoas de confiança e mudanças na relação com dinheiro e emoções.
Recaídas fazem parte do relato de recuperação
O homem afirma que conheceu os Jogadores Anônimos há aproximadamente dois anos, quando já enfrentava dívidas elevadas e não conseguia interromper o comportamento por conta própria. A participação no grupo ajudou a compreender o problema, mas ele reconhece que não manteve a recuperação nas primeiras tentativas.
“Com seis meses eu tive uma recaída e, posteriormente, com 11 meses eu tive outra recaída por não trabalhar o programa de fato, por alguns defeitos de caráter da minha parte”, afirma. O relato mostra a dificuldade que ele encontrou para sustentar a decisão de não jogar. Os períodos sem apostas foram interrompidos por novas recaídas, que prolongaram o processo de reorganização financeira e pessoal.
O comportamento problemático relacionado às apostas pode envolver perda de controle sobre a frequência e os valores apostados, tentativas frustradas de parar e continuidade dos jogos mesmo diante de prejuízos. Cada caso, porém, precisa ser avaliado individualmente, e uma experiência não permite determinar como será a recuperação de outras pessoas.
No caso do entrevistado, as consequências incluem débitos acumulados, restrições de crédito e a necessidade de reconstruir a confiança de pessoas a quem pediu dinheiro. A preocupação com a quitação das dívidas continua mesmo nos períodos em que consegue ficar sem apostar. Ele afirma que voltou a interromper os jogos e está há mais de quatro meses sem apostar. O objetivo agora é manter a recuperação e evitar que novas recaídas ampliem os problemas financeiros.
O que pode acontecer quando uma pessoa para de apostar?
A interrupção das apostas pode trazer dificuldades emocionais e comportamentais para quem desenvolveu uma relação compulsiva com os jogos. A psicóloga Alannis Sampaio explica que a experiência pode envolver emoções intensas, especialmente quando a pessoa deixa de apostar sem ter se preparado para a mudança.
“Mas a gente tá falando aqui de uma abstinência cerebral que envolve emoções, comportamento. Então, é a abstinência, é a primeira coisa que pode acontecer com a pessoa que ela deixou os jogos, não porque ela quis, não por escolha, mas no caso aí de uma forma, vamos dizer, quase obrigada mesmo”, explica a profissional.
As reações variam de pessoa para pessoa. Por isso, a interrupção das apostas não deve ser associada automaticamente aos mesmos sintomas em todos os casos. Quando há sofrimento emocional ou dificuldade para manter a decisão de parar, a avaliação profissional pode ajudar a identificar as necessidades de cada pessoa.
Alannis recomenda acompanhamento psicológico e uma rede de apoio que permita falar sobre as dificuldades enfrentadas durante a recuperação. O trabalho terapêutico pode ajudar a reconhecer situações que despertam a vontade de apostar e a desenvolver outras formas de lidar com frustrações, ansiedade e emoções difíceis.
A psicóloga também orienta reduzir a exposição a conteúdos que estimulem o comportamento, incluindo vídeos e grupos relacionados às apostas. “Acompanhamento psicológico. Uma pessoa de confiança para que ela possa ali falar as dores dela, poder conversar, poder falar. Ela precisa sair de grupos, parar de ver, às vezes, vídeos que vão trazer ali a questão dos jogos, das apostas”, orienta.
O cuidado, portanto, não se limita a bloquear o acesso aos sites. A recuperação também pode envolver a mudança de hábitos, o reconhecimento de gatilhos e o acompanhamento contínuo, conforme a necessidade de cada pessoa.
Como funciona o grupo Jogadores Anônimos?
O Jogadores Anônimos é uma irmandade de apoio mútuo voltada a pessoas que enfrentam dificuldades para controlar ou interromper o hábito de jogar. O programa de recuperação utiliza 12 passos, que incluem reconhecer a perda de controle e buscar mudanças pessoais e comportamentais.
O homem entrevistado afirma que procurou o grupo quando estava endividado e não sabia como interromper as apostas.
“Eu não sabia como parar de jogar. Eu não entendia que era uma doença. Estava totalmente afundado de dívidas. Então, quando eu cheguei aqui, foi me dito que tinha saído e que era uma doença. Então, foi no dia 31 de outubro que eu comecei, de fato, na Irmandade de Jogadores Anônimos”, relata.
O primeiro passo do programa propõe reconhecer que o jogo se tornou difícil de controlar e admitir a necessidade de ajuda. A partir daí, os participantes trabalham para compreender o próprio comportamento e construir condições para evitar novas apostas.
A troca de experiências com outras pessoas que enfrentam problemas semelhantes pode ajudar a reduzir o isolamento e criar uma rede de apoio. A participação em grupos, contudo, não substitui automaticamente o acompanhamento psicológico ou médico quando ele é necessário.
O entrevistado diz que está há mais de quatro meses sem jogar e que continua comprometido com o processo, mesmo depois das recaídas anteriores.
“Eu estou há um bom tempo já sem jogar, mais de quatro meses novamente, e eu não desisti de fato da minha recuperação, porque eu sei que não tem cura, mas essa irmandade me mostrou que tem como fazer a manutenção dela.”
Devolução de saldos das bets pode ajudar a reduzir dívidas
A Medida Provisória nº 1.394/2026 estabeleceu um cronograma para a retirada das plataformas do ar e a restituição de valores que permaneceram nas contas dos apostadores. De acordo com o Ministério da Fazenda, o período previsto para que as instituições financeiras devolvam os saldos vai de 9 a 14 de outubro. A partir de 15 de outubro, a Caixa Econômica Federal deverá atuar como intermediária quando houver dificuldades operacionais que impeçam a devolução pelos bancos.
A restituição diz respeito aos valores que os usuários ainda mantinham nas contas das plataformas, conforme os procedimentos definidos pelo governo. Não se trata de um programa para quitar dívidas contraídas por causa das apostas, nem de uma compensação automática por todo o dinheiro perdido nos jogos.
Para quem está endividado, o recebimento de algum saldo pode ajudar a pagar parte das obrigações, mas o efeito depende do valor disponível e do tamanho das dívidas. No caso do homem entrevistado, que relata débitos superiores a R$ 500 mil, não há informação sobre eventual saldo a receber.
O consultor de economia Thiago Holanda recomenda avaliar as dívidas e priorizar aquelas que aumentam mais rapidamente por causa dos juros.
“Seria interessante quitar essas dívidas de cartão de crédito. Caso sobre dinheiro para outro tipo de dívida, sempre procurar tentar quitar aquelas que possuem juros maiores, porque essas são as que nós consideramos mais perigosas para que a dívida acabe aumentando no futuro”, destaca.
Antes de usar recursos para quitar débitos, é importante verificar os saldos atualizados, as taxas cobradas e as condições oferecidas pelos credores. A negociação pode ajudar a organizar o pagamento de acordo com a capacidade financeira de cada pessoa.
Quando há dívidas com agiotas, ameaças ou intimidação, a busca por orientação e proteção também é importante. A pessoa não deve se expor a situações de risco para tentar resolver os débitos.
No enfrentamento da dependência em apostas, a organização financeira precisa caminhar junto com a recuperação comportamental. Receber dinheiro de volta pode reduzir parte da pressão, mas não elimina, por si só, o risco de novas apostas.
Recuperação exige apoio e reorganização financeira
A trajetória relatada pelo entrevistado reúne dívidas elevadas, prejuízos nas relações pessoais e recaídas durante as tentativas de parar de apostar. Mesmo depois de períodos sem jogar, ele ainda precisa lidar com as pendências financeiras e com as consequências dos empréstimos que fez para conseguir dinheiro.
O acompanhamento psicológico, os grupos de apoio e a presença de pessoas de confiança podem fazer parte de um processo de recuperação. A reorganização financeira também exige conhecer o tamanho das dívidas, avaliar as condições de pagamento e evitar que novas apostas agravem a situação.
O homem afirma que não desistiu de buscar uma vida sem jogos e que pretende continuar mantendo a recuperação, um dia de cada vez.




