Sete anos depois, o desabamento do Edifício Andrea continua marcado na memória de Fortaleza. Em 15 de outubro de 2019, às 10h28, o prédio localizado entre as ruas Tibúrcio Cavalcante e Tomás Acioly, no bairro Dionísio Torres, desabou e deixou 16 pessoas soterradas. Nove morreram e outras sete foram resgatadas com vida, após uma operação que mobilizou bombeiros, profissionais de segurança e voluntários durante mais de 100 horas.
A tragédia provocou comoção na capital cearense e levantou discussões sobre segurança estrutural, manutenção de edifícios e responsabilidade técnica em reformas. Desde então, as investigações buscaram esclarecer as causas do desabamento e apontar eventuais responsabilidades. O terreno onde ficava o prédio recebeu posteriormente uma unidade do Corpo de Bombeiros, inaugurada em março de 2025.
Relembre como aconteceu o desabamento do Edifício Andrea
Nos dias 14 e 15 de outubro de 2019, quatro pilares do edifício passaram por intervenções simultâneas durante uma reforma. Segundo as investigações descritas no material do caso, os trabalhos foram realizados sem a utilização de escoras que ajudassem a redistribuir o peso da estrutura.
Os laudos periciais apontaram uma combinação de fatores para o desabamento, entre eles a falta de manutenção adequada e o aumento de carga não previsto no projeto original. As condições teriam sido agravadas pelas intervenções realizadas durante a obra.
O Ministério Público do Ceará (MPCE) sustentou que a tragédia poderia ter sido evitada caso os profissionais envolvidos tivessem observado as regras de segurança aplicáveis às reformas em edificações.
Na denúncia, o órgão apontou os engenheiros civis José Andreson Gonzaga dos Santos e Carlos Alberto Loss de Oliveira e o pedreiro Amauri Pereira de Sousa como responsáveis pelas intervenções que teriam contribuído para o desabamento. A acusação afirma que os profissionais iniciaram a reparação sem escorar as estruturas e não evacuaram o prédio mesmo após o comprometimento de um dos pilares.
As alegações fazem parte da acusação do Ministério Público e não devem ser confundidas com uma condenação definitiva.
Julgamento dos réus aguarda definição judicial
Os três profissionais foram denunciados pelo Ministério Público em decorrência do desabamento. O processo busca apurar as responsabilidades pelas mortes e pelos ferimentos causados pela queda do edifício.
Conforme o histórico processual apresentado no material-base, seis testemunhas foram ouvidas em fevereiro, outras seis prestaram depoimento em abril e, em junho, foram ouvidas mais duas testemunhas, além dos interrogatórios dos três réus.
A etapa seguinte prevista no relato era a decisão de pronúncia ou impronúncia, que define se os acusados serão levados a julgamento pelo Tribunal do Júri. A situação atual do processo precisa ser confirmada antes da publicação, pois o material-base não informa o ano dos depoimentos nem registra eventuais movimentações posteriores.
Sobrevivente enviou selfie enquanto estava soterrado
Entre as pessoas que sobreviveram ao desabamento está o estudante Davi Sampaio. Durante o período em que permaneceu preso sob os escombros, ele enviou uma selfie aos familiares para informar que estava vivo e tentar tranquilizá-los.
Em entrevista ao Grupo Cidade de Comunicação na época da tragédia, Davi explicou o motivo da mensagem.
“A ideia de mandar uma foto no meio daquela situação toda foi justamente para avisar aos meus parentes, amigos e familiares que, apesar do acontecimento, eu estava bem, estava tecnicamente seguro, e que eles não precisavam se preocupar tanto pois tinham muitas pessoas trabalhando incansavelmente para me tirar dali o mais rápido possível, então foi mais um meio de informar e tranquilizar os meus amigos e parentes”, afirmou.
A imagem se tornou uma forma de comunicação com a família enquanto as equipes trabalhavam para retirar as vítimas dos escombros.
Quem foram as nove vítimas do Edifício Andrea
O desabamento interrompeu a vida de nove pessoas. As vítimas foram identificadas como:
- Maria da Penha Bezerril Cavalcante;
- Vicente de Paula Menezes;
- Eriverton Laurentino Araújo;
- Rosane Marques de Menezes;
- Frederick Santana dos Santos;
- Izaura Marques Menezes;
- Antônio Gildásio Holanda Silveira;
- Nayara Pinho Silveira;
- Maria das Graças Rodrigues, síndica do prédio.
Além das mortes, outras sete pessoas foram retiradas com vida dos escombros. O resgate mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros, profissionais de diferentes órgãos públicos e voluntários que atuaram na busca pelas vítimas.
Famílias receberam indenização pelo terreno
Após uma disputa judicial, o terreno onde ficava o Edifício Andrea foi desapropriado pelo poder público. A indenização total informada no material-base foi de R$ 1,7 milhão, distribuída entre 12 famílias.
Dois meses após o desabamento, ainda em 2019, o então prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, havia se comprometido a realizar a desapropriação. A medida dependia do pagamento prévio de indenização em dinheiro e a sentença foi promulgada em outubro de 2022, durante a gestão do então prefeito José Sarto.
Segundo os valores apresentados no material-base, a maior parte dos proprietários recebeu cerca de R$ 134.594, enquanto o dono da cobertura recebeu R$ 169.872,02. Os valores e a divisão devem ser conferidos nos documentos do processo antes da publicação.
Voluntários ajudaram durante os cinco dias de resgate
A operação de resgate também foi marcada pela mobilização de moradores e profissionais voluntários. Pessoas levaram água e alimentos para as proximidades do prédio e ajudaram a dar suporte aos bombeiros e a outras equipes que trabalhavam no local.
A fisioterapeuta Ana Carolina Furtado participou da mobilização para prestar assistência aos profissionais envolvidos na operação. Em entrevista ao Grupo Cidade de Comunicação, ela descreveu o cenário encontrado e a organização dos voluntários.
“Chegando lá, eu presenciei aquela cena que parecia um cenário de guerra, nunca tinha vivenciado aquilo. Conforme foi passando o tempo, foram chegando mais profissionais e a gente montou uma equipe para prestar todo o apoio não só aos bombeiros, mas também a todos que estavam naquele trabalho de resgate, que é muito exaustivo. A gente tem uma missão na vida que é ajudar sempre o próximo. Eu fui como uma profissional da saúde mas não apenas isso, eu estava ali realmente de coração para ajudar o próximo”, relatou.
O trabalho de resgate durou 103 horas e foi encerrado em 19 de outubro de 2019. A operação contou com cães farejadores e com a atuação de profissionais de diferentes órgãos, além de centenas de voluntários.
Terreno do Edifício Andrea recebeu quartel dos Bombeiros
O espaço onde ficava o prédio passou a abrigar o Quartel 15 de Outubro, unidade do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará inaugurada em março de 2025. O nome faz referência à data do desabamento.
A unidade abriga a 2ª Companhia do 1º Batalhão do Corpo de Bombeiros e foi planejada para reforçar o atendimento em uma região de Fortaleza com grande concentração de edifícios residenciais e comerciais. O investimento divulgado pelo Governo do Ceará foi de aproximadamente R$ 3,49 milhões.
O quartel conta com efetivo de bombeiros militares e atende ocorrências como incêndios, salvamentos e primeiros socorros. A instalação no terreno também representa uma homenagem aos profissionais que trabalharam no resgate das vítimas em 2019.




