O Ministério Público do Ceará (MPCE) denunciou cinco homens suspeitos de envolvimento no cultivo de aproximadamente 290 mil pés de maconha em uma fazenda de Acopiara, no interior do estado. O grupo é acusado de tráfico de drogas, cultivo de maconha e associação para o tráfico. O órgão também pediu à Justiça a expropriação da propriedade, que teria sido utilizada para manter a plantação ilegal.
Entre os denunciados estão o agricultor João Holanda Neto, apontado como proprietário de fato do imóvel; Cristiano Rodrigues de Lima, que teria arrendado a fazenda e coordenado as atividades no local; e o advogado pernambucano Geraldo Dário Soares, indicado como responsável técnico pelo cultivo.
Os outros dois homens, Francisco Augusto Alves da Silva e Manoel Clênio Mendonça Leal Filho, são apontados como responsáveis por providenciar e transportar materiais necessários à manutenção da lavoura.
A denúncia descreve uma estrutura organizada para o cultivo em uma área de aproximadamente 28 mil metros quadrados. O espaço contava com irrigação por gotejamento, barracas de apoio aos trabalhadores e equipamentos importados da Espanha que, segundo o Ministério Público, seriam utilizados no processamento da droga.
Além das acusações atribuídas aos cinco homens, João Holanda Neto e Cristiano Rodrigues de Lima também devem responder por permitir que um imóvel fosse utilizado para atividades relacionadas ao tráfico de drogas.
Como funcionaria o esquema da plantação de maconha em Acopiara
De acordo com a denúncia do MPCE, os investigados atuavam em duas frentes: uma voltada à administração da propriedade e à execução dos trabalhos no campo; outra dedicada ao fornecimento dos materiais necessários para manter a plantação.
O chamado núcleo do campo seria formado por João Holanda Neto e Cristiano Rodrigues de Lima. João é apontado como proprietário de fato e possuidor indireto da fazenda, enquanto Cristiano teria assumido a gestão cotidiana da lavoura e dos trabalhadores.
Já o núcleo de suprimentos seria composto por Geraldo Dário Soares, Francisco Augusto Alves da Silva e Manoel Clênio Mendonça Leal Filho. Conforme a acusação, eles participavam de atividades como especificação, compra, retirada e transporte de insumos utilizados na irrigação, fertilização e proteção das plantas.
Cristiano é apontado pelo Ministério Público como a ligação entre os dois grupos. Ele teria contratado os demais envolvidos, solicitado a compra de fertilizantes, acompanhado o trabalho dos funcionários e realizado pagamentos relacionados às atividades.
A divisão de tarefas descrita na denúncia é um dos elementos utilizados pelo órgão para sustentar a acusação de associação para o tráfico. As responsabilidades individuais, no entanto, ainda deverão ser examinadas pela Justiça.
O que o MPCE aponta contra o proprietário da fazenda
João Holanda Neto, agricultor de 60 anos e natural de Acopiara, é acusado de permitir que a propriedade fosse utilizada para o cultivo de maconha, mesmo tendo conhecimento da atividade, segundo o Ministério Público.
A denúncia sustenta que ele continuava a administrar aspectos da fazenda durante o período em que a plantação funcionava. Entre os elementos citados estão a manutenção das contas de energia elétrica e internet em seu nome, a guarda de objetos na casa principal e a determinação de reparos em áreas do imóvel.
Testemunhas também teriam relatado visitas frequentes de João à propriedade. Para o MPCE, a dimensão da estrutura encontrada, com uma área extensa de cultivo, sistema de irrigação e instalações de apoio, é um dos aspectos considerados na avaliação sobre o conhecimento que ele teria das atividades.
Na argumentação apresentada pelo órgão, o proprietário não teria se limitado a ceder o imóvel para terceiros. A acusação sustenta que ele teria contribuído para a continuidade das operações ao manter a infraestrutura da fazenda.
A versão da família apresentada na época da descoberta da plantação é diferente. Fabrício Holanda, sobrinho de João, afirmou que o agricultor havia arrendado o terreno para outra pessoa após receber um diagnóstico de câncer e que estava afastado das atividades.
A denúncia do Ministério Público, portanto, apresenta uma interpretação distinta sobre o papel do proprietário e sua relação com a fazenda. A responsabilização criminal dependerá da análise das provas e da decisão judicial.
Cristiano Rodrigues seria o responsável pela rotina da lavoura
Natural de Acopiara, Cristiano Rodrigues de Lima é apontado na denúncia como o responsável direto pela organização da plantação. Antes das atividades investigadas, ele teria trabalhado como motorista.
Segundo o MPCE, Cristiano arrendou a propriedade de João Holanda Neto e passou a coordenar os serviços realizados no terreno. Entre as tarefas atribuídas a ele estão a contratação dos outros denunciados, a compra de insumos, a fiscalização dos trabalhadores e a realização de pagamentos.
Ele também teria comunicado aos demais envolvidos que a polícia havia descoberto a plantação.
A denúncia menciona ainda relatos sobre a situação financeira e a rotina de Cristiano. Conforme o documento, ele não teria renda conhecida e passou a circular em uma caminhonete Mitsubishi L200 preta.
O Ministério Público também descreve uma conversa com a irmã do investigado. Na ocasião, ele teria admitido estar envolvido em uma situação da qual não deveria ter participado e dito que não poderia negar um favor a Fabiano, filho de João Holanda Neto, além de afirmar que não conseguiria sair daquela situação.
Esses relatos integram os elementos reunidos pela acusação para descrever a participação de Cristiano na estrutura investigada.
Quem são os outros três denunciados
Os outros integrantes apontados pelo MPCE teriam desempenhado funções ligadas ao fornecimento de materiais e à orientação técnica da lavoura.
Francisco Augusto Alves da Silva, de 47 anos, é natural de Fortaleza e conhecido como Giló. Conforme a investigação, ele comprava insumos em Iguatu e os transportava para Acopiara, atendendo às solicitações de Cristiano, que teria sido responsável por contratá-lo.
Manoel Clênio Mendonça Leal Filho, de 22 anos, é natural de Iguatu e conhecido como Clênio Filho. Ele é acusado de participar da compra e da retirada de materiais, incluindo adubo e itens utilizados na instalação de cercas. A denúncia também atribui a ele participação nos pagamentos relacionados aos insumos.
Segundo as informações da investigação, Francisco e Manoel deixaram a região após saberem da ação policial e seguiram para o Maranhão. Posteriormente, os dois foram localizados em Orós, no Ceará, onde acabaram presos em julho de 2026.
Ambos permanecem detidos, e o Ministério Público pediu à Justiça a manutenção das prisões preventivas.
O quinto denunciado é Geraldo Dário Soares, advogado de 58 anos, natural de Itacuruba, em Pernambuco, e conhecido como Geraldinho. Ele é apontado como responsável pela orientação técnica do cultivo.
De acordo com o MPCE, Geraldo especificava quais insumos deveriam ser adquiridos, orientava sobre a aplicação dos produtos e também custeava compras. A denúncia cita conversas nas quais ele teria recusado fertilizantes por considerar que não eram adequados para a plantação.
Em uma dessas ocasiões, teria afirmado que o produto entregue não servia para sua lavoura. Em outra, teria dito que determinado adubo prejudicaria as plantas e mencionado a intenção de buscar mudas e obter novas sementes.
Geraldo também permanece detido. O MPCE solicitou a manutenção da prisão preventiva dele.
Por que o Ministério Público pede a expropriação da fazenda
Além das acusações criminais, o Ministério Público pediu a expropriação do imóvel utilizado para o cultivo ilegal. A medida busca a perda da propriedade nas condições previstas pela legislação aplicável aos casos de utilização de imóveis para atividades ilícitas relacionadas a drogas.
O pedido deverá ser analisado pela Justiça, que precisará avaliar os requisitos legais e os elementos apresentados no processo. A solicitação do MPCE não significa que a perda da fazenda já tenha sido determinada.
A denúncia também busca estabelecer a responsabilidade de cada investigado, considerando as funções que teriam exercido na estrutura descrita pela acusação.
Relembre a descoberta dos 290 mil pés de maconha no Ceará
A plantação foi descoberta em 25 de junho de 2026, durante uma operação das forças de segurança em Acopiara. Na ocasião, a Polícia Civil informou ter identificado cerca de 160 mil pés de maconha ainda plantados e outros 130 mil já colhidos, totalizando aproximadamente 290 mil pés.
A dimensão da ocorrência fez com que a apreensão fosse apontada como uma das maiores já realizadas no Ceará.
Após a descoberta, a Polícia Civil divulgou imagens da destruição das plantas com o uso de tratores e da incineração do material no próprio local.
Em 3 de julho, a corporação informou que havia concluído o procedimento de destruição no dia anterior. A operação utilizou uma técnica que envolvia a abertura de valas, a queima das plantas com gasolina e óleo diesel e, posteriormente, a cobertura dos resíduos com terra para evitar que o fogo se espalhasse.
O procedimento passou a ser alvo de questionamentos depois que o deputado federal André Fernandes divulgou um vídeo com restos de plantas enterrados na propriedade. O parlamentar levantou dúvidas sobre a efetiva incineração da droga.
A Polícia Civil respondeu que o material mostrado era composto por resíduos da plantação e de outras plantas destruídas durante a operação. O governo estadual também informou que apuraria possíveis irregularidades na condução dos trabalhos e na guarda do material apreendido.
A denúncia contra os cinco homens acrescenta uma nova etapa ao caso, que passou da descoberta e destruição da plantação para a responsabilização criminal dos suspeitos. As acusações e o pedido de expropriação ainda dependem da análise judicial.




