Um plano para assassinar Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Geraldo Alckmin (PSB) e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), voltou ao debate político durante a campanha presidencial de 2026. O planejamento foi identificado pela Polícia Federal em uma investigação sobre a tentativa de impedir a posse de Lula após sua vitória nas eleições de 2022 e manter Jair Bolsonaro (PL) no poder.
A investigação revelou documentos, mensagens, registros de reuniões e movimentações de militares ligados ao governo Bolsonaro. A Procuradoria-Geral da República (PGR) sustentou que o então presidente tinha conhecimento do plano e concordou com ele. A acusação integrou o processo sobre a trama golpista, que resultou na condenação de Bolsonaro e de outros envolvidos.
Bolsonaro mandou matar Lula?
A Polícia Federal identificou um plano para matar Lula ainda em 2022 e que Jair Bolsonaro tinha conhecimento. A Procuradoria-Geral da República afirmou que Jair Bolsonaro tomou conhecimento do planejamento e concordou com ele, conclusão apresentada na denúncia sobre a tentativa de golpe de Estado.
A acusação foi além da existência de um documento. Segundo a PGR, o planejamento chegou ao conhecimento de Bolsonaro, que acompanhou a evolução das articulações e discutiu o período em que as ações poderiam ocorrer.
Um dos principais elementos utilizados para sustentar essa conclusão foi uma mensagem do general Mário Fernandes ao então ajudante de ordens Mauro Cid. No áudio, Fernandes relatou uma conversa com Bolsonaro sobre a possibilidade de realizar ações antes da posse de Lula, em 1º de janeiro de 2023.
Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF condenou Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado e outros quatro crimes relacionados à trama golpista. A decisão não corresponde a uma condenação autônoma por homicídio ou por ter emitido uma ordem direta para matar Lula.
Apesar dos elementos contidos na investigação, não foi possível apontar que Jair Bolsonaro mandou matar Lula, então presidente eleito.
O que foi o plano para matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes?
O planejamento recebeu o nome de Punhal Verde e Amarelo e foi elaborado após a derrota de Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2022. O documento descrevia ações contra autoridades consideradas obstáculos à tentativa de manter o então presidente no poder.
Os alvos identificados pela Polícia Federal eram Lula, que havia vencido a eleição, Geraldo Alckmin, vice-presidente eleito, e Alexandre de Moraes, ministro do STF e então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O plano contemplava a possibilidade de assassinato de Lula por envenenamento. Também previa ações violentas contra Moraes, incluindo o uso de armamentos, além da eliminação de Alckmin.
Segundo a investigação, integrantes das Forças Especiais do Exército, conhecidos como kids pretos, participaram das articulações. A preparação envolveu militares que ocupavam cargos no governo federal e outros integrantes das Forças Armadas.
Quem elaborou o plano Punhal Verde e Amarelo?
A Polícia Federal identificou o general da reserva Mário Fernandes como autor do documento Punhal Verde e Amarelo. Na época, ele ocupava o cargo de secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência da República, durante o governo Bolsonaro.
O arquivo foi produzido em novembro de 2022, depois da vitória de Lula no segundo turno. Segundo a investigação, o documento continha detalhes operacionais sobre ações planejadas contra as autoridades.
Em interrogatório ao STF, Fernandes admitiu ter elaborado o material, mas afirmou que se tratava de um estudo pessoal, não compartilhado com outras pessoas. Ele também negou ter apresentado o documento a Jair Bolsonaro.
A versão foi confrontada pelos investigadores com registros de impressão do arquivo, deslocamentos realizados pelo general e mensagens trocadas com outros envolvidos no período em que o planejamento estava sendo discutido.
Quais provas ligaram Bolsonaro ao plano para matar Lula?
Um dos principais elementos examinados pela Polícia Federal foi a circulação do documento Punhal Verde e Amarelo dentro de instalações da Presidência da República. Segundo a investigação, Mário Fernandes imprimiu o plano no Palácio do Planalto em 9 de novembro de 2022. Pouco depois, deslocou-se ao Palácio da Alvorada, onde estava Jair Bolsonaro.
Os investigadores identificaram registros de entrada do general no Alvorada naquela data. A PGR utilizou essas informações, juntamente com mensagens, reuniões e outros elementos, para sustentar que Bolsonaro tinha conhecimento do planejamento. Na denúncia apresentada ao STF, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que o plano havia sido levado ao conhecimento do então presidente, que concordou com ele.
Outro elemento citado foi um áudio enviado por Mário Fernandes a Mauro Cid. Na mensagem, o general relatou que havia conversado com Bolsonaro sobre o momento em que ações poderiam ocorrer, inclusive depois da diplomação de Lula.
Para a PGR, os diálogos demonstravam que Bolsonaro acompanhava a evolução do esquema e discutia a possibilidade de sua execução. A defesa contestou essa interpretação e negou que o ex-presidente tivesse aprovado assassinatos.
Os registros de impressão e deslocamento, isoladamente, não demonstram que Bolsonaro tenha recebido uma cópia, lido o documento ou determinado pessoalmente a execução das mortes. A acusação de conhecimento e concordância foi construída a partir do conjunto de elementos reunidos na investigação.
Quando Lula seria assassinado?
A investigação identificou 15 de dezembro de 2022 como uma data importante para a execução de ações clandestinas relacionadas à trama golpista. O período era considerado estratégico porque Lula já havia sido diplomado presidente eleito, mas ainda não havia tomado posse.
Segundo a PGR, integrantes do grupo responsável pelas ações violentas chegaram a realizar preparativos operacionais. A acusação afirmou que o plano não foi concluído porque os envolvidos não conseguiram obter, na última hora, o apoio necessário do comando do Exército.
Os investigadores também identificaram uma operação denominada Copa 2022, relacionada ao monitoramento de autoridades e à preparação de ações contra Alexandre de Moraes. A PGR apontou esse monitoramento como uma das evidências de que a articulação não havia permanecido apenas na elaboração de documentos.
O plano de assassinatos não foi executado. Lula e Alckmin tomaram posse em 1º de janeiro de 2023, e Moraes permaneceu no exercício de suas funções.
Bolsonaro foi condenado pelo plano para matar Lula?
Bolsonaro foi condenado pelo STF em setembro de 2025 por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado, mas não recebeu uma condenação autônoma por ter ordenado o assassinato de Lula.
A Primeira Turma do Supremo condenou o ex-presidente pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado.
O julgamento considerou a atuação de Bolsonaro na organização que tentou impedir a alternância de poder após as eleições de 2022. Os planos de ações violentas contra autoridades, incluindo o Punhal Verde e Amarelo, integraram o conjunto de fatos analisados no processo.
A condenação pela trama golpista não deve ser confundida com uma decisão judicial específica de que Bolsonaro tenha dado uma ordem pessoal para matar Lula. Ao mesmo tempo, a ausência dessa condenação autônoma não altera os crimes pelos quais o ex-presidente foi responsabilizado pelo STF.
O que aconteceu com os militares envolvidos no planejamento?
O STF também julgou integrantes do chamado núcleo 3 da trama golpista, grupo apontado como responsável pelo planejamento de ações violentas contra autoridades.
Entre os envolvidos estava o general da reserva Mário Fernandes, identificado como autor do documento Punhal Verde e Amarelo. Outros militares foram acusados de participar das articulações, do monitoramento de autoridades e da preparação de operações clandestinas.
Os julgamentos examinaram a responsabilidade individual dos acusados pelos crimes relacionados à tentativa de ruptura institucional. As decisões resultaram em condenações de participantes da trama, com penas estabelecidas conforme a atuação atribuída a cada réu.
Em abril de 2026, o STF determinou o cumprimento das penas de integrantes do último núcleo de condenados pela tentativa de golpe. Entre os fatos examinados nos processos estavam a elaboração do plano de assassinatos e o monitoramento ilegal de Alexandre de Moraes.
O que Jair Bolsonaro disse sobre a acusação?
Jair Bolsonaro negou participação em um plano para assassinar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes. A defesa do ex-presidente contestou a interpretação dos elementos reunidos pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República.
Os advogados questionaram a existência de provas de que o ex-presidente tivesse aprovado ações violentas contra autoridades. Bolsonaro também negou ter tido conhecimento do plano Punhal Verde e Amarelo.
Mário Fernandes, apontado como autor do documento, afirmou em depoimento que o material não havia sido compartilhado com Bolsonaro. Segundo sua versão, tratava-se de um estudo pessoal que decidiu registrar por escrito.
A PGR apresentou interpretação diferente, sustentando que o planejamento integrava as ações da organização criminosa liderada pelo então presidente.
Por que o caso voltou à discussão em 2026?
O plano Punhal Verde e Amarelo voltou a ser mencionado durante a disputa presidencial de 2026, marcada pelo confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente.
A campanha tem sido acompanhada por discussões sobre a tentativa de golpe de Estado, as condenações do STF e as responsabilidades atribuídas aos envolvidos nos acontecimentos posteriores às eleições de 2022.
O tema também ganhou relevância diante das acusações trocadas entre os candidatos sobre corrupção, segurança pública e respeito às instituições democráticas.
A investigação sobre o plano de assassinatos, entretanto, não é nova. Os principais documentos foram revelados pela Polícia Federal em 2024, e as acusações passaram por julgamento no Supremo ao longo de 2025.
Qual é a diferença entre existir um plano e Bolsonaro ter mandado matar Lula?
A existência do plano Punhal Verde e Amarelo foi documentada pela Polícia Federal. O material descrevia ações para assassinar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes, e a investigação identificou participantes, mensagens, reuniões e preparativos.
A responsabilidade de Bolsonaro envolve outra questão: o que ele sabia, quais decisões tomou e como sua atuação se relacionava com o planejamento da organização investigada.
A PGR afirmou que Bolsonaro tinha conhecimento e concordou com o plano. A defesa negou essa conclusão. O STF condenou o ex-presidente por sua participação na trama golpista, enquanto integrantes diretamente ligados ao planejamento das ações violentas foram julgados em processos específicos.
Portanto, a afirmação de que existiu um plano para matar Lula é sustentada por documentos da investigação e por decisões judiciais. A acusação de que Bolsonaro conhecia e concordava com esse planejamento foi apresentada pela PGR. Já a afirmação de que ele deu pessoalmente uma ordem expressa para executar o presidente eleito não corresponde a uma conclusão específica estabelecida na condenação do STF.




