A requalificação do Parque Ecológico da Lagoa da Maraponga, em Fortaleza, continua sem data definida para a retomada das obras, iniciadas em agosto de 2021 e interrompidas poucos meses depois. Enquanto o projeto passa por licenciamento ambiental, moradores do entorno convivem com problemas de limpeza, iluminação pública, conservação e segurança, além de estruturas que nunca foram concluídas.
Uma placa instalada no local anuncia a construção do Complexo Esportivo da Lagoa da Maraponga e informa que os serviços devem ser concluídos em até cinco meses. O aviso, porém, não esclarece a data de início da contagem desse prazo. A situação contrasta com o cenário encontrado no espaço, onde a vegetação alta, a sujeira e a falta de manutenção dificultam o aproveitamento da área pela população.
Quem frequenta a lagoa relata frustração com a interrupção dos trabalhos. Um dos moradores ouvidos durante a reportagem resumiu a situação ao comentar a expectativa criada pelo início das intervenções: “Eles começam, a gente fica até com uma certa euforia por ver as coisas legais, como a gente pede tanto aos nossos governantes. E acontece isso mais uma vez.”
Obras da Lagoa da Maraponga estão paradas desde 2021
As intervenções no Parque Ecológico da Lagoa da Maraponga, localizado na avenida Godofredo Maciel, começaram em agosto de 2021. Poucos meses depois, os trabalhos foram interrompidos, e o espaço permaneceu à espera da continuidade da requalificação.
O contrato anterior foi rescindido por descumprimento de prazos e cláusulas contratuais por parte da empresa responsável. Documentos anexados a um processo do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) registram que a construtora relatou roubos e furtos de materiais, que teriam prejudicado a continuidade dos serviços.
Entre os itens saqueados, conforme os registros mencionados, estão grades, portas, bancadas de granito, partes de estruturas de madeira e grama sintética. Os relatos de furtos abrangem o período de vigência do contrato e também o momento posterior à rescisão.
Um novo processo licitatório foi concluído, e o contrato com a empresa vencedora foi homologado. Apesar disso, a retomada ainda depende do andamento do licenciamento ambiental, conforme informações da Superintendência de Obras Públicas (SOP). Não há uma nova data definida para o reinício dos trabalhos.
A demora já havia motivado reclamações públicas da vizinhança. Em fevereiro de 2024, a situação de abandono foi denunciada em reportagem do jornal O POVO. Em maio daquele ano, o então prefeito de Fortaleza, José Sarto (PDT), afirmou que proporia ao Governo do Ceará que a gestão municipal assumisse a obra.
Em janeiro de 2025, a retomada foi anunciada, mas sem prazo estabelecido. Naquele mês, o então titular da Secretaria Regional 10, Márcio Martins (Republicanos), afirmou que os trabalhos deveriam recomeçar até fevereiro. A previsão não se concretizou.
Em fevereiro de 2025, a expectativa era de que um parecer ambiental da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) fosse o último entrave. A meta inicial era instalar tapumes após o Carnaval e concluir a execução ainda naquele ano. Em agosto de 2025, o prazo de retomada passou a ser previsto para aquele mês. Em abril de 2026, porém, ainda não havia previsão para o retorno das obras.
Moradores denunciam falta de iluminação e manutenção
A falta de conservação é uma das principais reclamações de quem vive ou circula pelo entorno da lagoa. Além do mato alto e do lixo, moradores apontam problemas na iluminação pública, árvores sem manutenção e danos nas colunas e nos gradis que cercam o espaço, atribuídos a atos de vandalismo.
Jairon Frota, aposentado que mora nas proximidades e caminha diariamente na praça, afirma que a recuperação precisa começar pelos serviços básicos.
“O que eu espero, pelo menos, é uma limpeza. Ele pode ir mais às árvores para dar mais uma visão, as luzes, clareza melhor”, relata.
A iluminação é uma preocupação especialmente para quem precisa atravessar a área à noite. Um dos estudantes que frequentam o espaço afirma que alguns trechos ficam muito escuros e que o percurso de bicicleta após os treinos provoca medo.
“Eu acho muito apagado aqui nessa parte, fica muito tarde, fica bem perigoso. Todo dia eu saio tarde do treino, acho muito perigoso passar aqui de bicicleta, sempre tenho medo”, diz.
A situação também preocupa Marta Ribeiro, autônoma que mora nas proximidades. Segundo ela, a vegetação alta e a falta de movimento fazem com que a passagem pelo local seja acompanhada de apreensão.
“Quando a gente vê o mato tomando de conta, todos os dias quando a gente passa aqui, a gente passa um pouco apreensiva, né? Porque a qualquer momento pode surgir alguém”, afirma.
Marta avalia que a transformação da área em um espaço de lazer voltado às famílias poderia mudar a relação da comunidade com o parque. “Se tivesse uma reforma como um polo de lazer para as famílias que moram aqui, seria, assim, excelente.”
O operador de máquinas Pedro Araújo, de 40 anos, que mora no entorno há mais de duas décadas, também reclama da situação. Ele afirma que os moradores cobram melhorias na iluminação e na segurança e mantém um perfil nas redes sociais para registrar os problemas do local.
“O pessoal reclama muito aqui da questão da iluminação, que foi tirado os fios. Os postes todos quebrados. É sempre lixo aqui direto”, relata.
Pedro também defende a instalação de um posto da Guarda Municipal de Fortaleza no espaço. Segundo ele, as estruturas de proteção foram danificadas e as grades retiradas. “É uma coisa que era para ter feito já há bastante tempo. Tinha proteção, foi tirado. Os vândalos pegam e derrubam as colunas, levam as grades”, afirma.
A falta de iluminação também afeta Fátima Lima, de 72 anos, e a filha, Aila Lima, de 47, que moram em casas situadas na área de convivência há mais de 20 anos. Fátima denuncia que os fios de iluminação foram retirados, enquanto Aila afirma que a segurança é precária.
As duas relatam que precisaram adaptar a rotina para conviver com a situação, mantendo as portas fechadas e indo dormir mais cedo. Um cachorro de estimação também ajuda a proteger a residência. Apesar dos problemas, mãe e filha afirmam que os casos de roubos e furtos diminuíram ao longo dos anos, após a instalação de food trucks nas proximidades.
Além da iluminação, Aila aponta a necessidade de manutenção das árvores. Ela relata que uma delas caiu e que um poste chegou a se partir em três partes, situação que, na avaliação dela, compromete a circulação de quem utiliza o espaço para caminhadas.
Projeto de R$ 1,16 milhão prevê complexo esportivo
A nova proposta de requalificação prevê investimento de R$ 1,16 milhão, proveniente do Tesouro Estadual. O projeto será executado em parceria entre a Prefeitura de Fortaleza e o Governo do Ceará.
Conforme a SOP, o Complexo Esportivo da Lagoa da Maraponga terá uma Areninha, um campo de futebol X1, uma quadra de basquete 3x3, uma brinquedopraça e uma academia ao ar livre. A execução dessas estruturas ficará sob responsabilidade da Superintendência.
Já a urbanização do entorno será atribuição da Prefeitura de Fortaleza. A proposta busca ampliar as opções de esporte e lazer na área, que atualmente apresenta problemas de conservação e estruturas inacabadas.
A conclusão do processo de licenciamento ambiental é uma etapa necessária antes da retomada das obras. Embora a placa instalada no local informe prazo de até cinco meses para a conclusão dos serviços, ainda não há uma data definida para o início da contagem.
Prefeitura reforça capinação e prevê vistoria na iluminação
Enquanto a requalificação não avança, a Prefeitura informou que intensificou os serviços de manutenção na área. Em nota conjunta, a Coordenadoria Especial de Apoio à Governança das Regionais (Cegor) afirmou que o polo recebe reforço na capinação, com 26 profissionais atuando para reduzir a vegetação espontânea.
O trabalho, iniciado uma semana antes da informação divulgada, tinha previsão de durar aproximadamente mais 20 dias. A coordenadoria também informou que o equipamento conta com varrição fixa duas vezes por semana.
Em relação à iluminação pública, a Secretaria Municipal da Conservação e Serviços Públicos (SCSP) informou que uma equipe técnica será enviada ao endereço para vistoriar o entorno e identificar as luminárias que precisam de substituição ou reparos.
A secretaria também prevê o envio de uma equipe para avaliar as condições da limpeza urbana e identificar os serviços necessários. A população pode registrar ocorrências e solicitar serviços de iluminação e limpeza por meio da Central 156, disponível para celulares com sistemas Android e iOS.
Até que a requalificação seja retomada, moradores continuam cobrando medidas para melhorar as condições de uso do parque. A expectativa da comunidade é que as ações de manutenção ajudem a reduzir os problemas imediatos e que o projeto anunciado avance para devolver à Lagoa da Maraponga uma estrutura adequada para esporte, lazer e convivência.




