A relação comercial entre Ceará e China movimentou quase US$ 1 bilhão em 2025, consolidando o país asiático como um dos principais parceiros do estado nas compras internacionais. No período, as importações cearenses de mercadorias chinesas ultrapassaram US$ 880 milhões, valor equivalente a quase um terço de tudo o que o Ceará adquiriu do exterior. Para empresários interessados nesse mercado, o volume de negócios representa oportunidades, mas também exige preparação para lidar com custos, legislação, fornecedores e diferenças culturais.
É nesse cenário que atua a Associação Brasil-China de Negócios (ABCN), entidade sediada em Fortaleza que trabalha para aproximar empresas brasileiras e chinesas. A iniciativa busca facilitar o contato entre os dois mercados e ajudar empreendedores a compreender os caminhos necessários para transformar o interesse comercial em operações concretas.
A experiência de negociar com a China vai além de encontrar um produto com preço competitivo. Antes de fechar um pedido, é necessário avaliar a viabilidade financeira da operação, conhecer as exigências brasileiras para a entrada da mercadoria e compreender as condições comerciais oferecidas pelo fornecedor.
A equipe da TV Cidade visitou a associação para conhecer esse trabalho e mostrar os principais pontos que empresários cearenses precisam considerar antes de iniciar negociações com o mercado chinês.
Comércio entre Ceará e China movimenta quase US$ 1 bilhão
A dimensão da relação comercial ajuda a explicar por que a China ocupa espaço relevante nas estratégias de empresas brasileiras. Produtos fabricados no país asiático estão presentes em diferentes setores, desde celulares e eletrodomésticos até componentes automotivos e equipamentos utilizados no trabalho.
Essa presença cotidiana, entretanto, nem sempre revela a complexidade envolvida na cadeia de fornecimento. Entre encontrar uma mercadoria interessante e recebê-la legalmente no Brasil, existe uma sequência de decisões comerciais, fiscais e logísticas que pode determinar o sucesso ou o prejuízo de uma operação.
Em 2025, as importações cearenses de produtos chineses superaram US$ 880 milhões. O resultado correspondeu a quase um terço das compras realizadas pelo estado no mercado internacional, evidenciando a importância desse fluxo para o comércio exterior cearense.
Os números também apontam para a necessidade de ampliar o conhecimento dos empresários sobre os procedimentos envolvidos nas operações internacionais. O acesso a fornecedores não elimina os desafios relacionados à documentação, ao transporte e à adequação dos produtos às normas brasileiras.
Além de comprar mercadorias, empresas podem buscar oportunidades de apresentar produtos e serviços ao mercado chinês. As duas possibilidades, porém, têm exigências distintas e precisam ser avaliadas conforme os objetivos de cada negócio.
Associação em Fortaleza aproxima empresários brasileiros e chineses
Com sede na capital cearense, a Associação Brasil-China de Negócios atua na aproximação entre empresários dos dois países. A entidade participa de iniciativas voltadas à criação de conexões comerciais e à preparação de empreendedores interessados em conhecer melhor o mercado asiático.
Segundo Marcus Paulo Santos, presidente da ABCN, a aproximação com o mercado chinês pode envolver missões internacionais, visitas técnicas e encontros empresariais. A proposta é permitir que os participantes conheçam empresas, apresentem seus negócios e identifiquem possibilidades de cooperação.
Em sua avaliação, a China procura parceiros brasileiros para desenvolver atividades industriais e ampliar operações na América do Sul, tendo o Brasil como uma possível porta de entrada para a região.
O dirigente também recomenda que empresários interessados nesse mercado procurem iniciativas organizadas por entidades com capacidade de promover esse tipo de aproximação. O contato direto com empresas e instituições pode ajudar a compreender melhor as oportunidades disponíveis e as condições para desenvolver uma parceria.
A preparação é importante porque o interesse inicial nem sempre corresponde a uma oportunidade comercial viável. Uma mercadoria pode chamar a atenção pelo preço, mas a decisão de importá-la depende de outros fatores, como a demanda do mercado brasileiro, os custos envolvidos e as exigências para comercialização.
Por isso, conhecer o ambiente de negócios antes de assumir compromissos financeiros pode ajudar o empreendedor a tomar decisões mais fundamentadas.
Importar da China exige planejamento além do preço do produto
Um dos principais cuidados para quem pretende importar é calcular quanto a mercadoria custará depois de concluídas todas as etapas da operação.
Um produto anunciado por R$ 10, por exemplo, não necessariamente chegará ao consumidor brasileiro por um valor próximo a esse. O preço inicial é apenas um dos componentes da conta.
O empresário precisa considerar despesas de transporte, tributos e custos relacionados à liberação da carga na alfândega. Conforme a mercadoria, também podem existir exigências específicas para permitir sua entrada e comercialização no Brasil.
Registros, certificações e licenças de órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) e o Ministério da Agricultura podem ser necessários, dependendo das características do produto.
Ignorar essas exigências antes da compra pode comprometer o planejamento da operação. Por isso, a verificação das regras aplicáveis deve ocorrer ainda na fase de pesquisa, antes de o empresário assumir compromissos com o fornecedor.
Outro ponto importante é conhecer a empresa que venderá a mercadoria. A negociação internacional envolve partes que podem estar separadas por milhares de quilômetros, com diferenças de idioma, cultura e legislação. Essas condições tornam o acesso a informações confiáveis e a avaliação prévia dos parceiros etapas relevantes do processo.
O planejamento também deve levar em conta se existe mercado para o produto no Brasil e se o preço final permitirá competir com outras opções disponíveis. Uma oportunidade comercial precisa ser avaliada pelo conjunto da operação, e não apenas pelo valor apresentado em um catálogo.
Siscomex e classificação fiscal estão entre os cuidados necessários
Para realizar importações diretamente, uma empresa brasileira, em regra, precisa estar habilitada no Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex), utilizado nos procedimentos de comércio exterior.
Outro passo é identificar a classificação fiscal da mercadoria, conhecida como Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). Essa identificação ajuda a determinar os tributos incidentes e as exigências aplicáveis à entrada do produto no país.
O enquadramento correto é importante porque as obrigações podem variar conforme o tipo de mercadoria. Por isso, o empreendedor precisa pesquisar as regras específicas antes de concluir a compra e organizar os documentos necessários para a operação.
O governo brasileiro disponibiliza ferramentas gratuitas de consulta e simulação que podem auxiliar nessa etapa. O uso desses recursos permite levantar informações sobre tributação e exigências, contribuindo para uma estimativa mais consistente dos custos.
Mesmo com essas ferramentas, cada operação deve ser analisada conforme as características do produto e as regras aplicáveis. A existência de um fornecedor disposto a vender para o Brasil não significa, por si só, que a mercadoria poderá entrar no país sem restrições ou procedimentos adicionais.
A formação empresarial também integra o trabalho desenvolvido pela ABCN. Júlia, responsável por um projeto educacional da associação, atua em uma iniciativa voltada à preparação de pessoas interessadas em compreender as relações entre Brasil e China.
A proposta apresentada no material é ampliar as conexões entre os países para além das fábricas, das empresas e das feiras comerciais, incluindo o conhecimento sobre a sociedade chinesa e o acesso a tecnologias.
Consulado brasileiro em Guangzhou atua na promoção comercial
A aproximação entre os dois mercados também conta com a presença institucional brasileira na China. Em Guangzhou, cidade localizada a mais de 16 mil quilômetros de Fortaleza, o Brasil mantém um Consulado-Geral que acompanha as relações com a região e presta assistência a brasileiros.
A atuação inclui atividades de promoção comercial, com contatos entre entidades brasileiras e chinesas, organizações empresariais e autoridades provinciais.
De acordo com o vice-cônsul brasileiro em Guangzhou, Enrico Diogo Moro Gomes, o trabalho busca incentivar as exportações brasileiras e apresentar o mercado nacional, além de contribuir para a atração de investimentos para o Brasil.
Essa atuação integra o conjunto de iniciativas que podem facilitar o relacionamento entre empresas e instituições dos dois países. Para empresários interessados em internacionalizar seus negócios, conhecer os canais institucionais disponíveis é mais uma etapa para compreender o ambiente comercial em que pretendem atuar.
A relação entre Ceará e China, portanto, não se resume à circulação de mercadorias. Ela envolve decisões empresariais, exigências legais, conhecimento de mercado e articulação entre diferentes atores.
Os números de 2025 mostram a dimensão das compras cearenses de produtos chineses. O desafio para os empreendedores é transformar esse fluxo comercial em oportunidades sustentáveis, com planejamento e compreensão das regras que orientam cada operação.
Entre Fortaleza e Guangzhou, a distância geográfica permanece. Para quem pretende negociar com o outro lado do mundo, conhecer os procedimentos, avaliar os riscos e construir relações comerciais com preparação pode fazer diferença na hora de transformar uma oportunidade em negócio.




