A venda de água no Ceará passou a ser alvo de um esquema de extorsão atribuído a integrantes do Comando Vermelho (CV), com exigência de pagamentos, imposição de regras comerciais e ameaças contra distribuidores de água mineral. Em Banabuiú, no Sertão Central, suspeitos ligados à organização criminosa tentaram obrigar comerciantes a pagar valores que chegavam a R$ 750 por semana para continuar trabalhando. A investigação aponta que o grupo buscava controlar a comercialização de garrafões e determinar quais estabelecimentos poderiam funcionar.
As ameaças foram transmitidas por mensagens atribuídas à facção, incluindo um comunicado conhecido como “Edital Banabuiú”. O caso levou comerciantes a interromper as atividades e mobilizou uma investigação da Polícia Civil do Ceará. Nesta quinta-feira (5), o número de capturas relacionadas às apurações chegou a dez, enquanto as autoridades continuam tentando localizar suspeitos apontados como responsáveis pelas ordens de extorsão.
Venda de água no Ceará: por que a facção está ameaçando comerciantes?
A investigação aponta que a organização criminosa tentou assumir o controle da comercialização de água mineral em Banabuiú por meio de cobranças ilegais e ameaças. Em vez de permitir que distribuidoras e comerciantes trabalhassem normalmente, os suspeitos passaram a exigir autorização do grupo para a continuidade das atividades, estabelecendo condições próprias para a venda de garrafões.
O esquema investigado tinha dois componentes principais: a imposição de regras sobre o funcionamento dos estabelecimentos e a exigência de dinheiro para permitir que os comerciantes continuassem vendendo água. As determinações eram acompanhadas de ameaças de represálias contra quem se recusasse a obedecer, criando um ambiente de intimidação entre os fornecedores.
Segundo os elementos divulgados da investigação, a cobrança de dinheiro e o controle da atividade comercial eram objetivos das ações criminosas. As autoridades ainda apuram a estrutura do grupo, a participação de cada suspeito e a existência de ordens transmitidas por integrantes da organização que estariam fora do Ceará.
Como funcionavam as cobranças de até R$ 750 para vender água?
Os valores identificados em documentos policiais e judiciais divulgados pela imprensa incluíam uma exigência de R$ 200 feita a um comerciante e cobranças que chegavam a aproximadamente R$ 750 por semana em outros relatos. O dinheiro seria exigido como condição para que os estabelecimentos continuassem comercializando e distribuindo água mineral no município.
A cobrança não tinha qualquer relação com impostos, taxas municipais ou autorizações oficiais. Tratava-se, segundo a investigação, de uma exigência imposta por suspeitos ligados à organização criminosa, acompanhada de ameaças contra os comerciantes que não aceitassem as condições estabelecidas.
As mensagens eram enviadas por aplicativos e apresentadas como determinações da facção. Ao condicionar o funcionamento dos estabelecimentos ao pagamento de valores ilegais, os suspeitos tentavam transformar uma atividade comercial regular em fonte de arrecadação para o grupo criminoso.
O que dizia o “Edital Banabuiú” enviado aos comerciantes?
Um dos principais elementos da investigação é um comunicado identificado como “Edital Banabuiú”, atribuído ao Comando Vermelho. A mensagem estabelecia que a venda e a distribuição de água mineral dependeriam de autorização da organização criminosa, que também tentava determinar quais produtos poderiam ser comercializados.
O comunicado incluía restrições à venda de determinada marca de água mineral e ameaças contra comerciantes que desobedecessem às ordens. Entre as represálias mencionadas estavam o fechamento dos estabelecimentos e a apreensão de garrafões, medidas que os suspeitos tentavam impor sem qualquer autoridade legal.
A circulação dessas mensagens provocou medo entre os comerciantes e levou parte dos estabelecimentos a interromper as atividades. Para os investigadores, os comunicados ajudam a esclarecer como a organização buscava transmitir ordens, intimidar fornecedores e impor controle sobre a comercialização do produto.
Por que os comerciantes interromperam a venda de garrafões?
O fechamento das distribuidoras foi uma consequência das ameaças atribuídas à facção. Comerciantes suspenderam as vendas e as entregas domiciliares por receio de sofrer represálias caso continuassem trabalhando sem cumprir as determinações recebidas.
A paralisação também atingiu moradores e serviços que dependiam do fornecimento de água mineral. Em Banabuiú, a interrupção das entregas provocou filas para compra de garrafões e levou à organização de uma operação emergencial com apoio da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), da Prefeitura e da Polícia Militar.
A operação permitiu transportar água mineral de fornecedores da região até o município, inicialmente com comercialização concentrada na Praça da Matriz. A partir de 4 de novembro, as entregas começaram a ser retomadas gradualmente nos estabelecimentos, com acompanhamento policial. O fornecimento de água encanada pela rede pública não foi interrompido em decorrência das ameaças.
A facção também tenta controlar a venda de água em Fortaleza?
Relatos de ameaças contra distribuidores de água mineral também surgiram em áreas de Fortaleza no início de novembro. Mensagens atribuídas ao Comando Vermelho mencionavam comerciantes da comunidade da Rosalina, no Parque Dois Irmãos, além de localidades da Bela Vista, Pan-Americano e regiões próximas.
Os comunicados continham determinações para suspender a comercialização de água mineral e ameaças contra estabelecimentos que não obedecessem às ordens. As ocorrências são investigadas pela Polícia Civil, por meio da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco).
Em reportagem publicada no dia 3 de novembro, um estabelecimento confirmou que havia interrompido temporariamente as entregas, com previsão de retomada no dia seguinte. Não há confirmação de que todas as distribuidoras das localidades mencionadas tenham fechado ou de que os episódios investigados em Fortaleza sejam comandados pelos mesmos suspeitos envolvidos nas extorsões em Banabuiú.
Quem são os suspeitos investigados pelas extorsões em Banabuiú?
As investigações resultaram em dez capturas relacionadas às ameaças e extorsões contra comerciantes de Banabuiú até esta quinta-feira, 5 de novembro. A atualização foi divulgada pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), após uma operação conjunta da Polícia Civil e da Polícia Militar que cumpriu seis mandados de prisão.
As primeiras três prisões ocorreram em outubro. Outro homem foi capturado na terça-feira (3) e também passou a ser investigado por possível participação nas extorsões. Com os seis mandados cumpridos nesta quinta-feira, o total de capturas relacionadas às apurações chegou a dez.
A SSPDS informou ainda que suspeitos apontados como responsáveis pelas ordens de extorsão foram identificados e estariam no Rio de Janeiro. As autoridades cearenses trabalham em conjunto com a Polícia Civil fluminense para localizar os investigados e esclarecer como as determinações eram transmitidas aos comerciantes de Banabuiú.
As prisões e as diligências integram uma investigação em andamento. A participação individual dos suspeitos nas cobranças, nas ameaças e na organização do esquema ainda depende da conclusão das apurações.
Como a polícia está combatendo a extorsão contra comerciantes?
As forças de segurança reforçaram a presença policial em Banabuiú para permitir a retomada das atividades comerciais e impedir novas ameaças. A operação reúne equipes da Polícia Civil e da Polícia Militar, incluindo unidades especializadas no enfrentamento ao crime organizado e no policiamento ostensivo.
Entre os grupos mobilizados estão o Batalhão Especializado de Policiamento do Interior (Bepi), o Comando de Policiamento de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas (CPRaio), a Força Tática e o Comando da Polícia Militar para Prevenção e Apoio às Comunidades (Copac). As diligências também contam com apoio aéreo da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer).
Além das prisões, a investigação busca identificar outros possíveis participantes do esquema e esclarecer a estrutura utilizada para cobrar dinheiro e transmitir ameaças. O policiamento reforçado também acompanha a retomada das entregas de água mineral, com o objetivo de garantir que os comerciantes possam voltar a trabalhar.
Como denunciar cobranças ilegais e ameaças de facções no Ceará?
Comerciantes e moradores que recebam ameaças ou tenham informações sobre cobranças atribuídas a organizações criminosas podem utilizar os canais oficiais da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará. O Disque-Denúncia 181 recebe informações sobre atividades criminosas e permite o encaminhamento de denúncias de forma sigilosa.
Também é possível enviar mensagens, fotografias, vídeos e áudios pelo WhatsApp (85) 3101-0181, disponibilizado pela SSPDS. Em situações de emergência, quando houver ameaça imediata ou crime em andamento, a Polícia Militar pode ser acionada pelo telefone 190.
As investigações sobre as extorsões em Banabuiú continuam, enquanto as forças de segurança trabalham para localizar os demais suspeitos e impedir novas tentativas de controle criminoso sobre a comercialização de água mineral.




