Desde 1993, quando Steven Spielberg apresentou “Jurassic Park” ao mundo, os dinossauros nunca mais foram os mesmos, ao menos na imaginação coletiva. Mais do que um blockbuster, aquele filme redefiniu o cinema de aventura e efeitos especiais, encantando uma geração inteira que saiu das salas acreditando ter visto criaturas extintas caminhando novamente sobre a Terra. Muitos, como eu, chegaram a sonhar em ser paleontólogos. Mas o tempo passou, as sequências vieram, algumas bem-sucedidas, outras nem tanto, e o fascínio começou a se diluir. Agora, com “Jurassic World: O Recomeço (2025)”, a franquia tenta mais uma vez se reinventar.
O grande diferencial deste novo capítulo está na ambientação. Ao trocar laboratórios futuristas e grandes cidades por uma pequena ilha equatorial isolada, o filme recupera um pouco da essência da aventura clássica. A ilha, com sua selva fechada, rios profundos e dinossauros soltos em um ecossistema próprio, é por si só um espetáculo visual. A proposta é clara: trazer de volta a sensação de perigo real, onde cada passo pode ser o último, cada sombra pode esconder uma ameaça. Nesse ponto, o filme acerta ao se afastar da artificialidade que marcou parte da fase anterior.
O enredo, porém, não escapa da familiaridade. A missão de coletar material genético, os interesses corporativos bilionários, a equipe reunida às pressas, tudo já foi visto em diferentes variações ao longo da saga. É como se a franquia tivesse dificuldade em encontrar novos caminhos narrativos, e isso pesa quando se fala de uma série tão marcante. O resultado é um roteiro funcional, mas previsível, em que desde cedo o espectador já intui quem será o herói, quem será o traidor e quem ficará pelo caminho.
Nas atuações, há pontos altos. Scarlett Johansson assume o papel de protagonista com entrega física e emocional, embora sua personagem, moldada como uma sobrevivente quase invencível, acabe esbarrando em certa falta de credibilidade. Mahershala Ali traz densidade e carisma, enquanto Jonathan Bailey surpreende como um paleontólogo dividido entre ciência e ética. O trio sustenta bem a trama, ainda que não consiga compensar a fragilidade estrutural do roteiro.
Tecnicamente, o filme impressiona. A trilha sonora mantém a grandiosidade que sempre foi marca registrada da franquia, evocando emoções fortes logo nos primeiros acordes. A fotografia valoriza a natureza exuberante da ilha, com enquadramentos que reforçam a imponência das criaturas. As cenas dos dinossauros em ambiente natural, quase livres, estão entre os melhores momentos da obra, uma lembrança de que o simples ato de ver essas criaturas em tela ainda pode ser arrebatador. Mas nem tudo funciona. A insistência nos híbridos, por exemplo, soa desgastada e pouco inspirada. Dinossauros clássicos continuam sendo o maior atrativo da franquia, e não precisam de “aberrações” para despertar interesse. Além disso, algumas soluções narrativas soam forçadas, e a tentativa de equilibrar humor, ação e drama acaba enfraquecendo a identidade do filme.
No fim, “Jurassic World: O Recomeço” entrega uma aventura que diverte em alguns momentos, emociona em outros, mas não alcança o patamar que o nome Jurassic carrega. É um filme razoável e quando falamos de uma saga que revolucionou o cinema, razoável é pouco.
Ainda assim, há um mérito importante. Este filme pode ser a porta de entrada para as novas gerações que talvez nunca tenham assistido aos clássicos. Para elas, o impacto será diferente, mas válido. E para os pais que viveram a magia dos anos 90, fica o convite: revisitar os originais antes de assistir o novo filme com os filhos . Afinal, entender o peso de um rugido só é possível quando se conhece o silêncio que o antecede.
Por Fernanda Leite.
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