Em “Passageiro 666”, dirigido por Alexander Babaev, trauma e paranoia são os motores de uma trama que acontece dentro de um avião em meio a uma tempestade. A cena de abertura já entrega o tom: um acidente aéreo devastador, do qual apenas uma criança sobrevive. Duas décadas depois, essa criança é Katerina (Svetlana Ivanova), agora médica, aparentemente curada do medo de voar, mas prestes a encarar uma nova jornada ao lado da filha (Martha Kessler).
O início do filme dedica bastante tempo à apresentação dos passageiros que dividem o voo com a protagonista: o vizinho de assento atencioso (Kirill Zaytsev), um homem excêntrico que passa o tempo desenhando, o executivo impaciente e o casal de idosos que viaja para encontrar o neto. Soma-se a isso o comportamento incomum das aeromoças, o piloto que nunca aparece ou fala e as condições climáticas desfavoráveis para a decolagem, e temos um cenário pronto para a tensão.
Nos primeiros minutos, Babaev consegue trabalhar a inquietação de forma convincente, explorando o peso do trauma passado da protagonista em contraste com a aparente normalidade da situação. Porém, quando os eventos começam a se intensificar, a morte súbita de um idoso, seguida de outros episódios fatais, a narrativa se perde entre diferentes caminhos possíveis: trata-se de alucinações de Katerina, da ação de uma entidade sobrenatural ou de um destino implacável do qual ninguém pode escapar?
Essa dúvida constante, que poderia ser a maior força de “Passageiro 666”, acaba se tornando sua fraqueza. As mortes em série lembram a franquia “Premonição”, com descrições visuais detalhadas de pequenas falhas que desencadeiam grandes tragédias, como líquidos inflamáveis em contato com gás e um simples isqueiro, resultando em combustão imediata. O problema é que, ao abrir tantas possibilidades, o roteiro escolhe seguir apenas uma no desfecho, frustrando quem esperava um mergulho mais profundo no psicológico.
Ainda assim, o elenco ajuda a manter o interesse. Svetlana Ivanova transmite a vulnerabilidade e a força necessárias para uma personagem que oscila entre coragem e desespero. Kirill Zaytsev é um contraponto equilibrado como o passageiro solícito da poltrona ao lado. Já Martha Kessler, que interpreta a filha de Katerina, está de parabéns: uma atriz mirim excelente, cuja naturalidade emociona e traz frescor em meio ao clima sufocante do voo. Os efeitos práticos também funcionam bem, reforçando o impacto das cenas mais intensas.
A recepção crítica de “Passageiro 666” foi mista: alguns destacam a originalidade da proposta e a profundidade do trauma da protagonista, enquanto outros apontam falhas no ritmo e na costura da narrativa. Minha impressão fica no meio-termo. O filme prende, entretém e tem bons momentos de tensão, mas não chega a mobilizar o espectador de forma duradoura. É o tipo de suspense que se assiste até o fim, com interesse, mas que dificilmente seria revisto.
Por Fernanda Leite
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