A pandemia mudou as perspectivas de trabalho da população. Se antes a mudança do modelo tradicional presencial, com horários rígidos, nem era discutida, atualmente 78% dos profissionais afirmam que a flexibilidade é um requisito fundamental para a satisfação no trabalho, segundo pesquisa da rede social profissional LinkedIn.
Para o mentor profissional e empresarial Yuri Utida, esse é um caminho sem volta, pois o isolamento mudou o mindset dos trabalhadores. “A jornada de trabalho de oito horas, por cinco ou seis dias da semana, presencialmente, era um formato pré-estabelecido herança da Revolução Industrial onde não cabiam muitos questionamentos, mas que hoje não faz mais sentido em diversos cenários. Com o novo cenário as pessoas passaram a avaliar quesitos como tempo de deslocamento, necessidade de estar presencialmente na empresa, tempo ocioso, bem como a inflexibilidade da jornada de trabalho”, explica.
Com a possibilidade de trabalhar de casa ou no modelo híbrido, as pessoas se abriram para novas possibilidades e melhorias na qualidade de vida que antes não eram possíveis devido ao fator tempo. Passar mais tempo com a família, se dedicar a projetos pessoais e ter mais liberdade no cotidiano estão entre elas.
“Isso impacta diretamente o mercado, pois a força de trabalho busca cargos que eles possam exercer com flexibilidade de tempo, mais perto da família, não se deslocando tanto e ganhando mais dinheiro, ou seja, com liberdade financeira e geografia. Isso revoluciona o mercado de uma forma que não era nem imaginável quando as primeiras ferramentas online surgiram”, destaca Yuri Utida.
De acordo com a pesquisa do LinkedIn, 30% dos trabalhadores deixaram seus empregos em 2021 por falta de políticas flexíveis de trabalho, enquanto 40% confessaram tomar essa atitude em algum momento da carreira. Entre os motivos dessa mudança, os entrevistados afirmam que querem mais equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal (49%), melhora na saúde mental (40%), prosperidade (33%) e maior produtividade (43%).CLT x EmpreendedorismoAs fragilidades da CLT também ficaram mais visíveis para o trabalhador. Segundo análise de Yuri Utida, muitas pessoas ainda têm resistência a trabalhar com um pouco mais de liberdade, sem ser vinculado a uma empresa, por causa da falsa ideia de segurança do salário fixo e da CLT.
“O que antes o trabalhador não conseguia enxergar é que sendo funcionário de uma empresa, toda carreira dele fica na mão de outra pessoa, muitas vezes um gestor distante que está vários níveis hierárquicos acima dele e nem conhece esse profissional, o que impossibilita o crescimento dentro da empresa. A estagnação de carreira no regime tradicional de trabalho, na maioria das vezes, não é uma questão de incompetência ou de falta de esforço, mas porque ele é invisível dentro da empresa”, analisa.
Fatores como esse também deram margem para o crescimento no número de pessoas que buscam o empreendedorismo, seja por meio da construção de uma marca ou pelas profissões digitais ligadas ao marketing, vendas e criação de conteúdo. De acordo com o Sebrae, 50 milhões de brasileiros que ainda não empreendem querem abrir um negócio nos próximos três anos. No universo digital, a profissão de social media, por exemplo, cresceu 74% de acordo com o LinkedIn. Entretanto, o caminho ainda é longo. Apesar de, no atual contexto, 84% dos trabalhadores estarem insatisfeitos com os trabalhos, o medo de arriscar ainda fala mais alto. “O cérebro humano é treinado ou para enfrentar ou fugir das situações, só que muitas vezes o nosso emprego está vinculado a muitas responsabilidades, por isso as pessoas ainda se retraem na hora de buscar outras oportunidades porque precisam pagar as contas, tem dependentes ou mesmo porque se acham velhos demais para mudar de carreira. É essa mentalidade que precisa ser desconstruída e recodificada para que os trabalhadores finalmente encontrem o trabalho que os realizem”, pontua.






