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IA acelera o trabalho, mas pode enfraquecer as relações humanas dentro das empresas

O tema ganha destaque no SXSW sob a perspectiva da GenZ. Apesar dos avanços, apenas 1 em cada 10 empresas afirma ter profissionais dessa geração em cargos de liderança, aponta pesquisa do InstitutoZ

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IA acelera o trabalho, mas pode enfraquecer as relações humanas dentro das empresas
Foto: GCMais

Se muitas conversas sobre inteligência artificial se concentram em produtividade e eficiência, a sessão “It’s a Whole Thing: Gen Z Work Relationships in the Age of AI” do South by Southwest (SXSW) trouxe uma provocação mais profunda: o impacto da IA nas relações de trabalho. Em um momento em que empresas correm para integrar ferramentas generativas em seus fluxos ou até remover empregos de base, tradicional porta de entrada da juventude no mercado de trabalho. O painel mostrou que o verdadeiro desafio pode não ser técnico, mas cultural.

Esse contexto conversa diretamente com pesquisas recentes sobre a relação entre empresas e a nova geração de profissionais. No estudo “Quais as dificuldades das empresas brasileiras com a Geração Z?”, conduzido pelo InstitutoZ, núcleo de pesquisa da Trope-se, aparece um desalinhamento importante entre organizações e jovens trabalhadores: apenas 1 em cada 10 empresas afirma ter profissionais da GenZ em cargos de liderança e 1 em cada 3 empresas diz não ter nenhuma estratégia específica para lidar com essa geração no ambiente corporativo. Entre as empresas que afirmam ter iniciativas voltadas para GenZ, 49% dizem que elas não funcionam ou não sabem avaliar os resultados.

A discussão começou com uma ideia aparentemente óbvia, mas que merece nuance: GenZ é frequentemente descrita como uma geração naturalmente fluente em tecnologia, o que não é uma verdade absoluta. Ser nativo digital é diferente de ter adquirido um letramento digital, a ponto de deter conhecimento sobre diferentes faces da tecnologia. Uma das palestrantes, sendo parte da geração, reconheceu que crescer em um ambiente digital facilita a adoção de novas ferramentas. “A GenZ sempre teve tecnologia nas mãos, então é natural experimentar coisas novas como a IA”, afirmou. Ao mesmo tempo, ela lembrou que essa fluência vem acompanhada de pressão: “Como somos a geração mais jovem no mercado, existe uma expectativa de que a gente saiba usar IA ou pelo menos tenha uma opinião sobre ela.”

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Essa pressão aparece rapidamente nas dinâmicas do dia a dia. O mais importante é não generalizarmos e pensarmos que grupos sub-representados dentro da GenZ não tiveram acesso à tecnologia, a ponto de ignorarmos as instruções e treinamentos necessários, ou assumirmos automaticamente que já saibam. É diferente da juventude que nasceu na era da tecnologia, ter crescido no contexto em que essa se fazia presente. Em muitos casos, tarefas que antes exigiam troca entre colegas agora são resolvidas diretamente com ferramentas de IA. Uma designer freelancer relatou que, no passado, ela e seus amigos trocavam mensagens para revisar e-mails difíceis ou discutir decisões profissionais. “Antes eu perguntava para amigos freelancers se um e-mail parecia apropriado. Hoje todo mundo joga isso no ChatGPT.”

Esse pequeno exemplo revela uma mudança maior: a substituição de microinterações humanas por interações com sistemas automatizados. Em empresas, o fenômeno se repete. Em vez de perguntar a um colega sobre um processo ou política interna, funcionários cada vez mais recorrem a bots corporativos que respondem com links ou documentos.

O problema não é a eficiência da resposta, é o desaparecimento de momentos que, historicamente, ajudavam a construir confiança entre colegas. Como explicou uma das pesquisadoras do painel, confiança no trabalho não depende apenas de competência ou consistência. Ela depende também de relacionamento. “Podemos ser altamente competentes e cumprir tudo que prometemos. Mas sem relações positivas, não existe confiança.”

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A própria percepção que o mercado tem da GenZ também contribui para esse desencontro. No mesmo estudo do InstitutoZ, 9 em cada 10 pessoas afirmam que a GenZ é “viciada em internet”, enquanto atributos como pragmatismo ou dedicação ao trabalho recebem avaliações significativamente menores.

Esse dado ajuda a entender por que a adoção de IA muitas vezes acontece de forma desorganizada nas empresas. Com parte da juventude das corporações sendo substituída por inteligência artificial, ou então automaticamente sendo taxadas como fluentes no digital e na tecnologia, aí que começam os equívocos, sejam das estratégias de negócios ou de recursos humanos. Sem uma estratégia baseada no real contexto, muitas organizações acabam implementando transformações digitais sem redesenhar suas dinâmicas de colaboração.

O resultado é uma caricatura geracional que simplifica o debate: jovens são vistos como hiperconectados e naturalmente adaptáveis à tecnologia, quando na prática enfrentam pressões inéditas para acompanhar um ritmo acelerado de transformação digital.

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Esse cenário cria outro fenômeno emergente dentro das organizações: o chamado “shadow AI”. Enquanto departamentos de tecnologia definem políticas formais para uso de inteligência artificial, funcionários já utilizam ferramentas por conta própria para acelerar tarefas ou manter competitividade. Como resumiu uma das especialistas do painel: “Existe o plano oficial da empresa para IA e existe a forma como as pessoas realmente estão usando IA para conseguir fazer o trabalho.”

O paradoxo é que essa corrida tecnológica não está necessariamente reduzindo o estresse no trabalho. Pelo contrário. Uma pesquisa do Upwork Research Institute, citada no painel, indica que 88% dos profissionais que utilizam IA de forma intensiva relatam níveis elevados de burnout. A promessa de eficiência muitas vezes se traduz em aumento de produtividade, mas não em redução da carga de trabalho.

O contraste se torna ainda mais evidente quando olhamos para outras dimensões do comportamento da GenZ. Embora essa geração tenha crescido em ambientes digitais, suas experiências mais significativas continuam profundamente ligadas à convivência social. Nas pesquisas do InstitutoZ sobre cultura e entretenimento, por exemplo, 88% da GenZ afirma passar o Carnaval com amigos, enquanto eventos coletivos como festivais ou grandes competições esportivas continuam sendo vividos principalmente em grupo. Esse dado reforça uma contradição interessante: uma geração altamente orientada para experiências coletivas está entrando em ambientes de trabalho cada vez mais mediados por sistemas automatizados e individuais.

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Outro risco apontado na sessão é a perda do chamado “atrito intelectual” dentro das empresas. Quando profissionais recorrem constantemente a ferramentas de IA para validar ideias ou executar tarefas rapidamente, diminui o espaço para debates que tradicionalmente aprimoram projetos. Como observou uma das participantes: “Interagir com IA reduz o atrito social, mas também pode reduzir o atrito intelectual que melhora as ideias.”

Diante desse cenário, algumas organizações começam a experimentar soluções para preservar o lado humano do trabalho. Uma das propostas discutidas foi a criação de programas de mentoria bidirecional, em que profissionais mais jovens ajudam colegas mais experientes a navegar novas tecnologias, enquanto aprendem com eles conhecimento institucional e experiência de mercado, algo que defendo há 5 anos nas consultorias em que atuo, até porque, nada é superior que a criação de dinâmicas e times intergeracionais. A ideia é simples, mas poderosa: usar a tecnologia como ponto de encontro entre gerações, não como substituto da colaboração humana.

No fim da sessão, uma provocação ficou no ar. Talvez o verdadeiro desafio da era da IA não seja apenas aprender a usar novas ferramentas, mas redesenhar ambientes de trabalho onde eficiência tecnológica e conexão humana possam coexistir.

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✹ Luiz Menezes, 26 anos, creator, empresário, e apresentador. Fundou a Trope-se em 2021,  uma consultoria de novas gerações que ajuda marcas a rejuvenescerem suas estratégias de negócios, conectando-as com a GenZ e GenAlpha a partir de interpretações antropológicas. Criou também o InstitutoZ, instituto de pesquisa das novas gerações. Foi reconhecido como 30under30 do Meio&Mensagem, e Linkedin Top Voice, e atua no mercado há 10 anos, tendo prestado consultoria para marcas como Meta, Itaú, BRF, Unilever, Mondelez, P&G, e mais.

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