*Por Ricardo Queiroz
O ambiente corporativo brasileiro vive um momento de transformação na forma como lida com relações internas e gestão de pessoas. Em meio ao aumento da complexidade nas dinâmicas de trabalho, os conflitos internos deixaram de ser episódios pontuais e passaram a representar um risco estrutural para as empresas.
Um levantamento da Flora Insights, plataforma pioneira em diagnóstico e gestão de riscos psicossociais ocupacionais, aponta que a presença ativa do RH pode reduzir em até 27% esses conflitos, reforçando o papel estratégico da área não apenas na mediação, mas principalmente na prevenção de tensões que impactam diretamente o clima organizacional, a performance e a sustentabilidade do negócio.
Quando falamos em presença ativa do RH, não se trata apenas da resposta ao conflito, mas na capacidade de antecipação. Na prática, uma gestão de RH que lê o ambiente organizacional de forma contínua, identifica sinais de desgaste, entende a dinâmica das equipes e atua próximo às lideranças. É uma atuação orientada por dados e por leitura de contexto, não apenas por demanda.
O principal erro ainda é a atuação reativa e episódica. Muitas empresas dependem de pesquisas pontuais, como o clima anual, ou só se movimentam quando o problema já escalou. Soma-se a isso a baixa integração com lideranças, o que enfraquece qualquer estratégia. Outro ponto crítico é a dificuldade em tratar o conflito de forma sistêmica. Na maioria dos casos, ele não é individual, mas um sintoma de falhas estruturais na gestão, na comunicação ou na cultura.

Impactos para o negócio
Os impactos são diretos e relevantes. Em produtividade, há perda de foco, retrabalho e desalinhamento entre equipes. No clima organizacional, há redução de confiança, aumento de tensão e queda de engajamento. Com o tempo, isso evolui para turnover, afastamentos e, em casos mais críticos, riscos trabalhistas relacionados a assédio e adoecimento.
O problema é que esses efeitos são, em grande parte, silenciosos e cumulativos. Diferente de falhas operacionais evidentes, os conflitos deterioram o ambiente ao longo do tempo.
Muitas empresas ainda subestimam esse cenário por não terem mecanismos estruturados de mensuração. Sem dados, o conflito é tratado como algo pontual ou até natural do ambiente corporativo, quando na prática é um indicador relevante de risco organizacional.
Antecipar conflitos virou prioridade nas empresas
O avanço da NR-01, que define as disposições gerais sobre segurança e saúde no trabalho, e da pauta de riscos psicossociais exige uma mudança clara de modelo. O conflito deixa de ser um evento isolado e passa a ser tratado como um indicador de risco que precisa ser identificado, mensurado e acompanhado. As empresas precisam passar pela estruturação de dados: diagnósticos contínuos, análises segmentadas por área, cargo e tempo de casa, e identificação dos principais focos de risco dentro da organização.
Esse movimento ganha ainda mais força com os avanços recentes na regulamentação do tema. A nova cartilha do Ministério do Trabalho sobre riscos psicossociais reforça essa mudança ao incorporar exigências mais estruturadas dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Na prática, o que antes era tratado de forma mais orientativa passa a exigir critérios técnicos de avaliação, classificação e priorização de riscos, além da definição de planos de ação e monitoramento contínuo, elevando o nível de maturidade esperado das organizações.
Mais do que medir, é necessário criar uma rotina de gestão. Isso inclui capacitação de lideranças, planos de intervenção direcionados e integração com áreas estratégicas. Quando o RH opera nesse nível, deixa de atuar na consequência e passa a atuar na causa. O resultado é ganho de produtividade, melhoria de clima e redução consistente de riscos, tanto organizacionais quanto jurídicos.
Ricardo Queiroz é CEO da Flora Insights, uma plataforma digital especializada e pioneira no diagnóstico e gestão de riscos psicossociais ocupacionais, e cofundador da Shawee, maior plataforma de hackathons da América Latina. Sua carreira foi transformada por experiências globais em tecnologia, que o levaram a contribuir ativamente para o ecossistema de inovação, também com foco em riscos psicossociais e cultura digital.





