Quase metade das agressões contra mulheres no Ceará é cometida por pessoas próximas às vítimas, segundo dados do relatório “Elas Vivem: a urgência da vida”, da Rede de Observatórios da Segurança. O levantamento mostra que 46,8% dos agressores no estado são companheiros, ex-companheiros, familiares ou conhecidos. Além disso, a pesquisa reúne registros de violência de gênero em 2025 e aponta que a maior parte dos casos ocorre dentro de relações de convivência ou confiança.
No Ceará, foram 197 casos de violência contra mulheres monitorados ao longo de 2025, segundo o relatório. O número representa uma redução de 4,8% em relação ao ano anterior, mas especialistas alertam que a queda não significa necessariamente uma melhora do cenário, já que muitos episódios de violência ainda não são denunciados ou registrados oficialmente.
Outro dado que chama atenção no estado é o aumento de mortes de mulheres. O levantamento aponta que 98 mulheres e meninas foram mortas no Ceará, considerando casos de feminicídio, homicídio e transfeminicídio. Esse número representa crescimento de 4,4% em relação ao período anterior, indicando que a violência letal contra mulheres segue em alta mesmo diante da redução de ocorrências registradas.
Violência contra a mulher: proximidade entre vítimas e agressores no Ceará
O fato de quase metade dos agressores ser formada por pessoas próximas evidencia um padrão recorrente nas violências de gênero: os crimes costumam ocorrer em ambientes domésticos ou em relações afetivas.
Especialistas apontam que essa proximidade pode dificultar a denúncia por parte das vítimas, já que muitas dependem emocional ou financeiramente do agressor. Além disso, há casos em que a violência se manifesta de forma gradual, começando com agressões verbais ou psicológicas e evoluindo para formas mais graves.
Entre os tipos de violência registrados no Ceará no relatório, aparecem tentativas de feminicídio ou agressão física, homicídios, feminicídios, violência sexual, tortura e cárcere privado, entre outras modalidades. O levantamento destaca que uma mesma vítima pode sofrer mais de um tipo de violência ao longo do tempo.
Outro aspecto importante é que parte significativa dos crimes ocorre em contextos de relações íntimas. Em muitos casos, o agressor é um parceiro ou ex-parceiro, o que reforça o caráter doméstico da violência de gênero.
Número de casos reforça gravidade da violência contra mulheres
O relatório da Rede de Observatórios da Segurança também apresenta um panorama mais amplo da violência de gênero nos nove estados monitorados. Em 2025, 4.558 mulheres foram vítimas de violência, número que representa um aumento de 9% em relação a 2024.
Os dados indicam que, em média, ao menos 12 mulheres foram vítimas de violência a cada 24 horas nesses estados. O levantamento inclui registros de diferentes formas de agressão, como violência física, sexual, psicológica e patrimonial.
Entre os casos monitorados, 546 foram classificados como feminicídio, além de sete transfeminicídios. No total, foram contabilizadas 1.004 mortes de mulheres, considerando homicídios, feminicídios e transfeminicídios.
Outro dado preocupante é o aumento expressivo de casos de violência sexual. Em 2025, foram 961 registros de estupro ou violência sexual, o que representa um crescimento de 56,6% em relação ao ano anterior, quando haviam sido contabilizados 602 casos.
O perfil das vítimas revela ainda uma realidade alarmante: 56,5% das vítimas de violência sexual eram crianças ou adolescentes entre 0 e 17 anos, o que evidencia a vulnerabilidade de meninas e jovens diante desse tipo de crime.
Violência de gênero no Brasil tem relação direta com relações afetivas
Outro ponto destacado pelo relatório é que a maioria das agressões contra mulheres ocorre dentro de relações afetivas ou familiares.
De acordo com os dados analisados, 78,5% das violências foram cometidas por companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Esse dado reforça a dimensão doméstica da violência de gênero e evidencia que o problema não se restringe a crimes cometidos por desconhecidos.
Especialistas afirmam que esse padrão revela uma estrutura social marcada por desigualdade de gênero e relações de poder. Muitas vezes, a violência é utilizada como forma de controle dentro das relações, manifestando-se inicialmente por meio de ameaças, humilhações ou agressões psicológicas.
Além disso, a dependência econômica e emocional pode dificultar que mulheres rompam ciclos de violência, prolongando situações de abuso por anos.
Falta de dados completos dificulta enfrentamento do problema
O relatório também aponta falhas importantes na produção de dados sobre violência contra mulheres no país. Em muitos casos, informações fundamentais, como raça ou contexto do crime, não são registradas adequadamente.
Esse problema compromete a formulação de políticas públicas mais eficientes, já que dificulta a compreensão da dimensão real da violência e das populações mais afetadas.
Os pesquisadores responsáveis pelo estudo alertam que o combate à violência contra mulheres não pode se limitar apenas à resposta policial ou judicial. Segundo o documento, é necessário investir em políticas de prevenção e em mudanças culturais que enfrentem as raízes do problema.
Entre as medidas apontadas estão a ampliação de campanhas educativas, a inclusão de debates sobre igualdade de gênero nas escolas e o fortalecimento de redes de proteção às vítimas.
Especialistas defendem ações estruturais para reduzir violência
O relatório destaca que enfrentar a violência contra mulheres exige mudanças estruturais na sociedade. Para os pesquisadores, ações pontuais ou reativas não são suficientes para interromper o ciclo de agressões.
Entre as propostas apresentadas estão a educação para igualdade de gênero desde a infância, a desconstrução de estereótipos que reforçam a masculinidade violenta e o envolvimento de diferentes setores da sociedade no enfrentamento do problema.
Além disso, especialistas defendem que a violência de gênero deve ser tratada também como uma questão de saúde pública, e não apenas como um problema de segurança. Isso permitiria ampliar o papel de profissionais de saúde, educação e assistência social na identificação precoce de situações de risco.
Para os pesquisadores da Rede de Observatórios da Segurança, somente com ações integradas entre governo, sociedade civil e instituições públicas será possível reduzir os índices de violência e garantir maior proteção às mulheres no Brasil.




