A pesca artesanal do Ceará está deixando de ser vista apenas como uma atividade tradicional das comunidades costeiras e passando a ocupar espaço em experiências gastronômicas. Em Fortaleza, peixes capturados por pescadores do Titanzinho chegam a pratos inspirados na culinária japonesa, mostrando como o conhecimento de quem vive do mar pode ser incorporado à alta gastronomia.
Pequenos barcos saem diariamente para a costa cearense em busca de pescados como garouba, serra, cavala, bonito e robalo. Depois da captura, os peixes seguem para uma nova etapa: o preparo dentro de uma proposta gastronômica que une técnicas japonesas e ingredientes locais.
A conexão entre o mar do Ceará e a cozinha japonesa acontece por meio do trabalho dos pescadores artesanais, responsáveis por fornecer uma matéria-prima valorizada por chefs que buscam frescor e qualidade nos ingredientes.
Entre esses profissionais está Adriano Firmino Alves, conhecido como Banana. A rotina dele começa ainda durante a madrugada, quando sai para pescar junto com outros trabalhadores do mar.
"Eu vou sempre em busca de progresso, né? Do melhor peixe, de sempre estar na atividade, eu e os meus parceiros. Saímos todo dia por volta de quatro e meia, cinco horas da manhã, né? Em busca de sempre trazer o melhor", contou Adriano.
Pescadores unem tradição e técnicas de conservação
Além da captura, a forma como o peixe é tratado após sair do mar influencia diretamente na qualidade do produto que chega à cozinha. Uma das técnicas utilizadas nesse processo é o ikejime, método japonês de conservação aplicado ainda após a pesca.
Segundo Adriano, o procedimento exige rapidez e precisão para preservar as características da carne.
"Esse é um peixe barracuda, foi pego por mim. Nesse peixe tá feito o processo de ikejime, né? Que é uma técnica japonesa em que a gente faz o abate e fica a carne perfeita. O processo, a gente faz primeiro a morte cerebral, depois a sangria. E temos cinco minutinhos pra fazer isso. Então depois vai diretamente pro gelo e do gelo diretamente pro consumidor", explicou.
A técnica permite que pescados capturados no próprio litoral cearense sejam utilizados em preparos que seguem padrões da gastronomia japonesa.
Do Titanzinho para experiências gastronômicas
A pesca artesanal realizada no Titanzinho passou a integrar uma proposta gastronômica que busca aproximar o consumidor da origem dos alimentos.
Em um restaurante de Fortaleza, os peixes fornecidos pelos pescadores são utilizados pelo chef de sushi Rogério Carvalho na criação de um cardápio autoral baseado no conceito japonês omakase, que significa “estou em tuas mãos”.
Nesse modelo, o menu é definido conforme os pescados disponíveis diariamente.
"O nosso cardápio é escolhido diário conforme os nossos pescados, os mais frescos que a gente tem na casa. Além dos pescados, a gente dá mais importância ainda para o nosso shari. O nosso shari, que é o arroz do sushi, ele é feito diariamente, minuto antes dos nossos clientes chegarem", explicou Rogério Carvalho.
A proposta valoriza não apenas o prato final, mas todo o caminho percorrido pelo alimento, desde a saída do barco até o momento em que chega ao consumidor.
Gastronomia aproxima chefes e pescadores
Para Rogério Carvalho, a relação com os clientes também faz parte da experiência criada a partir dos pescados locais.
"Só em servir o cliente assim, ter essa troca de informações, de aprendizado com o cliente, já é satisfatório para eu conseguir servir o cliente diretamente, olhando no próprio olho do cliente, no dia a dia, e saber um pouco também a história de cada um", afirmou.
Nesse processo, a história do pescador passa a fazer parte da refeição, mostrando a origem do ingrediente utilizado nos pratos.
Ceará e Japão conectados pela valorização do pescado local
Para Marcelo Pimentel, empresário e CEO do PIM Food, a união entre a cultura japonesa e a pesca artesanal cearense representa uma forma de valorizar o que já existe no território.
"Ah, é maravilhoso a gente poder contar essa história, porque a gente tem uma paixão pela cultura japonesa e por como o Japão construiu o que a gente acredita que deve ser um bom sushi. E quando a gente pode utilizar isso com a pesca local, né? Eu sempre acreditei que o melhor peixe é aquele que o mar nos dá todo dia. E é muito bom quando a gente consegue viver essa história através da pesca artesanal junto com os passeios locais, junto com o Banana, que ele traz todo dia. Um pouquinho do amor, do trabalho dele, para que a gente possa contar a nossa história e mostrar o quanto é importante isso."
Segundo ele, a proposta é mostrar o potencial dos ingredientes cearenses e fortalecer a presença do Estado no cenário gastronômico.
Projeto busca reconhecimento internacional
A iniciativa também tem como objetivo alcançar reconhecimento no Guia Michelin, publicação internacional de referência na avaliação de restaurantes.
Marcelo Pimentel afirma acreditar no potencial do Ceará para ocupar espaço nesse cenário.
"Eu acredito que é possível, e essa possibilidade não é minha. Porque essa história que a gente vai contar, às vezes a estrela parece uma coisa muito distante, para restaurantes internacionais, fora do Brasil, e a gente às vezes passa a acreditar no outro e não acredita na gente. Eu acredito muito na potência do Ceará, na potência de Fortaleza, dos nossos... Do nosso time, na criatividade do ceareste, na proximidade desse peixe."




