Na história dos 300 anos de Fortaleza, alguns lugares ajudam a contar como a cidade cresceu e se transformou ao longo do tempo. Um deles é o Cais do Porto, bairro localizado de frente para o mar e marcado pela presença de pescadores, trabalhadores, surfistas e moradores que construíram uma relação de pertencimento com a região.
Entre os símbolos que fazem parte da memória da comunidade está o Farol do Mucuripe. Para quem vive no bairro, o equipamento, além de ser um patrimônio histórico, também representa lembranças, convivência e histórias compartilhadas entre gerações.
Morador do Cais do Porto há mais de cinco décadas, Leleu acompanhou as mudanças da região desde a infância. Para ele, o farol faz parte das lembranças construídas nas ruas e na convivência com os vizinhos. Ele falou com a equipe de reportagem da TV Cidade Fortaleza sobre o bairro:
“ Aqui nós sempre fomos livres, vínhamos pra cá pra brincar. Nós temos o farol não só como um patrimônio da cidade. Nós temos o farol como uma moradia, como playground. Nos traz muitas recordações boas de infância”, conta Leleu.
Porto do Mucuripe impulsionou crescimento do bairro
A formação do Cais do Porto ganhou força a partir da década de 1940, com a construção do Porto do Mucuripe. A nova estrutura atraiu pescadores e trabalhadores, contribuindo para o crescimento da comunidade e para o desenvolvimento econômico da capital.
Segundo o historiador Caliel Vinícius, a mudança do porto ocorreu em um momento em que Fortaleza passava por um processo de expansão urbana.
“Antigamente a gente tinha um porto da praia de Iracema, que era um porto mais rudimentar mesmo. Com a necessidade da urbanização, do crescimento de Fortaleza, a gente teve que deslocar esse porto pra outra região. E a melhor região em termos geográficos, que foi encontrada pra fazer isso, em termos marítimos, foi a região do Porto do Mucripe”, explicou.
Ainda conforme o historiador, a chegada do porto também favoreceu a instalação de atividades industriais na área.
“Com a necessidade de um porto novo, também atrai a indústria. É muito fácil para a indústria do local ser em uma região de porto, para escoar seus produtos, é muito mais barato. Então meio que uma coisa foi puxando a outra”, afirmou Caliel Vinícius.
Serviluz e Titanzinho carregam marcas da história local
A própria denominação de algumas áreas do bairro também está ligada ao processo de crescimento da região. O Serviluz recebeu esse nome a partir de uma antiga companhia responsável pelo fornecimento de energia elétrica em Fortaleza. Já o Titanzinho tem origem nas máquinas em obras na região.
“Por volta de 1950, passa a ter um serviço de luz, que basicamente é uma indústria de fornecimento de energia para a região de Fortaleza. Ainda muito precário, mas passa a ter. E esse fornecimento de luz dá nome a uma praia ou uma região específica dentro do Cais do Porto, que é o Serviluz. O Titanzinho vem das máquinas que operavam no porto, as Titans”, explicou o historiador.
Farol do Mucuripe é símbolo da comunidade
Outro elemento marcante da identidade do Cais do Porto é o Farol do Mucuripe. Com quase 200 anos, o equipamento aparece no brasão do Ceará e também foi lembrado em músicas de artistas como Ednardo e Belchior.
Para Vina, coordenador de ação cultural do Farol do Mucuripe, preservar o equipamento significa também preservar a história da comunidade que se relaciona com o local.
“Preservar o Farol do Mucuripe é preservar toda a comunidade que se une, que se organiza, que se mobiliza em prol dessa preservação. E toda ação voltada a essa política de preservação não está só voltada à manutenção das pinturas, das fachadas, da escadaria, do sítio arqueológico como um todo, mas com certeza é um trabalho conjunto, participativo, partilhado com a comunidade”, destacou.
A moradora e mediadora comunitária Jamile Souza também destaca a importância do farol para os moradores.
“O farol é um símbolo muito importante para a comunidade em si, por isso que nós gostamos muito, pela reforma dele. Graças a Deus ele está aí, resistente, como a comunidade também”, disse.
Comunidade mantém raízes e apresenta o bairro aos visitantes
Além de preservar a memória, moradores também desenvolvem ações para mostrar outras características da região. Entre elas estão caminhadas guiadas pela comunidade, apresentando pontos históricos e espaços naturais.
“A gente sempre faz aquelas caminhadas guiadas aqui dentro da comunidade, para dar uma visão de que a comunidade não é um lugar de risco, e sim um lugar de você vir conhecer o farol, conhecer a nossa praia aqui do Titanzinho, o nosso espigão, que é um lugar maravilhoso, cheio de corais. Tem um lugar maravilhoso para surfar. E a gente faz o convite para quem quiser vir nos conhecer, nós estamos aqui para receber de braços abertos”, afirmou Jamile.
Para os moradores, a principal riqueza do Cais do Porto está nas pessoas que continuam vivendo e construindo a história do bairro: “a vida em comunidade é boa. Sabendo lidar com ela, não tem igual”, comentou Leleu.




