A Justiça determinou a soltura de nove advogados presos no Ceará durante a Operação Mensageiros do Crime, investigação do Ministério Público do Ceará (MPCE) sobre uma suposta atuação de profissionais da advocacia como intermediários de ordens atribuídas a integrantes de facções criminosas.
A liberdade foi concedida mediante medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica, a suspensão do exercício da advocacia e a proibição de contato com outros investigados e testemunhas. Os nove advogados beneficiados pela decisão são Cíntia Emanuela Daniel Alves Gonçalves, Raissa Xavier Leitão, Agnelo Alexandre de Souza Amorim, Débora Marny de Aguiar Parente, Francisca Leny Carneiro Correia Montenegro, Ana Flávia Martins Braga da Silva, Carina Brauna Bruno Sales, Maria Jakelyne Albuquerque Almeida e Tancredo de Lima Araújo.
O advogado Rennier Martins Vasconcelos já estava em liberdade. A situação do 11º advogado preso durante a operação não foi informada no material disponibilizado para esta reportagem. Também não há atualização sobre uma mulher apontada entre os alvos da operação que, na ocasião da ofensiva, estava foragida e tinha domicílio na capital paulista. A soltura dos nove investigados não representa o encerramento da investigação nem uma absolvição. Eles permanecem submetidos às determinações judiciais enquanto o processo segue.
Quais medidas foram impostas aos advogados soltos
A Justiça substituiu a prisão por uma série de medidas cautelares. Os nove investigados estão proibidos de acessar ou frequentar estabelecimentos prisionais ou unidades de privação de liberdade no Ceará. Também permanece suspenso o exercício profissional da advocacia, restrição que já havia sido aplicada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Outra determinação impede os investigados de manter contato, por qualquer meio de comunicação, com os demais envolvidos, corréus e testemunhas da ação penal. Os advogados também não podem deixar a comarca onde residem sem autorização prévia e expressa da Justiça.
Entre as demais medidas estão o recolhimento domiciliar no período noturno, das 20h às 6h, e durante os dias não úteis. Os nove investigados ainda deverão utilizar tornozeleira eletrônica para monitoramento. Com isso, embora tenham deixado a prisão, os profissionais continuam submetidos a restrições de circulação, comunicação e exercício profissional.
Defesa contesta necessidade de manutenção das prisões
Em nota coletiva, a defesa dos advogados sustentou que não haveria justificativa para manter os profissionais presos depois da suspensão do exercício da advocacia. Segundo os defensores, a própria atividade profissional que, conforme a investigação, teria sido utilizada para viabilizar as condutas atribuídas aos investigados já estava suspensa. Para a defesa, essa circunstância retiraria o fundamento utilizado para justificar a manutenção da prisão.
Os advogados também afirmaram que a liberdade concedida pela Justiça decorre de um direito dos investigados, e não de uma concessão excepcional. A manifestação representa a posição da defesa. As suspeitas apresentadas pelo Ministério Público continuam sendo objeto de apuração no processo judicial.
O que é a Operação Mensageiros do Crime
A Operação Mensageiros do Crime foi deflagrada pelo MPCE a partir de uma investigação sobre uma suposta rede de comunicação entre chefes de organizações criminosas presos e integrantes dessas estruturas que estariam dentro e fora do Ceará.
Segundo o Ministério Público, os advogados investigados teriam ultrapassado os limites da atuação profissional e atuado como intermediários no repasse de informações e determinações atribuídas a integrantes de facções.
A investigação teve como ponto de partida uma decisão do Tribunal de Justiça do Ceará, tomada em novembro de 2025, que autorizou a captação de imagens e áudios nos parlatórios da unidade prisional de segurança máxima.
Segundo o MPCE, o material analisado pelos investigadores indicou que alguns profissionais, sob a justificativa de prestar assistência jurídica, manteriam comunicações que teriam finalidade relacionada às atividades de organizações criminosas.
De acordo com o Ministério Público, as conversas analisadas ocorreram entre 8 de dezembro de 2025 e 15 de janeiro de 2026. Nesse intervalo, os investigadores apontaram um padrão que teria se repetido em diferentes contatos entre presos e advogados.
Investigação aponta suposto uso de linguagem codificada
Entre os elementos citados pelo MPCE está o suposto uso de linguagem codificada durante conversas realizadas nos parlatórios.
Conforme a investigação, essas comunicações teriam sido utilizadas para transmitir ordens e orientações destinadas a familiares, outros detentos e integrantes das organizações criminosas que estavam em liberdade.
Os assuntos mencionados na apuração incluem reorganização de facções, expansão territorial, recrutamento de integrantes, aquisição de armas e circulação de drogas.
O Ministério Público também apontou que líderes de organizações criminosas continuariam exercendo funções relevantes mesmo estando presos.
Nesse contexto, os advogados investigados foram classificados pelo MPCE como “pombos-correio” ou “advogados de recado”, expressões utilizadas para descrever a suposta função de intermediários entre detentos e integrantes das organizações criminosas. As acusações ainda serão analisadas no processo judicial, e os investigados têm direito à defesa.
MPCE aponta suposta rede entre advogados investigados
Outro elemento destacado pelo Ministério Público é a relação entre os próprios advogados investigados.
Segundo a apuração, os diálogos analisados apresentavam referências frequentes entre os profissionais, o que, na avaliação dos investigadores, indicaria que os contatos não seriam episódios isolados.
A investigação também apontou que parte dos advogados visitava os mesmos detentos de maneira recorrente.
Dados do Sistema Integrado de Gestão Penitenciária foram analisados para verificar a frequência dos atendimentos. Conforme o MPCE, alguns profissionais apresentavam volume elevado de visitas, considerado pelos investigadores incompatível com o padrão esperado de uma atuação jurídica regular.
Esses elementos foram utilizados pelo Ministério Público para sustentar a hipótese de uma estrutura organizada de comunicação envolvendo presos e advogados.
Operação também teve como alvo chefes de organizações criminosas
A operação não teve apenas os advogados como alvo. Ao todo, foram expedidos 29 mandados de prisão e 29 de busca e apreensão em Fortaleza, Aquiraz, Caucaia, Itaitinga, Maracanaú e São Gonçalo do Amarante, além de São Paulo.
Segundo o MPCE, 17 mandados de prisão foram cumpridos contra chefes de organizações criminosas. Desse total, 15 já estavam presos na Unidade Prisional de Segurança Máxima do Ceará e dois estavam em liberdade.
A ofensiva também resultou no bloqueio de R$ 20 milhões em contas relacionadas aos investigados e na apreensão de bens.
Entre os itens apreendidos estava uma Range Rover blindada que, segundo as informações divulgadas sobre a operação, pertencia a um dos chefes de facção presos. Celulares, notebooks e joias também foram recolhidos.
A investigação busca esclarecer a estrutura de comunicação apontada pelo Ministério Público e a eventual participação individual de cada investigado.
O que acontece agora com os advogados investigados
Com a decisão judicial, os nove advogados deixam a prisão, mas continuam submetidos às cautelares determinadas pela Justiça. A tornozeleira eletrônica, o recolhimento domiciliar, a proibição de contato com outros envolvidos e a suspensão da advocacia permanecem em vigor.
A liberdade não representa uma conclusão sobre a responsabilidade criminal dos investigados. O processo continua e as acusações apresentadas pelo Ministério Público ainda serão submetidas à análise judicial.
Um dos pontos centrais da investigação é estabelecer a diferença entre atos praticados no exercício regular da advocacia e condutas que, segundo a acusação, poderiam ter sido utilizadas para facilitar a comunicação entre integrantes de organizações criminosas.




