O aumento no preço da gasolina tem levado consumidores de Fortaleza a reduzir deslocamentos e reorganizar compromissos para tentar conter o impacto no orçamento. Para quem depende do veículo diariamente, os mesmos R$ 100 usados no abastecimento passaram a durar menos tempo, enquanto o custo do combustível também pode pressionar despesas com transporte, logística, alimentos e serviços.
O vigilante Elvis Simplício é um dos consumidores que sentem a mudança no dia a dia. Segundo ele, que falou com a equipe de reportagem da TV Cidade Fortaleza, antes era possível abastecer o carro, que tem motor 1.0, com R$ 100 e utilizar o combustível durante boa parte da semana. Agora, a situação é outra:
“Antigamente eu abastecia 100 reais, aí dava uma semana, quatro, cinco dias, e olha porque o meu carro é 1.0. E hoje em dia esses 100 reais que dava pra semana toda, hoje só dá dois, três dias.”
A diferença faz com que o abastecimento passe a exigir um planejamento maior. Em vez de apenas controlar quanto colocar no tanque, o consumidor precisa avaliar quais deslocamentos são realmente necessários e como concentrar atividades em uma mesma saída.
Consumidores reduzem deslocamentos para economizar
Uma das estratégias adotadas por Elvis é aproveitar uma viagem para resolver o maior número possível de compromissos. A medida busca evitar deslocamentos adicionais e, consequentemente, reduzir o consumo de combustível ao longo da semana.
Ele cita como exemplo uma ida da Messejana até a Aldeota para acompanhar a esposa em uma consulta. Em vez de retornar para casa e realizar outras atividades posteriormente, a opção é aproveitar o mesmo deslocamento para resolver outras demandas.
“Hoje tinha uma consulta da minha esposa na Aldeota, eu moro na Messejana. Então da Messejana pra cá eu já faço o que eu vou resolver durante a semana todinha. Aproveite que você vai fazer uma coisa e tente resolver o máximo possível de coisas durante esse dia. Isso vai, com certeza, impactar no seu bolso e você vai ver a melhoria.”
Salário não acompanha aumento das despesas
Para o garçom Francisco Silva, o problema está relacionado à dificuldade de conciliar o custo da gasolina com a renda mensal. Ele afirma que o salário não aumenta na mesma proporção das despesas.
“O salário da gente não aumenta, a gente o que ganha é só a gasolina aqui, e misericórdia... Não está deixando muita gente feliz, não.”
O impacto sobre o orçamento ocorre porque o combustível é uma despesa recorrente para quem precisa se deslocar diariamente. Quando o valor gasto para abastecer aumenta, sobra menos dinheiro para outras despesas da família.
Alta também pode afetar outros gastos
O efeito do aumento não fica restrito aos motoristas. O economista Paulo Barbosa explica que o combustível tem relação direta com a atividade econômica, especialmente em uma cidade como Fortaleza.
“Fortaleza é uma cidade, inclusive, que tem uma grande pujância na área de logística, então qualquer aumento relacionado a combustíveis tem um impacto diretamente na economia, as famílias vão ter uma perda no seu poder de compra, considerando que combustível acaba sendo um bem essencial, é transporte.”
O transporte de produtos e a circulação de mercadorias dependem do combustível. Por isso, uma elevação dos custos nessa etapa pode pressionar outras atividades, com possíveis reflexos sobre logística, alimentos e serviços.
Por que o impacto é maior para quem depende do carro?
O peso da gasolina no orçamento varia de acordo com a necessidade de deslocamento de cada consumidor. Quem utiliza o veículo diariamente para trabalhar, por exemplo, tem menos possibilidade de simplesmente deixar de abastecer.
A situação também é diferente para quem percorre distâncias maiores ou precisa realizar vários deslocamentos ao longo do dia. Nesses casos, o aumento do custo por abastecimento pode se transformar em uma despesa recorrente maior ao longo do mês.
Combustível pesa além do momento de abastecer
O impacto econômico da alta também pode aparecer de forma indireta. O combustível tem impacto no transporte de pessoas e mercadorias, o que faz com que seus custos tenham ligação com diferentes atividades da economia.
A especialista em finanças Gabriela Magalhães ressalta que, diante de uma alta sem uma mudança evidente nos principais componentes do preço, é importante observar como isso aconteceu.
“Quando temos um movimento assim, sem uma mudança evidente nos principais componentes do preço, é importante entender o que aconteceu dentro da cadeia de distribuição. A análise das notas fiscais e dos custos de aquisição poderá mostrar se os postos realmente passaram a pagar mais pelo combustível e se esse aumento é compatível com o que foi repassado ao consumidor.”
Decon notifica 64 postos após denúncias de consumidores
O preço da gasolina no Ceará voltou a subir em postos de Fortaleza e chegou a R$ 6,99 por litro em estabelecimentos dos bairros Dionísio Torres, São João do Tauape, Fátima, Aldeota e Meireles, no pagamento via Pix, débito ou dinheiro. No crédito, o valor em alguns pontos chega a R$ 7,19.
Motoristas relataram que encontraram preços inferiores poucos dias antes do reajuste. Diante das reclamações, o Departamento Municipal de Proteção e Defesa dos Direitos do Consumidor (Decon) do Ceará notificou 64 postos de combustíveis em Fortaleza para que apresentem justificativas para o aumento.
A notificação foi motivada por denúncias de consumidores sobre a elevação dos valores cobrados pela gasolina. Os estabelecimentos terão cinco dias para apresentar a documentação solicitada pelo órgão.
A análise vai considerar os preços de aquisição do combustível e os valores cobrados dos consumidores. O objetivo é verificar se houve alteração no custo de compra e quanto desse eventual aumento foi repassado para as bombas.
A secretária-executiva do Decon Ceará, Ann Celly Sampaio, explica que os documentos também serão utilizados para avaliar se houve aumento nos custos dos próprios estabelecimentos:
"Os documentos apresentados serão da compra do combustível, para a gente verificar se houve reajuste nessa compra. E também da venda ao consumidor, porque a gente faz a avaliação sobre se houve um aumento e quanto desse aumento foi repassado para o consumidor. E aí a gente também faz uma avaliação geral do custo, se houve aumento de custo daquele estabelecimento, durante essa alta de preço."




