O banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, tratava como prioridade os pagamentos ao escritório de advocacia Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. É o que apontam mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular do empresário e incluídas em relatório cujo sigilo foi retirado nesta terça-feira (1º) pelo ministro André Mendonça.
Em uma das conversas, o ex-ministro e ex-deputado federal Fábio Faria cobra Vorcaro sobre o pagamento e escreve que “o careca não pode atrasar”, em uma referência que a própria investigação associa a Alexandre de Moraes. A mensagem aparece no mesmo contexto de uma transferência de R$ 3,42 milhões para o escritório de Viviane.
O relatório da PF também reúne mensagens nas quais Vorcaro demonstra preocupação com eventuais atrasos nos pagamentos e orienta funcionários do Banco Master a acompanhar os repasses mensalmente.
O que as mensagens de Vorcaro mostram?
Segundo o relatório da Polícia Federal, Vorcaro chegou a classificar o contrato com o escritório Barci de Moraes como o “mais importante” que o banco tinha.
As mensagens foram extraídas do celular do empresário e passaram a integrar a investigação sobre sua relação com diferentes autoridades. Em fevereiro de 2024, Vorcaro perguntou sobre a data do primeiro pagamento previsto no contrato e, no mesmo dia, recebeu o comprovante de uma transferência de aproximadamente R$ 3,4 milhões para o escritório.
Em março daquele ano, após Fábio Faria cobrar o banqueiro, Vorcaro procurou um funcionário responsável pelos pagamentos e demonstrou irritação com o atraso.
A PF registrou a sequência das conversas, a cobrança interna e, posteriormente, o comprovante de transferência de R$ 3.422.268,14 para uma conta do escritório no Itaú.
O que significa a expressão “o careca não pode atrasar”?
A expressão aparece em uma conversa de Fábio Faria com Vorcaro relacionada ao pagamento.
De acordo com o relatório da PF, “o Careca” era uma forma utilizada por Faria para se referir a Alexandre de Moraes. Em outros diálogos, o apelido aparece associado a encontros entre o ministro e o banqueiro.
A mensagem foi enviada em 15 de março de 2024. Logo depois, Vorcaro entrou em contato com um funcionário do Banco Master para cobrar a realização do pagamento ao escritório de Viviane Barci de Moraes.
A associação feita pela investigação entre o apelido e Moraes, porém, não significa que a mensagem, isoladamente, prove participação do ministro nas cobranças ou nos pagamentos. O relatório apresenta as conversas como elementos de investigação, que ainda precisam ser analisados pelas autoridades competentes.
Quanto o Banco Master pagava ao escritório?
O contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes previa pagamentos mensais de R$ 3 milhões líquidos durante 36 meses, o que correspondia a R$ 108 milhões líquidos ao longo do período. Outras informações divulgadas no contexto da investigação apontam um valor contratual total de aproximadamente R$ 131 milhões.
A primeira transferência identificada pela PF foi de R$ 3,42 milhões, realizada em fevereiro de 2024.
O material também mostra que os pagamentos continuaram sendo acompanhados de perto por Vorcaro. Em uma conversa posterior, o banqueiro orientou uma funcionária a evitar que o repasse atrasasse e determinou que o pagamento fosse acompanhado todos os meses.
Vorcaro pediu que pagamentos não atrasassem
As mensagens reveladas pela PF mostram que a preocupação com os pagamentos não se limitava a uma única transferência.
Em uma conversa, Vorcaro orienta uma funcionária do banco a colocar o pagamento em seu controle para evitar atrasos. O banqueiro também afirma que o repasse deveria ser feito mesmo diante de dificuldades relacionadas à documentação do pagamento.
Em outubro de 2025, outro diálogo chamou a atenção dos investigadores. Depois de ser informado de que um pagamento ao escritório havia sido realizado por Pix, Vorcaro questionou o funcionário e afirmou que não seria uma forma adequada de fazer o repasse.
O relatório registra ainda que, em abril de 2025, Vorcaro orientou um funcionário a restringir o acesso ao contrato com o escritório.
O contrato envolvia a esposa de Alexandre de Moraes
O escritório Barci de Moraes pertence à advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
A relação contratual entre o escritório e o Banco Master passou a ser analisada pela Polícia Federal no contexto das investigações sobre Daniel Vorcaro. O material também inclui informações sobre a elaboração do contrato e seus documentos.
Segundo o relatório, uma versão da minuta teve como última modificação um usuário identificado nos metadados como “Ministro Alexandre de Moraes”. A PF, contudo, registra esse dado como elemento encontrado na análise e não apresenta, nesse trecho, conclusão definitiva sobre quem realizou a alteração ou sobre eventual irregularidade decorrente dela.
O escritório de Viviane Barci de Moraes já afirmou que Alexandre de Moraes foi consultado para avaliar possíveis impedimentos legais relacionados ao contrato e que não havia impedimento porque o ministro não julgava processos relacionados ao Banco Master.
PF também encontrou um segundo contrato
A investigação identificou ainda um segundo contrato relacionado ao escritório de Viviane Barci de Moraes, firmado em 2025 com uma empresa ligada a Vorcaro.
Segundo informações divulgadas a partir do relatório, o acordo envolvia ativos relacionados a aeronaves, incluindo cotas de um jatinho e de um helicóptero. O material também registra conversas sobre a estrutura do negócio e preocupações com possíveis impactos de imagem.
Esse segundo contrato é diferente do acordo original firmado entre o Banco Master e o escritório.
A existência dos contratos e das transferências financeiras, por si só, não estabelece que tenha ocorrido crime ou que Alexandre de Moraes tenha participado pessoalmente das negociações e dos pagamentos. A própria documentação da investigação faz distinção entre os elementos encontrados e uma eventual conclusão sobre responsabilidade.
O que Alexandre de Moraes e o escritório dizem?
O caso está inserido em uma investigação mais ampla sobre a atuação de Daniel Vorcaro e sua rede de relações.
O escritório Barci de Moraes sustenta que os contratos foram submetidos a procedimentos de compliance e que Alexandre de Moraes foi consultado para verificar eventual impedimento. O ministro também nega ter atuado para beneficiar Vorcaro ou o Banco Master.
O relatório da PF reúne mensagens, documentos e informações financeiras para análise do Supremo. A retirada do sigilo por André Mendonça tornou o conteúdo público e ampliou a possibilidade de análise dos elementos apresentados pelos investigadores.
Até o momento, os documentos divulgados não representam uma decisão judicial definitiva que reconheça crime ou irregularidade praticada por Alexandre de Moraes.
O que acontece agora?
Com a retirada do sigilo, o conteúdo da investigação passa a ser analisado publicamente e deverá integrar a discussão sobre os próximos passos do caso no Supremo Tribunal Federal.
O material inclui as conversas entre Vorcaro e integrantes de sua rede de contatos, os contratos firmados com o escritório de Viviane Barci de Moraes e os pagamentos realizados pelo Banco Master.
A partir desses elementos, caberá às autoridades responsáveis avaliar o significado jurídico das informações e se existem fundamentos para novas providências.




