O Nordeste apresenta sinais de maior resiliência diante da desaceleração da economia brasileira, segundo análise do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene) do Banco do Nordeste (BNB). Os dados mais recentes apontam desempenho relativamente mais favorável da Região no varejo e nos serviços, embora ainda não seja possível caracterizar o cenário como uma recuperação disseminada.
A economia brasileira perdeu ritmo ao longo de 2026. No entanto, a desaceleração tem sido menos intensa do que alguns indicadores antecedentes sugeriam. No segundo trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) confirmou a perda de velocidade, mas apresentou resultado acima do indicado por alguns dados de alta frequência.
No Nordeste, os indicadores mais recentes mostram uma diferença em relação ao comportamento nacional. Em julho, o varejo restrito e ampliado apresentou reação, enquanto os serviços ganharam força na Região. No Brasil, os serviços registraram perda de ritmo no mesmo período.
Nordeste apresenta sinais mais favoráveis no segundo semestre
A análise do Etene destaca que a diferença entre o Nordeste e o Brasil está principalmente no comportamento recente da atividade, e não necessariamente no nível econômico.
O varejo apresentou reação no país, mas o movimento foi mais forte no Nordeste. Já nos serviços, enquanto o Brasil registrou perda de ritmo em julho, a Região apresentou ganho de força.
Esse comportamento melhora a leitura de curto prazo para o Nordeste. Ainda assim, o estudo ressalta que os dados não configuram uma retomada disseminada da atividade regional.
A avaliação é de que o Nordeste poderá continuar apresentando desempenho superior ao do Brasil ao longo do ano, embora a persistência dos sinais recentes ainda seja necessária para confirmar uma recuperação mais ampla.
Renda e ocupação ajudam a sustentar a atividade
O mercado de trabalho aparece como um dos principais fatores de sustentação da economia regional.
Segundo a análise, o crescimento do rendimento real e da ocupação foi mais intenso no Nordeste do que no Brasil. Esse movimento contribuiu para a expansão da massa real de rendimentos, ajudando a sustentar o consumo.
O estudo, porém, também identifica uma desaceleração no emprego formal. Dessa forma, o mercado de trabalho regional apresenta dois movimentos simultâneos: maior crescimento da renda e da ocupação, mas menor dinamismo na geração de empregos formais.
Para o Etene, renda e ocupação funcionam como amortecedores da desaceleração no Nordeste, mas a perda de ritmo do emprego formal exige atenção.
Crédito continua crescendo, mas perde velocidade
O crédito permanece em expansão na Região, embora os indicadores de curto prazo apontem perda de dinamismo.
Entre as famílias, a desaceleração das concessões é mais evidente. Já no crédito destinado às empresas, o indicador de três meses apresentou avanço significativo, sinalizando uma reação recente.
A composição do crédito, portanto, é diferente entre os segmentos. Enquanto as famílias apresentam perda de força, as empresas registram um movimento recente de melhora nas concessões.
O estoque de crédito continua crescendo, mas a análise indica que a moderação das novas operações pode reduzir gradualmente esse suporte à atividade econômica.
Inadimplência é um dos principais riscos
A situação financeira das famílias aparece entre os fatores que podem intensificar a desaceleração. A análise aponta aumento da fragilidade financeira, associado ao endividamento, aos juros elevados e ao avanço da inadimplência.
No Nordeste, o risco é considerado mais relevante em razão da menor renda disponível. Nesse cenário, uma piora na capacidade de pagamento pode levar a condições de crédito mais restritivas e afetar o consumo.
O estudo aponta que esse processo pode enfraquecer um dos mecanismos que atualmente ajudam a sustentar a atividade regional.
Inflação recua no Nordeste em agosto
A inflação apresentou queda mais intensa no Nordeste em agosto. O IPCA regional registrou deflação de 0,46%, enquanto o índice nacional caiu 0,32%.
No acumulado de 12 meses até agosto, porém, o Nordeste registrou inflação de 4,32%, ligeiramente acima dos 4,22% observados no Brasil.
A análise aponta que a melhora recente da inflação abre espaço para cortes graduais da taxa básica de juros, mas fatores internos e externos ainda limitam a velocidade desse processo.
Entre os riscos estão o preço do petróleo, os juros dos Estados Unidos e os possíveis impactos do El Niño sobre a produção agropecuária, os preços dos alimentos e os custos de insumos.
El Niño aumenta riscos para 2027
No Nordeste, os efeitos do El Niño em 2026 são considerados heterogêneos. Segundo o estudo, a safra de sequeiro do início do ano não foi alterada, enquanto os reservatórios oferecem relativa segurança para a fruticultura irrigada.
Caso o fenômeno persista, os riscos aumentam em 2027, principalmente para lavouras temporárias, cana-de-açúcar, pastagens e disponibilidade hídrica.
A menor produtividade e o aumento dos custos podem pressionar os preços dos alimentos, o fluxo de caixa de produtores e o crédito rural.




