A religião na China mantém tradições que atravessaram séculos e continuam presentes na rotina de parte da população, mesmo em um país conhecido pela rápida transformação econômica e tecnológica. Em Guangzhou, no sul chinês, um templo budista e uma catedral católica mostram como diferentes expressões de fé ocupam espaços na vida da cidade, entre práticas religiosas antigas, construções históricas e restrições impostas pelo sistema político.
Esse é o tema de mais uma reportagem da série Rota Ceará-China, produzida pela equipe da TV Cidade que está no país. A jornalista Bianca Saraiva visitou o Templo do Grande Buda e a Catedral do Sagrado Coração de Jesus para apresentar tradições espirituais que ajudam a compreender uma dimensão menos conhecida da sociedade chinesa.
No templo budista, a experiência religiosa começa pelos gestos. As mãos se unem, o corpo se inclina e as orações são entoadas em um ritmo cadenciado. Enquanto os fiéis fazem oferendas, o incenso queima no ambiente, compondo uma prática em que movimentos, palavras e símbolos têm significados próprios.
De acordo com a reportagem, para muitos chineses, visitar um templo faz parte dos costumes familiares, transmitidos entre gerações. A espiritualidade, entretanto, não se limita a uma única tradição ou forma de manifestação em um país de grande população e diversidade cultural.
Budismo na China: uma tradição com quase dois mil anos
O budismo chegou à China a partir da Índia há quase dois mil anos e, ao longo dos séculos, passou a integrar a história cultural e religiosa do país. Seus ensinamentos estão associados à busca pelo despertar espiritual, à compreensão do sofrimento e ao desenvolvimento de qualidades como compaixão e sabedoria.
A palavra “Buda” significa “aquele que despertou”. A expressão está relacionada a Siddhartha Gautama, figura histórica que deu origem à tradição budista. Com o tempo, diferentes escolas e práticas budistas se desenvolveram em várias regiões da Ásia, incluindo a China.
No Templo do Grande Buda, em Guangzhou, os rituais observados pela equipe da TV Cidade ajudam a mostrar como essa herança permanece visível. O uso de incenso, as oferendas e as orações fazem parte de práticas que conectam os participantes a uma tradição espiritual antiga.
A presença desses espaços também evidencia o papel dos templos para além das cerimônias. Eles preservam símbolos, referências históricas e costumes que atravessam gerações. Para visitantes e fiéis, a experiência pode envolver devoção, contato com a arquitetura tradicional ou interesse pela cultura local.
A reportagem destaca justamente essa dimensão cotidiana: em meio às transformações urbanas e tecnológicas, práticas religiosas continuam fazendo parte da experiência de muitos moradores.
Isso não significa, porém, que toda a população chinesa siga uma religião. As relações com a espiritualidade variam, e a dimensão religiosa do país é marcada tanto por tradições antigas quanto por diferentes formas de crença e ausência de filiação religiosa.
Catedral do Sagrado Coração de Jesus atravessa a história de Guangzhou
Outro cenário visitado pela equipe foi a Catedral do Sagrado Coração de Jesus, um dos principais marcos da presença católica em Guangzhou. A construção começou em 1863, durante o período imperial, e levou 25 anos para ser concluída.
A arquitetura chama a atenção pelos arcos, vitrais e pela fachada inspirada nas grandes igrejas europeias. Um detalhe da construção é a planta em formato de cruz, característica que remete à tradição arquitetônica cristã.
A catedral também funciona como testemunho de diferentes períodos da história chinesa. O edifício surgiu quando o país ainda era governado por imperadores e atravessou mudanças políticas profundas, incluindo o fim da monarquia e a chegada do regime comunista.
A trajetória histórica da religião na China foi marcada por períodos de abertura e repressão. Durante a Revolução Cultural, entre 1966 e 1976, instituições religiosas sofreram perseguições, e muitos templos e igrejas foram fechados ou tiveram suas atividades interrompidas.
A continuidade da Catedral do Sagrado Coração de Jesus como espaço religioso ajuda a ilustrar a permanência do catolicismo na cidade, apesar das transformações políticas e sociais vividas pelo país.
A reportagem também apresenta o relato de um visitante identificado na transcrição como Jim ou Jean. Ele contou que conheceu a igreja pela internet, achou o espaço bonito e decidiu visitá-lo para aproveitar o ambiente. O episódio mostra que locais religiosos podem despertar interesse tanto pela fé quanto pelo patrimônio arquitetônico e histórico.
Como funciona a liberdade religiosa na China?
A existência de templos budistas e igrejas católicas abertas ao público não significa que a liberdade religiosa na China seja irrestrita. O Estado reconhece oficialmente cinco religiões: budismo, taoismo, islamismo, protestantismo e catolicismo.
As organizações religiosas, porém, precisam atuar dentro das normas estabelecidas pelas autoridades chinesas e estão sujeitas à supervisão estatal. O Partido Comunista Chinês mantém controle sobre diferentes aspectos da organização da vida pública, incluindo a atividade religiosa institucional.
O governo justifica essas medidas como necessárias para preservar a ordem e a segurança nacional. Organizações e observadores internacionais, por outro lado, apontam restrições à autonomia de comunidades religiosas e à prática de determinadas crenças fora das estruturas autorizadas.
Esse cenário torna a experiência religiosa chinesa complexa. A presença de templos e igrejas históricos convive com regras que condicionam o funcionamento das instituições e a organização das comunidades de fé.
Por isso, compreender a religião no país exige observar duas dimensões: a continuidade de tradições culturais e espirituais e os limites políticos impostos às manifestações religiosas.
A situação também varia conforme a comunidade, a região e o tipo de organização. O reconhecimento oficial de uma religião não significa que todas as suas instituições tenham liberdade irrestrita para atuar, assim como a existência de regras estatais não elimina as práticas religiosas presentes na sociedade.
Rota Ceará-China mostra uma China além da tecnologia
A série Rota Ceará-China busca apresentar aspectos da sociedade chinesa que vão além dos indicadores econômicos, das fábricas e dos avanços tecnológicos frequentemente associados ao país.
Ao percorrer um templo budista e uma catedral católica, a reportagem mostra como os espaços religiosos ajudam a contar histórias sobre costumes, patrimônio, transformações políticas e relações sociais.
Em Guangzhou, os dois locais visitados representam tradições diferentes, mas ambos revelam a permanência de referências espirituais em uma sociedade que passou por profundas mudanças ao longo dos séculos.
O contraste entre a prática budista e a arquitetura cristã também evidencia a diversidade histórica da cidade. De um lado, mantras, oferendas e gestos de devoção; de outro, vitrais, arcos e uma catedral construída durante o período imperial.
A reportagem amplia o olhar sobre a China ao mostrar que a modernização não apaga automaticamente os costumes antigos. Tradições familiares, símbolos religiosos e edifícios históricos continuam fazendo parte da paisagem e da experiência de moradores e visitantes.
Por trás das transformações econômicas e tecnológicas, a espiritualidade permanece como uma dimensão da experiência humana. Na China, essa presença convive com uma realidade política particular, na qual a prática religiosa continua sujeita a limites estabelecidos pelo Estado.




