A cobertura vacinal no Ceará caiu entre 2019 e 2021, período do governo Jair Bolsonaro, e voltou a crescer nos anos seguintes. Em 2021, nenhuma das sete vacinas avaliadas em bebês de até um ano alcançou a meta de proteção, e os indicadores de diferentes imunizantes ficaram abaixo dos níveis registrados antes da queda. A recuperação começou a aparecer a partir de 2022 e ganhou força em 2023, com resultados mais elevados em 2025.
Dados da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) mostram que, entre 2021 e 2025, as coberturas das vacinas contra rotavírus, meningocócica C e pentavalente avançaram 20 pontos percentuais. A vacina contra a febre amarela teve crescimento de 49 pontos percentuais no mesmo intervalo. Em 2025, o estado superou as médias nacionais em 15 dos 16 indicadores de cobertura vacinal analisados.
A queda registrada no início da série histórica acendeu um alerta para a proteção das crianças contra doenças que podem ser prevenidas por imunização. Em abril de 2022, a Sesa informou que nenhuma das sete vacinas avaliadas em bebês havia atingido a meta em 2021.
Como a vacinação caiu no Ceará entre 2019 e 2021
Os números do LocalizaSUS mostram a dimensão da redução em diferentes imunizantes. A cobertura da BCG, vacina que protege contra formas graves da tuberculose, ficou em 73% em 2021. No caso da hepatite B, o indicador caiu de 97% para 71%.
Em 2021, todas as vacinas consideradas no levantamento estavam abaixo de 80% de cobertura. A redução também atingiu outros imunizantes destinados à proteção infantil, como pneumocócica, tríplice viral, meningocócica C, poliomielite e pentavalente.
Um levantamento divulgado em setembro de 2021 já indicava dificuldades para alcançar as metas do calendário infantil. No primeiro semestre daquele ano, a cobertura entre crianças menores de um ano variava de 48% a 69%, conforme a vacina considerada. A segunda dose da tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, tinha o menor percentual, com menos da metade das crianças recebendo a aplicação prevista.
Em abril de 2022, os dados referentes a bebês de até um ano mostravam quedas expressivas entre 2017 e 2021. A BCG registrou redução de 68,5 pontos percentuais; a pneumocócica, de 43,2; a primeira dose da tríplice viral, de 41,8; a meningocócica C, de 40,2; a vacina contra rotavírus, de 38,9; a poliomielite, de 33,6; e a pentavalente, de 31,1 pontos percentuais.
O médico sanitarista Álvaro Madeira Neto avalia que a redução também está ligada à hesitação vacinal e à circulação de informações falsas ou enganosas sobre os imunizantes.
“A partir de algum momento, a gente vem vivendo um quadro que a gente chama de hesitação vacinal. Por diversos motivos, houve em algum momento uma baixa dessa cobertura vacinal que já foi superior a 95% e era motivo de orgulho para todo o Brasil.”
Cobertura vacinal voltou a crescer a partir de 2022
A recuperação dos indicadores começou em 2022 e se fortaleceu nos anos seguintes. Segundo a Sesa, o estado alcançou resultados importantes em 2023 e manteve coberturas elevadas em diferentes vacinas até 2025.
Entre os destaques de 2025 estão os imunizantes contra pneumococo, rotavírus, meningocócica C e pentavalente, que alcançaram coberturas entre 95% e 96%.
A coordenadora estadual de Imunização, Ana Karine Borges, afirma que a retomada foi significativa após os resultados mais baixos registrados em 2021. “Conseguimos retomar as coberturas vacinais, que estavam em torno de 70% no ano de 2021. Muitas das vezes por conta da própria pandemia de covid ou a desinformação, o crescimento da desinformação [sobre as vacinas]. Tivemos uma retomada significativa em 2023, alcançando patamares ainda maiores no ano de 2025.”
Entre as estratégias citadas pela Sesa está o aumento do número de doses de vacinas repassadas ao Ceará pelo Ministério da Saúde. De 2023 a 2026, o volume chegou a 50,4 milhões de doses. Somente em 2026, a distribuição no estado se aproxima de 10 milhões.
No Dia Nacional da Vacinação, celebrado no sábado (17), os indicadores de 2025 mostravam o Ceará acima das médias brasileiras em 15 dos 16 parâmetros avaliados. Os dados nacionais apontam a distribuição de mais de 1,15 bilhão de doses de vacinas no Brasil nos quatro anos considerados.
HPV teve avanço principalmente entre os meninos
A vacinação contra o HPV também apresentou crescimento, especialmente entre o público masculino. A ampliação das estratégias nas escolas e as ações para recuperar pessoas que não haviam recebido a vacina estão entre os fatores apontados para a evolução dos indicadores.
Em 2021, a cobertura contra o HPV era de 87% entre as meninas e de 41% entre os meninos. Em 2025, os percentuais chegaram a 90% e 78%, respectivamente. O aumento entre os meninos foi de 37 pontos percentuais, enquanto o indicador feminino cresceu três pontos.
A vacina é indicada na rotina para meninas e meninos de nove a 14 anos, em dose única, conforme as informações fornecidas. O imunizante protege contra tipos do papilomavírus humano relacionados a verrugas genitais e a diferentes tipos de câncer, incluindo os de pênis, ânus e orofaringe.
Álvaro Madeira Neto destaca a segurança da vacinação e a importância de respeitar as orientações sobre o momento adequado para receber as doses:
“A vacina é segura. O Ministério da Saúde estabelece os momentos adequados para que essa vacinação possa ser feita de forma segura, e com isso a gente minimizar esses efeitos e minimizar esse contágio.”
Vacinação infantil e proteção contra o sarampo
As crianças menores de cinco anos concentram parte importante das doses aplicadas no calendário de rotina, que inclui esquemas básicos e reforços. O período inicial da infância exige atenção à carteira de vacinação para que as doses sejam recebidas nas idades previstas.
De acordo com as informações reunidas, crianças de zero a dois anos recebem 14 vacinas, distribuídas em cerca de 28 aplicações entre doses e reforços. A quantidade de aplicações varia conforme o imunizante e o esquema previsto.
A proteção contra o sarampo começa com a primeira dose da tríplice viral, indicada aos 12 meses. A segunda dose deve ser administrada aos 15 meses. Em 2025, a cobertura da primeira dose ficou em 93% tanto no Ceará quanto no Brasil. Na segunda dose, o estado chegou a 81%, acima dos 79% registrados nacionalmente. Em 2026, o indicador da primeira dose alcançou 98% no Ceará.
Mesmo com a recuperação, a prevenção do retorno de doenças eliminadas ou controladas continua sendo uma preocupação. O médico sanitarista alerta para o risco de novas ocorrências quando a cobertura vacinal diminui.
“O sarampo, que tem sido muito falado, por exemplo, é um exemplo disso. É uma doença que a gente tem, graças a Deus, o selo de controle. Se você tem uma baixa cobertura vacinal contra o sarampo, por exemplo, pode gerar novos quadros com que a gente já não estava mais convivendo.”
Dengue e novas estratégias de imunização
A vacinação contra a dengue começou em 2024, inicialmente nos municípios elegíveis pelo plano nacional de operacionalização. No Ceará, a primeira etapa contemplou municípios da região de Fortaleza, além de Crato e Iguatu.
Em 2026, a vacinação passou a integrar a rotina nos 184 municípios cearenses para o público de 10 a 14 anos, com esquema de duas doses. Dados da Rede Nacional de Dados em Saúde apontam 328.325 doses administradas até o momento considerado no levantamento. A cobertura era de 36% na primeira dose e de 15% na segunda.
As estratégias especiais de vacinação também passaram a alcançar faixas etárias mais variadas. Entre 2023 e 2024, as doses desse tipo de ação se concentraram principalmente em crianças menores de um ano e de um ano de idade. A partir de 2025, houve ampliação para crianças de cinco a 11 anos e adultos de 25 a 59 anos, tendência que se manteve em 2026.
A Sesa associa essa ampliação ao fortalecimento da rede de imunobiológicos especiais, à divulgação dos serviços e à mobilização para atender pessoas com condições específicas de saúde.
Entre os idosos, o aumento de doses aplicadas também precisa ser observado considerando as mudanças no calendário nacional: a vacina contra a covid-19 foi incorporada à rotina em 2024, e a oferta contra a influenza foi ampliada em 2025 para além do período tradicional de campanha.
Estudo relaciona votação em Bolsonaro e cobertura contra covid-19
Um estudo publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva analisou a relação entre os resultados eleitorais de 2022 e a cobertura vacinal contra a covid-19 em diferentes municípios brasileiros. A pesquisa utilizou dados de mais de 33 mil pessoas de 133 municípios participantes do Epicovid-19 2.0, levantamento sobre os impactos do coronavírus na população.
Os dados foram cruzados com os resultados do segundo turno da eleição presidencial de 2022. O estudo identificou que a proporção de pessoas que não completaram o esquema vacinal recomendado contra a covid-19 era duas vezes maior nos municípios em que Jair Bolsonaro recebeu mais votos, na comparação com cidades onde o ex-presidente teve menor votação.
A epidemiologista Romina Buffarini, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), é a principal autora do artigo. O resultado descreve uma associação estatística observada entre os dados analisados e não permite, isoladamente, afirmar que a preferência eleitoral tenha causado a menor cobertura vacinal.
Ceará tem 2.700 salas de vacinação nos 184 municípios
O estado dispõe de 2.700 salas de vacinação distribuídas pelos 184 municípios. A estrutura oferece as vacinas do calendário básico para diferentes faixas etárias, de acordo com as orientações do programa de imunização.
Ana Karine Borges destaca que os postos oferecem os imunizantes previstos para os diversos públicos: “os postos funcionarão ofertando todas as vacinas do calendário básico de vacinação de todos os públicos, independente da faixa de idade.”




