A devastação do Cerrado, as consequências das mudanças climáticas e a resistência da natureza diante do avanço do desmatamento ganham expressão por meio da dança no espetáculo Menos da Metade, que chega a Fortaleza neste fim de semana. Apresentada pela Quasar Cia de Dança, de Goiás, a montagem transforma a crise ambiental em uma experiência artística e reflexiva, convidando o público a observar as mudanças no bioma e questionar os impactos da ação humana sobre um dos ecossistemas mais diversos do planeta.
As apresentações serão realizadas nesta sexta-feira (31), às 20h30, e no sábado (1º de novembro), às 18h, no Theatro José de Alencar, no Centro de Fortaleza. A entrada é gratuita, com acesso por ordem de chegada. A temporada integra a programação da 10ª Bienal Internacional de Dança do Ceará do Par em Par.
Com coreografia de Henrique Rodovalho, o espetáculo representa um momento especial na trajetória da companhia, que possui mais de 35 anos de existência. Pela primeira vez, o grupo aborda diretamente a crise ambiental contemporânea e direciona o olhar para a realidade do território onde mantém suas raízes: o Cerrado goiano.
Mais do que apresentar uma sequência de movimentos inspirados na natureza, a proposta é provocar uma discussão sobre o futuro do bioma. A obra aborda o desmatamento, as queimadas, o aumento das temperaturas e as transformações provocadas pelo desequilíbrio ambiental.
Em entrevista, Henrique Rodovalho explica que a criação nasceu de uma inquietação que se tornou cada vez mais urgente diante dos acontecimentos climáticos registrados nos últimos anos.
“Eu tenho pensado nesse trabalho há bastante tempo e cada vez mais percebo sua necessidade”, afirma o coreógrafo.
Ele destaca que episódios de calor extremo, secas intensas e chuvas destrutivas têm demonstrado como as alterações nas condições climáticas afetam diferentes regiões do Brasil. Os impactos também atingem diretamente atividades econômicas, como a produção rural, que depende das condições naturais para manter safras e rebanhos.
Ao trazer essas questões para o palco, a Quasar pretende estimular o debate sobre os limites da exploração ambiental e a necessidade de preservar o Cerrado.
“Debater isso, a partir de um estado que desmata e está perdendo seu bioma, é nossa obrigação”, ressalta Rodovalho.
Espetáculo Menos da Metade retrata o ciclo do Cerrado ao longo do ano
Um dos aspectos mais interessantes da montagem está na maneira como a narrativa foi construída. O espetáculo acompanha a passagem dos meses e reproduz, por meio dos movimentos dos bailarinos, as transformações que acontecem na vegetação do Cerrado durante o ciclo climático.
Segundo Henrique Rodovalho, a apresentação começa no período em que a vegetação recupera o verde e as flores aparecem após as chuvas. É uma fase de renovação, marcada pela transformação da paisagem e pela abundância de cores.
Entretanto, essa aparência de vitalidade não permanece durante todo o ano. Com a interrupção das chuvas, o bioma começa a enfrentar um período de estiagem que modifica completamente suas características.
A partir de junho, a seca se intensifica. Entre agosto, setembro e outubro, a vegetação chega ao período de maior aridez, depois de vários meses sem precipitações significativas.
As folhas desaparecem, o verde perde espaço e a paisagem assume tonalidades próximas à cor da terra avermelhada, característica de muitas áreas do Cerrado.
Essa mudança progressiva é traduzida pela coreografia, que utiliza o próprio calendário climático como estrutura para desenvolver a narrativa. Dessa maneira, o público acompanha uma espécie de viagem pelas diferentes fases do bioma, percebendo tanto sua beleza quanto sua fragilidade.
A escolha também permite mostrar que o Cerrado possui características próprias e um funcionamento natural que depende do equilíbrio entre os períodos de chuva e estiagem.
A proposta artística, portanto, não se limita a retratar uma paisagem. Ela procura mostrar como a natureza se transforma e como esse ciclo pode ser comprometido quando a pressão ambiental se intensifica.
Ipê-amarelo representa resistência e esperança em meio à devastação
Entre os elementos apresentados no espetáculo, um ganha destaque especial na narrativa de Henrique Rodovalho: o ipê-amarelo.
A árvore, conhecida pela floração que se destaca justamente durante o período mais seco do ano, aparece como um símbolo de resistência diante de uma paisagem aparentemente devastada.
O coreógrafo explica que a presença do ipê chama atenção porque, mesmo quando a vegetação perde suas folhas e o cenário assume tons de terra, a árvore consegue produzir uma floração marcante.
Na montagem, esse momento é representado pelo aparecimento de um ipê-amarelo, cuja presença estabelece um contraste com o ambiente seco.
A escolha tem um significado importante para a mensagem que a companhia pretende transmitir. Em meio às dificuldades enfrentadas pelo bioma, a natureza ainda encontra formas de manifestar sua força e beleza.
Rodovalho enxerga nessa imagem uma possibilidade de esperança. O ipê surge como um elemento que resiste mesmo diante de condições adversas e de um cenário marcado pela degradação ambiental.
O recurso também ajuda a construir uma das mensagens centrais da apresentação: apesar dos danos provocados pelo desmatamento e pelas queimadas, a natureza continua demonstrando sua capacidade de renovação.
Isso não significa, entretanto, ignorar a gravidade dos problemas ambientais. Pelo contrário. A beleza da floração contrasta com a devastação retratada durante o espetáculo e reforça a necessidade de proteger o bioma.
A narrativa termina no período em que as chuvas estão prestes a retornar, fechando o ciclo climático apresentado no palco e retomando a perspectiva de renovação.
Desmatamento e queimadas estão no centro da reflexão
A preocupação ambiental que conduz Menos da Metade está relacionada principalmente ao avanço do desmatamento, às queimadas e às temperaturas elevadas registradas nos últimos anos.
Para a Quasar, abordar essas questões significa aproximar a produção artística de uma realidade que faz parte do cotidiano de Goiás.
O estado tem forte presença da atividade agropecuária, característica mencionada pelo coreógrafo ao explicar as contradições que atravessam a discussão sobre o uso da terra.
A necessidade de ampliar áreas produtivas e, ao mesmo tempo, preservar os recursos naturais aparece como uma das questões que o espetáculo pretende colocar em debate.
Rodovalho não apresenta a montagem como uma resposta definitiva para os problemas ambientais. A intenção é levantar perguntas, provocar desconforto e estimular a reflexão sobre as consequências das escolhas feitas em relação ao território.
Essa abordagem também representa uma mudança na trajetória da companhia. Embora tenha mais de três décadas de atuação, a Quasar nunca havia desenvolvido um trabalho diretamente dedicado a uma questão relacionada ao lugar onde existe e à realidade ambiental de sua região.
Com oito bailarinos em cena, a montagem utiliza a linguagem corporal para abordar um assunto que ultrapassa os limites de Goiás. A crise ambiental e seus efeitos não estão restritos a um único estado, mas fazem parte de uma discussão que envolve diferentes regiões brasileiras.
Quasar Cia de Dança apresenta espetáculo gratuito no Theatro José de Alencar
A chegada de Menos da Metade à capital cearense também amplia o acesso do público local a uma produção de dança contemporânea que combina expressão artística e discussão ambiental.
As apresentações fazem parte da 10ª Bienal Internacional de Dança do Ceará do Par em Par, iniciativa que reúne diferentes expressões da dança e promove o encontro entre artistas, companhias e espectadores.
A circulação nacional do espetáculo é realizada pela Quasar Cia de Dança e pelo Ministério da Cultura, com apresentação do Ministério da Cultura e do PicPay, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Para quem pretende acompanhar a montagem, as duas sessões serão realizadas no Theatro José de Alencar, com entrada gratuita e acesso por ordem de chegada.
Confira os horários:
- Sexta-feira (31 de outubro): às 20h30.
- Sábado (1º de novembro): às 18h.
- Local: Theatro José de Alencar, Fortaleza.
- Entrada: gratuita, por ordem de chegada.
Ao levar a devastação do Cerrado para o palco, a Quasar Cia de Dança aposta na arte como instrumento de sensibilização. A intenção é fazer com que o público não apenas observe a beleza dos movimentos, mas também reconheça as transformações de um bioma ameaçado.
No espetáculo, o ipê-amarelo que floresce em meio à seca funciona como uma imagem de resistência. É também um convite para pensar sobre o que ainda pode ser preservado antes que a degradação ambiental comprometa ainda mais a riqueza natural do Cerrado.




