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MEIO AMBIENTE

Nordeste pode ganhar novas áreas de conservação marinha que somam 18,2 milhões de hectares

ICMBio propõe proteger 18,2 milhões de hectares no Atlântico Equatorial. Fortaleza terá consulta pública sobre a iniciativa em novembro

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Nordeste pode ganhar novas áreas de conservação dos oceanos
Proteção de montes oceânicos no Nordeste pode beneficiar pesca e biodiversidade. Foto: Reprodução

Uma área de 18,2 milhões de hectares no Oceano Atlântico, entre o Ceará e o arquipélago de Fernando de Noronha, poderá ganhar proteção ambiental com a criação de três unidades de conservação marinha. A proposta é do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e será debatida em consultas públicas nos dias 6 de novembro, em Natal (RN), e 9 de novembro, em Fortaleza (CE).

A iniciativa abrange os Montes Oceânicos das Cadeias de Fernando de Noronha e Norte do Brasil, formações submarinas consideradas importantes para a biodiversidade e a manutenção dos estoques pesqueiros no Nordeste. A área total prevista corresponde a 18,2 milhões de hectares no Atlântico Equatorial brasileiro.

A proposta busca conciliar a conservação dos ambientes marinhos com a continuidade de atividades pesqueiras sustentáveis. Segundo as organizações que apoiam a iniciativa, a preservação desses locais pode contribuir para a recuperação das populações de peixes e beneficiar comunidades que dependem economicamente da pesca.

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O que prevê a proposta de conservação marinha no Nordeste?

O projeto prevê a criação de três unidades de conservação federais, divididas em duas categorias de proteção. A maior será a Área de Proteção Ambiental (APA) dos Montes Oceânicos das Cadeias de Fernando de Noronha e Norte do Brasil, com 16,1 milhões de hectares.

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As outras duas unidades serão Refúgios de Vida Silvestre (REVIS), que, juntos, somam aproximadamente 2,1 milhões de hectares. São elas:

  1. REVIS dos Montes Oceânicos da Cadeia de Fernando de Noronha: 1.057.113 hectares;
  2. REVIS dos Montes Oceânicos da Cadeia Norte do Brasil: 1.034.860 hectares.

A APA é uma categoria de uso sustentável, que permite a presença humana e a realização de atividades econômicas, desde que sejam respeitadas as regras de conservação e ordenamento. Já os Refúgios de Vida Silvestre têm como objetivo proteger ambientes naturais necessários à existência e à reprodução de espécies.

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As duas cadeias oceânicas possuem aproximadamente 1.300 quilômetros de extensão e reúnem montes submarinos distribuídos em áreas oceânicas ao largo do Ceará e do Rio Grande do Norte. Também fazem parte desse conjunto formações que chegam à superfície, como o Atol das Rocas, no Rio Grande do Norte, e o arquipélago de Fernando de Noronha, em Pernambuco.

Os montes oceânicos são elevações submarinas de origem vulcânica. Ao interagir com as correntes marítimas, essas estruturas favorecem a circulação de nutrientes e contribuem para a formação de ambientes com grande diversidade de organismos.

A Cadeia de Fernando de Noronha reúne aproximadamente 15 montes submersos. Já a Cadeia Norte do Brasil, também conhecida como Bancos do Ceará, possui cerca de 17 montes oceânicos na Margem Equatorial brasileira.

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Como a proteção dos montes oceânicos pode beneficiar a pesca?

Um dos objetivos da proposta é contribuir para a recuperação dos estoques pesqueiros. Os montes submarinos funcionam como áreas de alimentação, abrigo e reprodução de diferentes espécies marinhas.

De acordo com os estudos apresentados com a proposta do ICMBio, a preservação desses ambientes pode favorecer o crescimento e a reprodução dos peixes. Com a proibição da pesca de fundo nos dois Refúgios de Vida Silvestre, a expectativa é que essas áreas funcionem como reservatórios de vida marinha.

Esse processo é conhecido como spillover e ocorre quando indivíduos de uma área protegida se dispersam para regiões próximas onde a pesca é permitida. Dessa forma, a conservação pode contribuir para a reposição dos estoques pesqueiros e para a produtividade das áreas de pesca no entorno.

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A proteção dos fundos dos montes também busca manter as funções ecológicas desses ambientes. O objetivo é preservar as condições necessárias para a dispersão e a migração de ovos, larvas, juvenis e adultos de diferentes organismos, incluindo corais e peixes de interesse comercial.

A proposta, portanto, não prevê a proibição de todas as atividades pesqueiras na região. A APA permite atividades econômicas sustentáveis, enquanto os dois refúgios terão regras específicas de proteção, incluindo a proibição da pesca de fundo.

Qual o impacto para os pescadores do Ceará?

A conservação dos ambientes marinhos também está relacionada à atividade econômica de comunidades tradicionais do Nordeste. No Ceará, o setor pesqueiro reúne aproximadamente 18 mil pescadores e está ligado a cerca de 342 comunidades tradicionais.

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Nos municípios de Itarema e Acaraú, 210 embarcações estão associadas a um potencial de produção bruta estimado entre R$ 101,6 milhões e R$ 127,2 milhões por ano. Esse valor, porém, não corresponde exclusivamente à pesca realizada nos montes oceânicos.

No Rio Grande do Norte, a pesca artesanal responde por aproximadamente 80% da produção pesqueira estadual e envolve mais de 10 mil associados a colônias. Em Fernando de Noronha, cerca de 94 pescadores artesanais dependem dos recursos marinhos.

A proposta busca manter a atividade pesqueira tradicional, especialmente aquela realizada na coluna d'água, ao mesmo tempo em que estabelece áreas de proteção para ambientes considerados importantes para a reprodução e o desenvolvimento de espécies.

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Para Angela Kuczach, articuladora da SOS Oceano, coalizão que reúne organizações de conservação marinha, a proteção dos montes pode contribuir para a manutenção dos estoques pesqueiros e da renda das comunidades que dependem do oceano.

Quais espécies marinhas vivem na região?

Os montes oceânicos das duas cadeias abrigam habitats utilizados por centenas de espécies de peixes residentes e migratórios. Entre as espécies ameaçadas registradas estão o tubarão-lixa, o tubarão-dos-recifes, a raia-mariquita, o pargo, o badejo-quadrado, o mero, o budião-sinaleiro e o cângulo-rei.

A região também possui recifes mesofóticos, bancos de rodolitos, corais, esponjas e macroalgas. Essas estruturas oferecem condições para alimentação, abrigo e reprodução de diferentes organismos marinhos.

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Entre os principais formadores dos recifes está o coral-cérebro-gigante (Montastraea cavernosa). Os bancos de rodolitos, formados por algas calcárias, também contribuem para a diversidade de habitats, favorecendo a fixação de corais, esponjas e outros invertebrados.

A área tem importância para as aves oceânicas. Mais de 60% da população mundial da pardela-de-bico-preto, estimada em cerca de cinco milhões de indivíduos, passa pela região durante as migrações. Aproximadamente 30% da população global da pardela-escura também utiliza esse corredor no Atlântico.

Outras aves migratórias registradas são o bobo-pequeno e a cagarra-do-mediterrâneo.

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As cadeias oceânicas também fazem parte das rotas de alimentação e deslocamento de cinco espécies de tartarugas marinhas encontradas no Brasil: tartaruga-de-couro, tartaruga-de-pente, tartaruga-cabeçuda, tartaruga-oliva e tartaruga-verde.

Outro grupo presente na região é o dos mamíferos marinhos. Pelo menos 28 espécies utilizam os montes como áreas de alimentação, abrigo, descanso, reprodução e deslocamento. Entre elas estão a baleia-jubarte, a baleia-azul, a baleia-fin, a baleia-sei, o cachalote e o boto-cinza.

Os golfinhos-rotadores que frequentam Fernando de Noronha também utilizam as encostas dos montes submarinos da cadeia oceânica. Segundo José Martins, coordenador-geral do Projeto Golfinho Rotador, parte significativa dos animais pode estar passando mais tempo nos montes submarinos a oeste do Atol das Rocas.

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Quando serão realizadas as consultas públicas?

O ICMBio realizará duas consultas públicas para apresentar a proposta de criação das unidades de conservação, esclarecer dúvidas e receber contribuições da sociedade e dos governos locais.

As reuniões estão previstas para as seguintes datas:

  1. 6 de novembro: Natal, no Rio Grande do Norte;
  2. 9 de novembro: Fortaleza, no Ceará.

A iniciativa é resultado de aproximadamente uma década de estudos e expedições científicas realizados pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pelo Instituto Recifes Costeiros (IRCOS) e pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (Cepene), vinculado ao ICMBio.

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A proposta também está relacionada aos compromissos ambientais assumidos pelo Brasil. Com a adesão ao Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, o país se comprometeu a contribuir para a conservação efetiva de pelo menos 30% das áreas marinhas e costeiras até 2030.

A meta está alinhada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 14 da Organização das Nações Unidas (ONU), que trata da conservação e do uso sustentável dos oceanos. Durante a Conferência da ONU sobre os Oceanos, em 2025, o Brasil também anunciou a intenção de ampliar de 26% para 30% a cobertura de suas áreas marinhas protegidas até o fim da década.


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