A estudante cearense Taís Magno informou que recebeu de volta o dinheiro que mantinha no Ueno Bank, instituição financeira digital do Paraguai que teve as atividades interrompidas por determinação do Banco Central do país. Os valores foram transferidos para uma conta em outra instituição bancária, aberta por ela depois do bloqueio. A devolução ocorreu após a crise que deixou milhões de clientes sem acesso aos recursos.
Taís comemorou a recuperação do dinheiro em uma publicação nas redes sociais. Ela contou que esperava que o procedimento pudesse levar até 30 dias, prazo previsto na legislação, mas recebeu os valores antes desse limite.
“Todo meu dinheiro que estava no banco foi devolvido pra outra conta bancária. Que coisa mais maravilhosa! Todo meu dinheiro que estava no banco que deu problema agora está em outro banco que fiz outra conta ontem. Fiquei tão feliz, tão nervosa por ter recebido tão rápido o dinheiro, pensando que eles iam mandar em até 30 dias. Por lei, podem mandar em até 30 dias. Muito rápido o que aconteceu”, relatou.
A estudante também mencionou as manifestações realizadas por clientes afetados pela interrupção dos serviços. Antes da restituição, ela havia contado ao Portal GCMAIS que estava sem acesso aos recursos e que parte do dinheiro mantido na instituição tinha origem em doações de amigos destinadas ao zoológico de Assunção.
Cearense tinha dinheiro próprio e doações bloqueados
Taís mora em Assunção, capital do Paraguai com o marido paraguaio. Ela cursa Medicina Veterinária e estava entre os clientes que não conseguiram acessar as contas após a decisão do Banco Central paraguaio.
Na véspera da devolução, a estudante relatou que não havia recebido aviso prévio sobre a interrupção das atividades. Segundo ela, a conta funcionava normalmente até a divulgação de um comunicado pelo banco, durante a madrugada de terça-feira (3).
“Não teve nenhum tipo de aviso antes. Estava correndo tudo em normalidade, e tínhamos alguma suspeita porque o cashback era bem alto. Às vezes, recebia 50% de desconto. Imagina: se ia num mercado que tinha parceria com o banco e dava 300 reais, eles devolviam pra mim 150 reais. Era bom demais pra ser verdade, mas durou até bastante tempo. Algumas pessoas suspeitavam, mas a gente ficava tranquilo: tá tudo bem, tudo bem”, contou.
Ela disse que só verificou a comunicação algumas horas depois, quando se preparava para ir à faculdade. Ao acessar a conta, encontrou o saldo bloqueado.
“Até que, do nada, às 3 da madrugada, na terça-feira, emitiram nota, e eu fui ver só às 6 da manhã, quando estava me preparando pra ir na faculdade, e minha conta ficou com dinheiro bloqueado. Foi um susto muito grande. Passamos por um aperreio, mas tenho fé que vai ficar tudo bem”, relatou.
Além dos recursos pessoais, a estudante mantinha no banco uma quantia recebida de amigos para ser destinada ao zoológico da capital paraguaia. Ela explicou que o dinheiro não pertencia a ela e deveria ser encaminhado à instituição.
“Inclusive, eu tinha dinheiro, era pouquinho, e era de algumas doações de alguns amigos. Tinha dinheiro do zoológico lá, no banco”, afirmou. Na publicação mais recente, Taís disse que todo o dinheiro que mantinha na instituição foi devolvido para outra conta. Ela não detalhou separadamente a destinação dos valores que seriam encaminhados ao zoológico.
Banco Central determinou liquidação da instituição
O Banco Central do Paraguai determinou a liquidação do Ueno Bank na terça-feira (3), após identificar problemas de solvência. A decisão levou ao bloqueio das contas e ao congelamento dos ativos e passivos da instituição, enquanto as autoridades iniciaram os procedimentos para organizar a transferência das contas e a restituição dos recursos.
Antes de receber o dinheiro, Taís havia relatado que acompanhava as atualizações divulgadas diariamente pelo Banco Central sobre a devolução dos valores. Segundo ela, as informações indicavam que os pagamentos poderiam começar até a segunda-feira seguinte ao anúncio, com limite de até 121 milhões de guaranis. A estudante também mencionou o prazo legal de até 30 dias para a restituição.
A crise atingiu aproximadamente três milhões de clientes, número próximo à metade da população paraguaia, estimada em 6,5 milhões de habitantes. A instituição administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo valores de fundos previdenciários.
A interrupção dos serviços provocou dificuldades para correntistas que dependiam do dinheiro mantido no banco. Aplicativos apresentaram falhas, clientes ficaram sem acesso a cartões e operações financeiras e foram registradas filas para saques. A situação levou clientes e trabalhadores a realizar manifestações em Assunção, cobrando esclarecimentos e a liberação dos valores.
O Ueno Bank havia passado de uma fintech de nicho para uma instituição financeira de médio porte. O colapso também levantou questionamentos sobre a administração da instituição e as operações financeiras do grupo controlador.
Crise bancária provocou pressão sobre o governo paraguaio
A repercussão do caso chegou ao governo do Paraguai. O presidente Santiago Peña anunciou, na quinta-feira (5), que pretende renunciar ao cargo em meio à pressão política provocada pela crise. A saída, no entanto, depende da formalização e do cumprimento dos procedimentos institucionais previstos no país.
Em pronunciamento gravado, Peña afirmou que tomou a decisão considerando a estabilidade nacional, a paz social e a preservação das instituições democráticas. O anúncio ocorreu no mesmo dia em que parlamentares discutiam a abertura de um processo de impeachment contra o presidente.
Peña foi acionista do grupo controlador do Ueno Bank até março de 2025. A relação com a instituição passou a ser questionada por opositores, que apontaram possível conflito de interesses na condução da crise.
Antes de anunciar a intenção de deixar o cargo, o presidente havia solicitado a saída de Carlos Carvallo da presidência do Banco Central. Carvallo também comandou anteriormente a financeira que deu origem ao Ueno Bank e deixou a função em meio à repercussão do caso.
Deputados pediram impeachment de Peña e do vice-presidente
Um grupo de 35 deputados apresentou um pedido de impeachment contra Santiago Peña e o vice-presidente Pedro Alliana. O documento cita suspeitas de conflito de interesses, uso indevido de fundos de pensão e possível acobertamento institucional relacionado ao colapso do banco.
As acusações foram apresentadas pelos parlamentares e ainda dependem da tramitação prevista na Constituição paraguaia. Para que o processo avance, é necessária a aprovação na Câmara dos Deputados. Se houver continuidade, o Senado ficará responsável pelo julgamento.
O Ministério Público do Paraguai também solicitou a abertura de uma investigação criminal sobre os acontecimentos envolvendo o Ueno Bank. Oito pessoas ligadas à instituição foram detidas, enquanto outras 27 foram formalmente imputadas por suspeita de participação em irregularidades financeiras. As investigações devem apurar a conduta de cada envolvido.
Caso a renúncia de Peña seja formalizada, o vice-presidente Pedro Alliana é o nome previsto na linha de sucessão constitucional para assumir a Presidência do Paraguai. A mudança, porém, depende da conclusão dos procedimentos legais. Até a confirmação oficial da saída de Peña, a sucessão presidencial não pode ser considerada concluída.




