A distribuição de água na comunidade da Rosalina, em Fortaleza, foi suspensa após uma ordem atribuída a uma facção criminosa que atua na região. Comerciantes deixaram de realizar entregas de garrafões em domicílio depois de receberem ameaças. A determinação também afeta áreas dos bairros Parque Dois Irmãos, Passaré e Itaperi, onde trabalhadores do setor passaram a evitar a circulação de caminhões.
A ordem foi divulgada por meio de uma mensagem conhecida como “salve”, que circulou nas redes sociais e chegou à produção da TV Cidade por meio de denúncias enviadas pelo WhatsApp. No comunicado, os responsáveis pelas distribuidoras são ameaçados caso continuem abastecendo os estabelecimentos e moradores das áreas mencionadas.
O documento estabelece a suspensão das entregas a partir de 2 de novembro de 2026, sem prazo definido para a retomada. A mensagem também orienta os comerciantes a procurarem duas pessoas apontadas como responsáveis pela região e ameaça quem descumprir a determinação.
A situação provocou apreensão entre moradores e comerciantes. Durante a passagem pela comunidade, a equipe de reportagem encontrou estabelecimentos com garrafões vazios e outros com poucas unidades cheias, destinadas exclusivamente aos consumidores que conseguem buscar o produto diretamente no local.
O caso expõe como ameaças atribuídas ao crime organizado interferem na rotina de trabalhadores e no acesso da população a um produto essencial. A ocorrência em Fortaleza também tem semelhanças com um episódio registrado dias antes em Banabuiú, no Sertão Central do Ceará, onde uma determinação criminosa também provocou a interrupção da distribuição de água.
Facção determina suspensão da distribuição de água na Rosalina
A mensagem que circulou entre comerciantes apresenta uma ordem direcionada às distribuidoras que atendem o chamado Complexo da Rosalina, conjunto de áreas que inclui localidades da região.
O comunicado estabelece que os veículos não devem realizar entregas dentro dos territórios mencionados até uma nova determinação. O texto ainda faz ameaças aos responsáveis pelas empresas que desobedecerem à orientação.
A mensagem diz:
“COMUNICADO COMPLEXO ROSALINA (TODAS AS ÁREAS QUE FAZEM PARTE DO COMPLEXO). ATENÇÃO TODAS AS DISTRIBUIDORAS DE ÁGUA DO COMPLEXO TOTAL DA ROSALINA. A PARTIR DESTA DATA DE HOJE 02/11/26 NÃO É PRA DISTRIBUIR NENHUMA ÁGUA DENTRO DAS ÁREAS ATÉ SEGUNDA ORDEM. PROCURE OS DOIS FRENTES RESPONSÁVEIS DA REGIÃO, CASO CONTRÁRIO TERÃO PROBLEMAS E PREJUÍZO PRÓPRIO. ENTÃO TODOS PAREM COM URGÊNCIA ATÉ SEGUNDA ORDEM. DESDE JÁ AGRADECEMOS A ATENÇÃO DE TODOS.”
A determinação não estabelece uma data para a normalização do serviço. Com isso, os comerciantes ficam sem uma previsão de quando poderão retomar as entregas, enquanto os moradores precisam encontrar alternativas para conseguir os garrafões.
A denúncia chegou à TV Cidade pelo canal de comunicação da emissora. Depois de receber o material, a equipe foi até a comunidade da Rosalina e percorreu ruas e avenidas para verificar a situação relatada.
Comerciantes relatam ameaças e caminhão interceptado
Na Avenida dos Paroaras, a reportagem encontrou um caminhão de distribuição de água deixando a região. O veículo seguiu em direção à Avenida Juscelino Kubitschek e não foi visto retornando ao bairro durante o acompanhamento da equipe.
Em outro ponto, na Avenida Moura Matos, os jornalistas encontraram um segundo caminhão, pertencente a outra empresa do segmento, também saindo da comunidade.
Trabalhadores que estavam no veículo relataram, de maneira breve e demonstrando preocupação, que o caminhão teria sido interceptado por criminosos. Segundo as informações repassadas à reportagem, os funcionários deixaram o local por medo de novas intimidações.
A equipe também encontrou estabelecimentos comerciais com garrafões expostos nas calçadas, mas sem água. Em outros pontos, havia algumas unidades cheias, embora as entregas domiciliares estivessem suspensas.
Na prática, a interrupção das entregas modifica a forma como os consumidores conseguem comprar o produto. Quem depende do serviço em domicílio deixa de contar com essa possibilidade e precisa se deslocar até os estabelecimentos que ainda possuem unidades disponíveis para retirada.
Uma distribuidora localizada nas proximidades da comunidade também foi procurada pela reportagem. O responsável pelo estabelecimento informou, sem conceder entrevista gravada, que a empresa ainda não havia recebido uma determinação para interromper suas atividades.
Entretanto, segundo o relato, uma distribuidora concorrente teve um carregamento de garrafões interceptado por criminosos. O veículo precisou retornar, diante da situação enfrentada pelos trabalhadores.
A reportagem também conversou com comerciantes da região. Alguns confirmaram a existência da ordem atribuída aos criminosos, enquanto outros preferiram não falar sobre o assunto.
O receio de aparecer diante das câmeras foi percebido durante a passagem da equipe. Moradores observavam a movimentação dos jornalistas, mas demonstravam preocupação em serem identificados ao comentar as ameaças.
Quais bairros de Fortaleza foram afetados pela proibição?
Além da comunidade da Rosalina, a determinação alcança áreas do Parque Dois Irmãos, Passaré e parte do Itaperi, conforme o comunicado e as informações apuradas pela reportagem.
A abrangência da ordem amplia o número de comerciantes e consumidores potencialmente afetados pela suspensão das entregas. O problema não fica restrito a uma única distribuidora, já que a mensagem é direcionada às empresas que trabalham no território indicado.
A situação também interfere no funcionamento dos estabelecimentos que comercializam água. Mesmo quando há garrafões disponíveis, a impossibilidade de realizar entregas limita o atendimento aos consumidores que não conseguem buscar o produto pessoalmente.
Outro aspecto da ocorrência é a intimidação de trabalhadores. Os relatos sobre a interceptação de veículos e a saída de funcionários da comunidade mostram que a ameaça não se restringe aos proprietários das empresas, mas também alcança quem realiza o transporte e a entrega das mercadorias.
A reportagem percorreu a região para verificar as denúncias e encontrou caminhões deixando o território, além de estabelecimentos com unidades vazias. Os relatos de comerciantes e trabalhadores também apontaram a suspensão das entregas após a circulação da mensagem.
SSPDS informa que Polícia Civil investiga ameaças a comerciantes
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) informou que a Polícia Civil investiga a circulação de mensagens nas redes sociais sobre supostas ameaças e extorsões direcionadas a comerciantes do bairro Parque Dois Irmãos.
As investigações estão sob responsabilidade da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco). A secretaria destacou a necessidade de registrar boletins de ocorrência para fornecer informações que possam contribuir com o trabalho policial.
A SSPDS também informou que equipes da Polícia Militar reforçam o policiamento na região, com ações preventivas e ostensivas.
Durante a passagem da equipe da TV Cidade, não foram encontradas viaturas da Polícia Militar ou da Polícia Civil nos trechos percorridos. A reportagem registrou a ausência de veículos policiais durante o período de permanência na comunidade.
A observação feita pela equipe, entretanto, corresponde ao intervalo em que os jornalistas estiveram no local. A informação da SSPDS sobre o reforço do policiamento foi apresentada posteriormente, por meio de nota oficial.
A investigação busca apurar as ameaças e possíveis práticas de extorsão contra comerciantes. O registro formal das ocorrências é importante para que as autoridades tenham informações sobre os episódios, os estabelecimentos atingidos e as circunstâncias das intimidações.
Banabuiú enfrentou situação semelhante dias antes
A suspensão da distribuição de água em Fortaleza ocorre depois de um episódio semelhante em Banabuiú, município do Sertão Central cearense.
Na cidade do interior, uma facção criminosa também determinou a interrupção do serviço, provocando dificuldades para moradores que dependiam da distribuição realizada pelas empresas do setor.
A ocorrência levou ao reforço do policiamento e à realização de uma operação policial. Dez pessoas foram presas durante as ações relacionadas às ameaças e extorsões contra comerciantes do município.
O episódio de Banabuiú e a situação registrada na Rosalina têm em comum a imposição de restrições à atividade de distribuidoras de água por meio de ameaças atribuídas a grupos criminosos.
Em Fortaleza, a determinação atingiu diferentes áreas da região e provocou mudanças no funcionamento de empresas e estabelecimentos comerciais. Os relatos de caminhões interceptados e trabalhadores intimidados também demonstram os efeitos da ordem sobre a circulação de mercadorias.
Até o momento, as informações disponíveis não confirmam ligação entre os envolvidos nas ocorrências de Banabuiú e Fortaleza. Também não há confirmação de que os mesmos criminosos estejam por trás dos dois episódios.
Na Capital, a Polícia Civil mantém a investigação sobre as mensagens relacionadas a ameaças e extorsões contra comerciantes do Parque Dois Irmãos, enquanto a SSPDS informa que o policiamento está reforçado na região.




