Fortaleza ocupa um lugar central na trajetória artística e pessoal de Raimundo Fagner e Fausto Nilo. Naturais do interior do Ceará, os dois artistas adotaram a capital ainda jovens e transformaram a cidade em matéria-prima para canções, reflexões urbanas e memórias que atravessam décadas. Em entrevista exclusica à TV Cidade, eles relembraram a chegada à capital, o início da parceria musical e refletiram sobre o desenvolvimento e os desafios sociais de Fortaleza, que celebra 300 anos de fundação.
Raimundo Fagner contou que chegou cedo a Fortaleza e que a cidade marcou de forma definitiva sua formação. O cantor relembrou a infância simples vivida em bairros centrais e situações que ajudam a entender o ambiente da época.
“Eu me criei aqui. Aos sete, oito anos, morei na Antônio Augusto. Meu pai tinha uma vacaria no quintal de casa, tinha duas vacas. A gente morava em frente à casa do cara mais rico da cidade”, relatou.
Fagner explicou que nasceu na região da Floriano Peixoto, mas que ainda criança se mudou para Fortaleza, atraído, entre outros fatores, pela proximidade com o mar. “Eu nasci na Floriano Peixoto, mas vim cedo para cá. Foi por causa da praia, que eu descobri”, afirmou.
Ele também recordou episódios marcantes da infância e adolescência, como conflitos familiares e situações difíceis vividas no bairro, que ajudaram a moldar sua visão de mundo. “Isso aqui é o coração do começo da minha vida. Da Floriano Peixoto para cá veio a boemia, vieram os encontros, tudo isso”, disse.
Fausto Nilo, por sua vez, explicou que a relação com Fortaleza começou ainda na adolescência, motivada pelo desejo de estudar. “Eu vim com 11 anos, porque eu queria estudar. Isso foi em 1955”, contou.
Antes disso, ele relembrou as tentativas da família de se estabelecer na capital. “Meu pai quis mudar de negócio para cá, mas acabou voltando. Ele dizia que não ia morar numa cidade em que todo mundo chamava ele de Seu Zé e a mulher dele de Dona Maria”, relatou.
A trajetória artística de Fagner começou a ganhar forma a partir dos festivais de música, comuns no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. O cantor relembrou como tudo começou ainda no ambiente escolar.
“A primeira música que eu fiz foi com meu parceiro Marcos Francisco. Ele chegou com um recorte de jornal dizendo que ia ter um festival. A gente fez a música e ganhou”, contou.
Segundo Fagner, a partir desse momento, uma sequência de encontros ajudou a impulsionar sua carreira. “O Ednardo morava vizinho, tocava piano. Um dia apareceu com um violão. Aí começou a Era dos Festivais”, afirmou.
Ele citou festivais realizados em Fortaleza e em outras cidades do Nordeste, além das competições transmitidas pela televisão. “Era moda no Brasil. Teve quatro, cinco, seis festivais, e a gente ganhou vários”, disse.
Criação de ‘Mucuripe’ e a relação afetiva com a cidade
Entre as canções que simbolizam a relação dos artistas com Fortaleza, “Mucuripe” ocupa lugar central. Fagner explicou que a música nasceu de forma espontânea e acabou se tornando um marco.
“A gente fez aquilo meio de brincadeira e marcou. É uma coisa muito forte na minha vida”, afirmou.
Ele relembrou ainda que a música quase não teve destaque em um festival específico, mas acabou sendo decisiva para sua trajetória. “Ela não entrou entre as 40, e isso acabou me salvando. Depois eu ganhei em Brasília, e foi essa música que me deu correção de rota”, contou.
Ao refletir sobre o sentido da canção hoje, Fagner avaliou que a mensagem permanece atual. “Acho que hoje ela faz até mais sentido, porque a tendência é descaracterizar as coisas. O Mucuripe continua sendo um lugar muito forte”, disse.
Cidade, urbanismo e poesia
Fausto Nilo destacou que sua relação com Fortaleza se constrói a partir de dois campos distintos, mas complementares: o urbanismo e a música. Segundo ele, é preciso separar os processos criativos.
“No urbanismo, eu trabalho com base natural, com o movimento das pessoas, dos veículos, com as estruturas construídas e com a poética da cidade”, explicou.
Já na canção, o caminho é outro. “A letra de música é a vovozinha da poesia dos livros. Ela nasceu cantando. É uma outra linguagem”, afirmou.
Fausto ressaltou que costuma escrever letras a partir das melodias criadas pelos parceiros. “Eles me dão a melodia e eu faço ela cantar com palavras”, disse.
Os 300 anos de Fortaleza
Ao comentar os 300 anos de Fortaleza, Raimundo Fagner destacou o crescimento da cidade e a projeção nacional conquistada ao longo do tempo. “É um prazer estar vivo, contando essa história e participando desses 300 anos. Fortaleza mudou muito e deixou um legado incrível no Brasil”, afirmou.
Ele disse ainda que o momento vivido pela capital não era algo esperado. “A gente não imaginava ver isso. É um momento que não esperávamos nunca ter visto”, completou.
Fausto Nilo afirmou que adotou Fortaleza como uma de suas cidades do amor. “Eu tenho três cidades na minha vida: Quixeramobim, Fortaleza e o Rio de Janeiro”, contou.
Apesar de reconhecer os avanços, o urbanista fez um alerta sobre a desigualdade social. “A cidade está se modernizando, mas precisamos reduzir a extrema desigualdade que ela sofre. Isso é muito ruim”, avaliou.
Ele concluiu destacando o carinho pela população mais simples da capital. “Eu tenho um amor profundo pelo povão fortalezense. Meu grande amor são os anônimos suburbanos”, finalizou.
Assista à entrevista completa:




