A Universidade Estadual do Ceará (Uece) iniciou um tratamento para síndrome de Rett com uso de um medicamento já disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa, considerada inédita, começa a ser aplicada em crianças e adolescentes no estado após resultados positivos em testes laboratoriais. Ao todo, dez famílias foram selecionadas para participar da primeira fase do estudo.
O tratamento síndrome de Rett utiliza a lamivudina, antiviral tradicionalmente indicado para HIV e hepatite B crônica. Segundo os pesquisadores, a medicação apresentou potencial para impedir o avanço da doença, que afeta o desenvolvimento neurológico, motor e respiratório.
O estudo é conduzido em parceria com instituições internacionais, como a Universidade de San Diego e a agência espacial norte-americana NASA, o que amplia o alcance científico da pesquisa.
Pesquisa aponta potencial de medicamento já existente
A médica geneticista Denise Carvalho explica que os testes iniciais indicam efeito neuroprotetor do medicamento. Segundo ela, a aplicação precoce pode mudar o curso da doença. "Nós conseguimos, em parceria com a Nasa, através de estações espaciais, descobrir que essa medicação, quando usada precocemente e durante o desenvolvimento da síndrome de Hett, causa uma neuroproteção nos neurônios dessas crianças", afirma. Ela acrescenta que o tratamento pode "impedir a evolução natural da doença" e, em alguns casos, até bloquear o avanço, explica Denise Carvalho.
O tratamento será administrado por um período de três a seis meses. Após essa etapa, os resultados serão avaliados para verificar a eficácia da abordagem.
Tratamento síndrome de Rett traz esperança para famílias
Entre os pacientes selecionados está Isadora, de 16 anos, diagnosticada com a síndrome. Para a família, a inclusão no estudo representa uma nova perspectiva. A mãe da adolescente, Carol Crisóstomo, afirma que a expectativa é de melhora na qualidade de vida. "A gente espera alcançar algo muito maior com essa medicação", diz. Ela destaca que o objetivo é garantir melhores condições para os filhos. "Que as nossas crianças possam, de fato, ter mais qualidade de vida", afirma Carol.
O pai da jovem, Francisco Costa, descreve o momento como marcante. "É muita emoção nesse momento, um marco para a ciência, para a medicina", afirma. Segundo ele, a família encara a oportunidade com gratidão.
O vice-reitor da Uece, Dácio Teixeira, destaca que o estudo pode representar um avanço significativo no tratamento da doença. "A gente tem uma esperança que a utilização da Lamivudina seja testada nessas 10 primeiras crianças e que tenhamos resultados positivos", afirma. Ele ressalta que a expectativa é reduzir os sintomas de uma condição até então sem tratamento específico.
A pesquisadora Denise Carvalho também avalia que os resultados podem ir além da síndrome de Rett. "Eu acredito que síndrome de Rett seja apenas o primeiro modelo de alvo dessa medicação", diz. Segundo ela, o impacto pode alcançar outros transtornos do neurodesenvolvimento, com possibilidade de melhorar a qualidade de vida em parte dos casos, conclui Denise Carvalho.
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