As novas barreiras impostas por China e União Europeia à carne bovina brasileira podem provocar reflexos no mercado interno e levar à redução dos preços da proteína nos supermercados ainda este ano. A expectativa do setor é que o aumento da oferta no país pressione os valores para baixo, beneficiando consumidores no Ceará e em outros estados do Brasil.
As restrições internacionais envolvem medidas comerciais e sanitárias que podem diminuir o volume exportado pelo Brasil nos próximos meses. Com isso, parte da produção que seria destinada ao mercado externo deverá permanecer no país.
A primeira limitação deve ser aplicada pela China ainda no primeiro semestre. O país poderá cobrar uma sobretaxa de 55% sobre a carne bovina brasileira quando a cota anual de importação ultrapassar 1 milhão e 100 mil toneladas.
Já a União Europeia retirou o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal ao bloco por razões sanitárias. A medida passa a valer a partir de setembro.
Segundo o especialista em finanças Flávio Távora, a suspensão das exportações para a Europa poderá aumentar significativamente a quantidade de proteína bovina disponível no mercado nacional.
“A partir de 3 de setembro, as exportações para o mercado europeu vão estar vedadas até que esse, vamos dizer, entrave seja solucionado. Em decorrência disso, nós vamos ter o quê? Dois milhões de toneladas de proteína bovina, proteína animal bovina, excedente. Que o produtor, no caso, tem que alocar ou realocar em outro mercado”, afirmou, ao falar com a TV Cidade Fortaleza.
Excesso de oferta pode reduzir preço da carne no Brasil
Especialistas avaliam que o aumento da disponibilidade de carne bovina no país tende a provocar maior concorrência entre as proteínas e pressionar os preços para baixo.
Flávio Távora explicou que o cenário segue a lógica de oferta e demanda.
“Nós temos a questão da oferta e demanda. Nós vamos ter uma oferta maior em relação à demanda e isso tende a fazer uma competição com outras proteínas e por isso o preço tende a reduzir, incentivando o consumo, o que é muito bom para o consumidor”, disse.
A possibilidade de queda nos preços é acompanhada com expectativa por consumidores que já sentem o impacto da alta da carne no orçamento doméstico. A diarista Antônia Zélia afirmou que atualmente precisa pesquisar promoções para conseguir economizar nas compras.
“Eu acho que está mais cara [a carne]. Aí você tem que pesquisar, tem que vir num dia que tem as promoções para você pegar mais barata. Se ficar mais barata, pode ser uma coisa boa. Mas, por enquanto, as coisas estão com tudo”, comentou.
Ceará não deve sofrer impacto direto na produção
Representantes do setor afirmam que as medidas internacionais não devem afetar diretamente a produção pecuária cearense. Isso porque a maior parte do rebanho bovino do estado é voltada para a produção leiteira.
Segundo o setor, cerca de 95% do rebanho do Ceará é destinado à produção de leite, enquanto a carne consumida no estado é trazida principalmente de outras regiões brasileiras.
O presidente do Sindicarnes Ceará, Everton Silva, afirmou que o problema apontado pela União Europeia está relacionado ao uso de antibióticos na criação bovina.
“Nós temos 90 dias para resolver essa situação sanitária, que é apenas uma questão de antibióticos, que é um produto dado para o gado para ter um crescimento mais rápido, e outros países não têm problema, enquanto a comunidade europeia impede esse tipo de antibiótico”, explicou.
Setor acredita em acordo para manter exportações à Europa
Apesar das restrições anunciadas, representantes do setor demonstram confiança em uma solução antes da entrada em vigor das medidas europeias.
Segundo Everton Silva, as negociações conduzidas pelo setor privado devem resolver o impasse sanitário nos próximos meses.
“Já está sendo resolvido, porque o setor privado é competente. Através da sua associação brasileira, que é a Abiec [Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes], deve resolver esse assunto e eu acredito que até o dia 13 de setembro. Nesses 90 dias, deve ter resolvido esse assunto e não vai afetar nada do mercado das exportações para a Europa”, declarou.
As mudanças nas regras internacionais seguem sendo acompanhadas por produtores, distribuidores e consumidores.




