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INVESTIGAÇÃO

Advogado é denunciado por fraude processual após uso de IA em julgamento da Chacina do Curió

Segundo o MPCE, advogado utilizou inteligência artificial para modificar imagem de câmera de segurança apresentada durante julgamento relacionado à Chacina do Curió, em Fortaleza.

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Advogado é denunciado por fraude processual após uso de IA em julgamento da Chacina do Curió
À esquerda, a imagem original; à direita, a imagem alterada por inteligência artificial. (Foto: Reprodução)

O Ministério Público do Ceará (MPCE) denunciou à Justiça um advogado acusado de fraude processual na Chacina do Curió após o uso de inteligência artificial para modificar uma imagem apresentada durante um julgamento do caso. A denúncia envolve Talvane Robson Moura, responsável pela defesa do policial militar Luciano Breno Freitas Martiniano, condenado no último júri relacionado ao massacre ocorrido em Fortaleza.

Segundo a investigação, o advogado anexou ao processo imagens alteradas a partir de um vídeo de câmera de segurança já analisado oficialmente pela Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce). O material foi apresentado dias antes do julgamento realizado em outubro de 2025.

O caso ganhou repercussão por envolver o uso de inteligência artificial em um dos processos criminais mais emblemáticos da história recente do Ceará. Para o Ministério Público, as alterações feitas nas imagens extrapolaram técnicas convencionais de melhoria visual e modificaram elementos relevantes para interpretação da prova pericial.

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MPCE denuncia advogado por uso de IA em prova apresentada ao júri

De acordo com o inquérito policial, Talvane Moura apresentou aos jurados imagens produzidas com auxílio de inteligência artificial sob a justificativa de melhorar a qualidade do vídeo original.

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Durante o julgamento, o advogado afirmou que utilizou a plataforma Gemini para tentar identificar características do veículo registrado nas gravações analisadas pela investigação.

A estratégia buscava contestar uma conclusão da Pefoce feita ainda em 2016. Na época, os peritos identificaram que o automóvel captado pelas câmeras possuía características compatíveis com um Toyota Etios Sedan ou modelo semelhante. O veículo acabou sendo associado ao policial militar defendido pelo advogado.

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No júri, a defesa sustentou que a ferramenta de inteligência artificial teria indicado outro modelo de carro, semelhante a um Chevrolet Cobalt. O Ministério Público, porém, entendeu que a nova versão da imagem alterava a interpretação da prova original e solicitou uma nova análise pericial do material apresentado. A partir disso, foi aberta investigação para apurar possível fraude processual durante o curso do processo penal.

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Perícia aponta adulteração em imagem usada no julgamento

O novo exame técnico realizado pela Pefoce identificou divergências consideradas significativas entre a imagem original e a versão apresentada no tribunal. Segundo o laudo, as mudanças observadas não correspondem a procedimentos tradicionais de tratamento de imagem.

Os peritos encontraram diferenças em itens como:

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• faróis traseiros;

• rodas;

• posição da logomarca;

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• dimensões do veículo.

O documento aponta que houve alteração estrutural da imagem, classificando o material como uma “edição fraudulenta”.

A perícia destacou ainda que técnicas convencionais de melhoria visual servem apenas para ressaltar elementos já existentes no arquivo original, sem alterar a disposição dos pixels. Para os especialistas, a inteligência artificial produziu uma representação diferente daquela captada inicialmente pela câmera de segurança.

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O episódio também amplia o debate sobre o uso de ferramentas de IA em processos judiciais e na produção de provas digitais. O avanço dessas tecnologias tem levado tribunais e órgãos de investigação a discutir limites técnicos e jurídicos para utilização de recursos automatizados em análises periciais.

Entenda a relação do veículo com a Chacina do Curió

As imagens discutidas no processo mostram um veículo que teria sido utilizado por autores da Chacina do Curió. O massacre ocorreu entre a noite de 11 de novembro e a madrugada de 12 de novembro de 2015, na região da Grande Messejana, em Fortaleza.

Onze pessoas foram mortas em ataques realizados por homens encapuzados em diferentes pontos da capital cearense. O caso teve repercussão nacional devido à suspeita de envolvimento de policiais militares nas execuções.

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Ao todo, 30 PMs se tornaram réus ao longo das investigações. As apurações reuniram depoimentos, rastreamento de veículos, imagens de câmeras de segurança e diversos laudos periciais produzidos pela Pefoce. Ainda em 2016, os peritos já haviam informado que os vídeos apresentavam limitações severas de qualidade, incluindo:

• pixelização;

• ruído elevado;

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• baixa iluminação;

• perda de foco.

Na época, o órgão concluiu que essas degradações eram irreversíveis por meio de processamento digital convencional. Mesmo assim, segundo o MPCE, a imagem apresentada pela defesa em 2025 possuía qualidade superior à do vídeo original e apontava características diferentes para o automóvel investigado.

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Chacina do Curió já teve cinco julgamentos no Ceará

Cinco julgamentos relacionados à Chacina do Curió já foram realizados pela Justiça do Ceará. Ao longo das sessões do júri popular, 29 policiais militares foram julgados.

Até agora, oito réus foram condenados e 21 absolvidos. As sessões acumulam mais de 330 horas de julgamento. O primeiro júri começou em junho de 2023 e terminou com condenações que ultrapassaram 200 anos de prisão.

Outros julgamentos tiveram absolvições em massa, enquanto alguns acusados foram responsabilizados por homicídios e crimes de tortura. No julgamento mais recente, realizado em setembro de 2025, Luciano Breno Freitas Martiniano foi condenado a 275 anos e 11 meses de prisão.

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Marcílio Costa de Andrade também recebeu condenação superior a 315 anos de reclusão. Nos dois casos, a Justiça determinou a perda do cargo de policial militar. Outros cinco policiais julgados na mesma sessão foram absolvidos por negativa de autoria. A denúncia contra o advogado ainda será analisada pela Justiça, que decidirá se o caso será transformado em ação penal.

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