Casos recentes registrados no Ceará voltaram a acender o alerta para a violência doméstica e o feminicídio no estado. Em diferentes cidades cearenses, crimes e tentativas de assassinato de mulheres vêm chamando atenção pela violência e pelas circunstâncias semelhantes: os suspeitos eram homens que mantinham ou haviam mantido relação afetiva com as vítimas.
Em Pacatuba, um homem foi preso em flagrante suspeito de feminicídio. Em Fortaleza, a morte de uma universitária gerou repercussão e reacendeu o debate sobre relacionamentos abusivos. Já em Quixeramobim, Ana Clara, de 21 anos, sobreviveu a uma tentativa de feminicídio após ser atacada com golpes de foice, que resultaram na mutilação das mãos.
Outro caso ocorreu no bairro Bonsucesso, em Fortaleza. Francisca Claudene Rodrigues da Silva Assunção, de 51 anos, foi morta a facadas pelo ex-marido enquanto participava de uma oração.
Os episódios registrados no Ceará acompanham uma tendência observada em todo o país. Dados do Ministério da Justiça apontam que o Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios desde 2015, ano em que o crime passou a ser tipificado no Código Penal.
Brasil registra maior número de feminicídios da série histórica
Segundo os dados divulgados, 1.568 mulheres foram assassinadas vítimas de feminicídio em 2025, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Somente no primeiro trimestre deste ano, foram registrados 399 casos no país.
Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que oito em cada dez feminicídios foram cometidos por parceiros ou ex-companheiros das vítimas.
Os dados mostram ainda que a maior parte dos crimes ocorre dentro da própria residência, reforçando o caráter doméstico da violência contra a mulher.
Em 48,7% dos casos, os assassinatos foram praticados com objetos comuns do cotidiano, como facas e machados. Outro dado destacado pelo levantamento é o perfil das vítimas: mais de 60% das mulheres assassinadas eram negras.
Violência doméstica ainda ocorre majoritariamente dentro de casa
Especialistas alertam que muitas situações de violência doméstica não chegam às autoridades. Medo, dependência financeira, vergonha e falta de apoio estão entre os fatores que dificultam as denúncias.
Em outros casos, as vítimas sequer conseguem identificar que estão inseridas em um ciclo contínuo de violência.

A advogada Márcia Vieira, 2ª vice-presidente da Comissão da Mulher da OAB, afirma que a ampliação do debate público tem contribuído para tornar esses casos mais visíveis.
“Nós estamos hoje enfrentando dia a dia essa visão da existência da violência. Muitas vezes isso ficava acortinado nos bastidores. Com esse trabalho que está havendo na sociedade, nessa abertura de combate, de enfrentamento ao feminicídio e à violência doméstica, isso acaba trazendo para a sociedade uma realidade que poderia já estar acontecendo anteriormente”, declarou, ao falar com a equipe de reportagem da TV Cidade Fortaleza.
Lei Maria da Penha prevê diferentes tipos de violência
A legislação brasileira prevê diversas formas de violência contra a mulher por meio da Lei Maria da Penha.
Entre elas estão:
- violência física;
- psicológica;
- moral;
- sexual;
- patrimonial.
A orientação das autoridades e especialistas é que a denúncia seja feita logo nos primeiros sinais de agressão, ameaça ou controle abusivo.
Onde buscar ajuda em casos de violência contra a mulher
O Ligue 180 funciona 24 horas por dia e é considerado a principal porta de entrada para denúncias, acolhimento e orientação às vítimas de violência doméstica.
No Ceará, mulheres também podem buscar ajuda em equipamentos como:
- Casa da Mulher Brasileira;
- delegacias especializadas;
- Ministério Público.
Márcia Vieira reforça que as vítimas não precisam enfrentar a situação sozinhas.
“É importante que você, vítima de violência, você que está dentro desse processo, saiba que você não está sozinha. Além das instituições públicas, existem muitas instituições não governamentais e associações abrindo portas para dar assistência a essa mulher, inclusive além da assistência psicológica, de autoestima, incluindo também formação profissional, em parcerias com instituições, para que a mulher também consiga suprir a sua renda, acreditar em si própria e se formar um ser autônomo”, afirmou.
Os números reforçam o alerta para a necessidade de denúncia e acompanhamento dos casos de violência doméstica. Autoridades destacam que qualquer pessoa também pode denunciar situações suspeitas, o que pode contribuir para evitar novos crimes e salvar vidas.
Denúncias devem ser feitas às forças de segurança
A população pode contribuir com investigações das forças de segurança do estado do Ceará repassando informações que auxiliem os trabalhos policiais. As informações podem ser direcionadas para o número 181, o Disque-Denúncia da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), ou para o (85) 3101-0181, que é o número de WhatsApp, pelo qual podem ser feitas denúncias via mensagem, áudio, vídeo e fotografia ou ainda via "e-denúncias", o site do serviço 181, por meio do endereço eletrônico: https://disquedenuncia181.sspds.ce.gov.br/.



