Muito além de uma área de passagem entre o Centro e outros bairros da capital, o Damas abriga construções históricas, personagens marcantes e tradições que atravessam gerações. A região, que ajudou a acompanhar a expansão urbana de Fortaleza ao longo do século XX, preserva parte importante da memória da cidade e mantém características de convivência cada vez mais raras nos grandes centros urbanos.
Entre os principais símbolos do bairro está a Casa do Português, um casarão construído em 1953 pelo comerciante José Maria Cardoso. O imóvel se destaca não apenas pelo tamanho, com 11 quartos, mas também por uma solução arquitetônica incomum para a época: rampas laterais que permitiam que os veículos chegassem a uma garagem instalada no teto da construção.
Segundo o historiador Marcus Lobo, a residência foi concebida para demonstrar a prosperidade econômica do proprietário e reúne influências de diferentes estilos arquitetônicos.
“Ele queria ostentar, queria mostrar poder”, afirma.
Casa do Português é um dos símbolos históricos do bairro Damas
Ao longo das décadas, a Casa do Português teve diferentes funções. Além de residência, abrigou a Boate Portuguesa e sediou a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce) entre 1965 e 1984. Atualmente, o imóvel é ocupado por 12 famílias.
A construção pertence aos herdeiros da família e é tombada como patrimônio histórico municipal. Marcus Lobo destaca que ainda existe um entendimento equivocado sobre o tombamento de imóveis históricos.
“O tombamento é o contrário do que se pensa. Quando é tombado, não significa que só pode restaurar. A reforma pode ser feita, mas dentro daquilo que a legislação estabelece”, explica.
O historiador observa ainda que os custos de conservação representam um desafio para muitas famílias proprietárias de imóveis históricos.
Como surgiu o bairro Damas em Fortaleza
A história do Damas está diretamente ligada ao crescimento urbano de Fortaleza. A principal via da região, hoje Avenida João Pessoa, funcionava originalmente como uma estrada de areia que ligava o então distrito de Porangaba ao Centro da capital.
Em 1929, a via recebeu pavimentação em concreto durante o governo de Washington Luís. Após a Revolução de 1930, passou a receber o nome de João Pessoa, figura associada ao movimento político que marcou aquele período da história brasileira.
Até hoje, a avenida permanece como um importante corredor de mobilidade urbana, conectando diversos bairros ao Centro e sendo atendida pelo Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).
Uma das versões mais difundidas para a origem do nome Damas faz referência às mulheres da aristocracia fortalezense que frequentavam as chácaras e residências construídas na região durante a primeira metade do século passado.
Tradição, confiança e convivência marcam a identidade do Damas
Mesmo com as transformações urbanas das últimas décadas, moradores afirmam que o bairro preserva um forte senso de comunidade.
O comerciante José Francimar destaca que a convivência entre os moradores continua sendo uma das marcas da região.
“As amizades são boas, as pessoas são gente boa. A gente está andando aqui essa hora descontraído”, afirma.
Segundo ele, relações de confiança ainda fazem parte do cotidiano dos negócios locais.
“A modernidade chegou, só que nós vendemos na caderneta. A pessoa compra para pagar amanhã, na palavra”, relata.
A religiosidade também faz parte da identidade do bairro. As igrejas Nossa Senhora Auxiliadora e Santa Luísa estão entre os principais pontos de referência da comunidade. Já as áreas de lazer incluem praças e o Polo de Lazer Gustavo Braga.
Bairro Damas preserva parte da memória urbana de Fortaleza
Além do patrimônio arquitetônico, o bairro teve importância na formação da elite econômica da capital. De acordo com Marcus Lobo, a primeira sede do Ideal Clube funcionou na região após a criação da entidade em 1931.
Segundo o historiador, o clube reunia alguns dos empresários mais influentes do Ceará naquele período.
“Era um clube fechado, formado pelas famílias que dominavam economicamente Fortaleza e o Ceará”, afirma.
Atualmente, o bairro abriga instituições tradicionais da cidade, como a sede do Ceará Sporting Club, o Instituto Municipal de Desenvolvimento de Recursos Humanos (Imparh) e um dos mais conhecidos colégios religiosos da capital.
Entre casarões centenários, vias históricas e uma comunidade que preserva laços de proximidade, o Damas continua desempenhando um papel importante na memória de Fortaleza. Suas ruas ajudam a contar a história da cidade e revelam como passado e presente convivem em uma das regiões mais tradicionais da capital cearense.




