Noventa e quatro anos após conquistarem o direito de votar e disputar eleições no Brasil, as mulheres continuam sub-representadas nos espaços de poder. Embora representem a maioria do eleitorado brasileiro, elas ocupam menos de 20% dos cargos eletivos, demonstrando que a participação nas urnas ainda não se reflete na mesma proporção na representação política.
O direito ao voto feminino foi conquistado em fevereiro de 1932, após mobilização de movimentos feministas, tornando-se um dos principais marcos da história dos direitos das mulheres no país. Desde então, outras garantias legais foram incorporadas ao longo das décadas, mas especialistas e entrevistadas apontam que desafios como a desigualdade de gênero e a baixa presença feminina na política permanecem.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que, nas eleições de 2022, as mulheres representaram mais de 52% do eleitorado brasileiro. Apesar desse protagonismo nas urnas, a ocupação de cargos eletivos segue abaixo de um quinto do total.
Para a universitária Sara Ellen de Lima, a participação política feminina é essencial para garantir representatividade. "Eu acho que nós somos seres humanos como os homens também, e é super importante a nossa voz. A nossa voz é super relevante", opina, ao falar com a equipe de reportagem da TV Cidade Fortaleza.
A representante comercial Eliana de Carvalho Dias afirma que a presença de mulheres nos espaços de decisão amplia a defesa de pautas relacionadas ao público feminino. "Geralmente a gente vai lutar pelo que a gente precisa. Nem sempre os homens, como a maioria é machista, vão fazer projetos, coisas que possam nos beneficiar."
Direito ao voto abriu caminho para novas conquistas
A conquista do voto feminino marcou o início de uma série de avanços relacionados aos direitos das mulheres. Entre eles estão o direito de trabalhar sem autorização do marido, conquistado em 1962; o acesso ao cartão de crédito, em 1974; e a regulamentação do divórcio, em 1977.
Mais recentemente, entraram em vigor legislações voltadas ao combate à violência contra a mulher, como a Lei Maria da Penha, em 2015, e a Lei do Feminicídio, em 2018. Apesar dessas mudanças, temas como feminicídio, desigualdade salarial e equidade de gênero seguem presentes no debate público.
A universitária Melissa Colares considera que o direito ao voto foi um passo importante, mas destaca que outras conquistas ainda são necessárias. "O voto é de extrema importância, sim, mas a gente precisa ainda conquistar muita coisa. Por exemplo, há muitos casos de feminicídio, há muitos casos em que a mulher ganha menos do que o homem. Então, assim, o voto veio pra quê? Para que a mulher tenha voz, para que ela possa escolher. E é isso que o feminismo prega, para que a gente tenha igualdade de gênero e a gente possa escolher onde a gente vai estar", pontua ela.
Mulheres são maioria entre os eleitores, mas minoria na política
Embora o eleitorado feminino seja predominante, a presença de mulheres nos cargos eletivos permanece reduzida.
Para a professora de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC), Danyelle Nilin, a política de cotas foi criada para estimular a participação feminina nas eleições, mas não garante, por si só, maior representatividade. "Naquela ocasião se imaginava que uma lei de ação afirmativa, uma política afirmativa estimularia as mulheres a entrar. Só que, na verdade, é uma lei para estimular as mulheres a concorrer."
Lei de cotas ampliou candidaturas femininas
Criada há cerca de 30 anos, a lei de cotas de gênero determina que os partidos políticos reservem, no mínimo, 30% das candidaturas para mulheres.
Segundo especialistas, no entanto, a legislação representa apenas uma etapa para ampliar a participação feminina na política.
Danyelle Nilin destaca que fatores como espaço dentro dos partidos e construção de capital político também influenciam o desempenho eleitoral das candidatas. "A gente pode pensar sobre várias questões: como se constrói uma candidatura exitosa, se as mulheres têm realmente esse espaço nos partidos políticos, se elas conseguem construir um capital político que efetivamente leve a uma eleição de fato..."
Na avaliação da professora Valda Peixoto, a busca por maior participação das mulheres na política depende do enfrentamento de barreiras estruturais e da atuação conjunta da sociedade. "Acho que são forças que se complementam e a gente pode trabalhar junto."




