O Residencial José Euclides, no Jangurussu, em Fortaleza, completou um ano e um mês sem registro de homicídios, um período considerado marcante para uma comunidade que conviveu durante anos com episódios de violência. No conjunto habitacional, onde vivem cerca de 15 mil pessoas, moradores relatam uma mudança na rotina e maior liberdade para circular pelas ruas.
A transformação pode ser percebida em espaços que antes eram associados ao medo e que agora voltaram a ser utilizados pela população. Conversas entre vizinhos, crianças circulando e moradores ocupando áreas de convivência passaram a fazer parte da paisagem do residencial.
Para quem vive no local há anos, a mudança representa mais do que uma estatística.
Uma moradora que vive no residencial há nove anos conta que atualmente consegue circular com menos preocupação. Ela lembra que, anteriormente, havia lugares que os moradores evitavam por causa do risco de violência.
“Para mim é uma alegria muito grande, porque só a gente saber que estamos na paz, tranquilidade, podemos andar para onde quiser andar, não tem essa preocupação mais”, relata.
Ela também destaca a relação construída com os moradores da comunidade. Conhecida por muitos como “tia” e “vó”, diz se sentir respeitada no lugar onde vive.
Comunidade celebra período sem homicídios
A marca foi comemorada pelos moradores do Residencial José Euclides. Antes de alcançar um ano sem homicídios, a comunidade havia registrado outro período considerado significativo: 140 dias sem assassinatos.
A marca anterior havia sido tratada como um recorde local. Agora, o período de um ano e um mês representa uma mudança ainda mais expressiva para a comunidade.
O coordenador do Zona Viva, Airton Gleisson, destaca que o resultado é consequência de uma combinação de esforços entre poder público e moradores.
“Nosso recorde tinha sido 140 dias sem homicídio, que foi uma marca muito grande, muito festejada. E agora a gente comemora um ano e um mês sem homicídio no Residencial José Euclides, fruto de muita luta do poder público, da própria comunidade”, afirma.
O coordenador também relembra que um dos episódios mais traumáticos para os moradores ocorreu quando uma criança de três anos foi atingida por um disparo durante uma tentativa de chacina.
A criança sobreviveu e, segundo o relato apresentado, não ficou com sequelas. O episódio, porém, permaneceu na memória da comunidade como um dos momentos mais graves vividos no residencial.
A marca atual, portanto, é comemorada não apenas pela ausência de novos homicídios, mas pela possibilidade de reconstrução da convivência no território.
Bosque que era associado a crimes virou espaço de convivência
Um dos exemplos dessa mudança está em uma área verde localizada em frente ao conjunto.
O bosque, que anteriormente era associado a ocorrências de violência, passou a ser utilizado pelos moradores como espaço de passagem, passeio e convivência.
Sérgio Farias, coordenador do Território Vivo, explica que a transformação de um espaço físico também interfere na percepção de segurança da população.
“Isso aqui já significou muita violência. Hoje você vê as crianças passando da creche, você vê as crianças indo para o Zona, você vê a criança de uma comunidade para outra”, afirma.
Segundo ele, o cenário atual seria difícil de imaginar durante o período em que o território enfrentava uma situação de maior conflito.
“Você imagina isso aqui numa época de conflagração”, comenta.
A mudança também está relacionada a medidas que, embora pareçam simples, podem alterar a utilização de um espaço público. Iluminação, limpeza e ocupação são apontadas como elementos que ajudam a tornar o ambiente mais utilizado pelos moradores.
Farias resume essa perspectiva ao afirmar que segurança também pode estar relacionada a intervenções urbanas.
“Para a gente, a segurança pode ser uma lâmpada, uma limpeza do bosque”, explica.
Zona Viva reúne serviços e ações de prevenção
A redução da violência no residencial ocorre em paralelo à implantação da política pública Zona Viva, instalada no território há três anos.
A proposta reúne Estado e comunidade em uma estrutura que concentra diferentes serviços e atividades. O equipamento oferece ações de qualificação profissional, esportes, cinema, atividades recreativas e serviços públicos.
Entre os atendimentos estão serviços de saúde, Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), Defensoria Pública, Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) e Balcão do Cidadão.
A estrutura registra cerca de 65 mil atendimentos por ano, de acordo com as informações apresentadas no projeto.
Atualmente, existem sete unidades do Zona Viva no Ceará, sendo seis em Fortaleza e uma em Juazeiro do Norte.
A lógica da política pública é trabalhar a prevenção da violência por meio da oferta de oportunidades e serviços, em paralelo às ações tradicionais de segurança.
Para Airton Gleisson, o impacto também aparece na relação cotidiana dos moradores com o equipamento.
“É muito gratificante ver as pessoas que não precisam estar pegando seu almoço, vêm no horário, perguntam se está aberto, se vai funcionar. Então é gratificante”, afirma.
A avaliação é de que a presença contínua dos serviços contribui para aproximar os equipamentos públicos da comunidade.
Queda dos homicídios também aparece nos números do Ceará
O período sem homicídios no Residencial José Euclides coincide com uma redução mais ampla dos crimes violentos letais e intencionais no Ceará.
Dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social apontam que o estado registrou 125 homicídios em julho, contra 260 no mesmo mês de 2025. Foram 135 ocorrências a menos, o equivalente a uma redução de 51,9%.
Na comparação entre julho de 2025 e julho deste ano, Fortaleza passou de 53 para 20 homicídios.
Na Região Metropolitana de Fortaleza, o número caiu de 64 para 20. Já no interior do Ceará, foram registrados 85 homicídios, contra 143 no mesmo período anterior.
Segundo os dados apresentados, o resultado de julho foi o melhor para o mês dentro da série histórica considerada.
A queda também aparece no acumulado do ano.
Entre janeiro e julho, o Ceará contabilizou 971 homicídios, contra 1.689 no mesmo período de 2025. A redução foi de 42,6%.
Na divisão por regiões, Fortaleza apresentou redução de 62,2%, enquanto a Região Metropolitana teve queda de 66,6%. No interior, a redução foi de 16,8%.
Segurança combina presença policial e prevenção
A pesquisadora Messiane Vieira, do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV-UFC), destaca a importância de observar a segurança pública a partir de diferentes dimensões.
A redução dos homicídios não depende apenas da presença ostensiva das forças de segurança, segundo a perspectiva apresentada. Medidas relacionadas à infraestrutura, bem-estar social e acesso a serviços também fazem parte do contexto de prevenção.
Nesse sentido, iluminação, ocupação dos espaços públicos, atividades esportivas, educação, assistência social e qualificação profissional podem contribuir para alterar a dinâmica de determinados territórios.
A pesquisadora aponta que essas iniciativas devem caminhar paralelamente às ações de policiamento.
A própria experiência do Residencial José Euclides é apresentada como exemplo dessa combinação. O território recebeu uma estrutura de serviços há três anos e, desde então, não houve registro de ocorrência de violência no entorno do equipamento, segundo as informações apresentadas.
Moradores voltam a ocupar espaços do residencial
A mudança no Residencial José Euclides também aparece na rotina dos moradores.
Áreas que antes eram evitadas passaram a ser ocupadas por crianças, famílias e pessoas que circulam pelo bairro.
A sensação de tranquilidade relatada pelos moradores não elimina os desafios sociais existentes no território, mas representa uma mudança importante para quem viveu períodos de maior insegurança.
A moradora que está há nove anos no residencial afirma que a convivência com a comunidade também mudou sua relação com o local.
Ela conta que é reconhecida pelos moradores e que se sente respeitada, reforçando a ideia de que a segurança também passa pela construção de vínculos dentro da própria comunidade.
A presença de crianças nos espaços públicos é outro sinal dessa transformação.
No bosque em frente ao residencial, por exemplo, o fluxo de estudantes e moradores passou a fazer parte da rotina.
Para os responsáveis pelas ações no território, essa ocupação é um dos efeitos mais importantes da recuperação dos espaços.
A avaliação é de que uma área pública utilizada pela população tende a ser menos associada ao abandono e mais integrada à vida comunitária.
Um ano sem homicídios representa mudança na rotina
A marca alcançada pelo Residencial José Euclides não encerra os desafios relacionados à segurança no Jangurussu, mas estabelece uma mudança importante em relação ao passado recente.
O conjunto habitacional reúne cerca de 15 mil moradores e tem uma população equivalente à de muitos municípios cearenses. Por isso, a redução da violência no território tem impacto direto sobre uma parcela significativa da população.
O período de um ano e um mês sem homicídios também é acompanhado por uma mudança na forma como os moradores utilizam as ruas e os espaços de convivência.
A experiência mostra que o combate à violência não se resume à repressão depois que o crime acontece. A presença de serviços públicos, a ocupação dos espaços, a iluminação e a criação de oportunidades são apresentadas como componentes de uma estratégia preventiva.
Ao mesmo tempo, os números estaduais indicam que a redução dos homicídios observada no residencial ocorre em um cenário mais amplo de queda dos crimes violentos no Ceará.
No José Euclides, entretanto, o dado estatístico ganha um significado particular para quem vive diariamente no território.
Depois de anos em que a violência fazia parte da rotina, moradores agora comemoram poder conversar nas ruas, circular pelo bairro e ver crianças ocupando espaços que antes eram associados ao medo.
A transformação ainda é acompanhada pelas autoridades e pela própria comunidade. Mas, para quem vive no residencial, um ano e um mês sem homicídios já representa uma mudança concreta na vida cotidiana.




