A presença de animais marinhos encalhados voltou a chamar a atenção no litoral do Ceará nas últimas semanas. Dois casos recentes foram registrados na Região Metropolitana de Fortaleza: um boto-cinza foi encontrado morto na Praia da Leste-Oeste, na capital, e uma baleia de aproximadamente seis metros foi localizada sem vida em Paracuru.
Os episódios também levantam outra questão: o que fazer ao encontrar um animal marinho encalhado?
A principal orientação é manter distância e acionar equipes especializadas, já que, além da necessidade de avaliar as condições do animal, existe risco de infecção quando há uma carcaça.
O litoral cearense tem mais de 500 quilômetros de extensão e recebe diferentes espécies marinhas. Algumas delas têm hábitos costeiros e podem se aproximar das praias, aumentando a possibilidade de serem observadas em áreas de presença humana.
Animais marinhos encalhados exigem cuidados específicos
Os encalhes podem ter diferentes causas. A bióloga Letícia Gonçalves explica à TV Cidade Fortaleza que a investigação de cada ocorrência é necessária para tentar identificar o que levou o animal à praia:
“O caso dos encalhes é muito diverso. Pode ser morte natural, os animais ficaram doentes por algo que está acontecendo e vêm a óbito. Pode ser por interação antrópica, os animais podem se prender numa rede de pesca e se afogar. Os animais podem ser atropelados. Em casos de esportes náuticos também... Os animais podem ser contaminados por esgotos inapropriados, por um fluxo de agrotóxico que está indo para o oceano. Então são diferentes causas.”
A presença humana no litoral também é apontada como um fator relacionado à ocorrência desses animais próximos às praias. Por isso, medidas de organização e proteção das áreas costeiras podem contribuir para reduzir riscos de interação.
Letícia Gonçalves destaca a necessidade de planejamento dessas áreas:
“O que a gente precisa é fazer um ordenamento costeiro onde a gente possa ter zonas de exclusão, onde a gente possa ter uma proteção maior de áreas onde os animais se concentram. A gente teve um encalhe de boto cinza recentemente, o animal já estava morto e já estava bem decomposto, a gente não conseguiu investigar a causa da morte. Mas Fortaleza é uma área super importante para essa espécie.”
Boto-cinza é encontrado morto em praia de Fortaleza
Na manhã de quarta-feira (26), um boto-cinza (Sotalia guianensis) foi encontrado morto na Praia da Leste-Oeste, em Fortaleza. O animal adulto tinha 1,79 metro de comprimento e estava nas proximidades de barracas e de um estabelecimento de açaí.
A ocorrência foi atendida pela equipe de Resgate 24h da ONG Aquasis, que realizou os procedimentos técnicos no local. Durante a avaliação, foram observadas algumas cicatrizes no corpo do boto, mas não foram encontradas características que permitissem determinar de forma conclusiva a causa da morte.
O caso chamou a atenção de pessoas que estavam na praia. Relatos repassados à equipe indicaram que o animal teria sido visto ainda no mar na terça-feira (25), próximo ao ponto onde acabou encontrado.
Como a causa da morte não pôde ser determinada durante a avaliação, o episódio também demonstra a importância do trabalho técnico realizado após o encalhe.
Baleia de seis metros é encontrada morta em Paracuru
Outro caso recente ocorreu na Praia de Piriquara, em Paracuru. Uma baleia de aproximadamente seis metros de comprimento foi encontrada morta no local.
A ocorrência foi comunicada à equipe da Aquasis na quinta-feira (20). Os profissionais chegaram à praia no dia seguinte, sexta-feira (21), para iniciar a avaliação e a coleta de material.
A carcaça estava em estágio avançado de decomposição, o que dificultou a identificação precisa da espécie. Até o momento, os pesquisadores identificaram que o animal pertence ao grupo das baleias-minke.
A espécie exata ainda será definida a partir dos estudos realizados com o material coletado. Foram recolhidas amostras de tecidos e partes ósseas.
Os ossos deverão ser utilizados posteriormente na montagem de um esqueleto com finalidade científica. O trabalho terá o suporte de uma empresa especializada na montagem e desmontagem de esqueletos de baleias e golfinhos.
O que fazer ao encontrar um animal marinho encalhado?
Diante de um animal marinho encontrado na praia, a orientação é evitar a aproximação e procurar ajuda especializada. A recomendação também vale para animais mortos, já que a manipulação da carcaça pode representar riscos.
Os moradores podem entrar em contato com a ONG responsável pelo resgate. Em caso de dúvidas, também é possível acionar o Corpo de Bombeiros.
As equipes realizam atendimentos tanto para animais vivos quanto para aqueles encontrados mortos. Nos casos de animais vivos, são feitos procedimentos de avaliação e, quando necessário, reabilitação, com posterior análise sobre a possibilidade de devolução ao ambiente natural.
Letícia Gonçalves explica como funciona o atendimento.
“Nosso número é disponível 24 horas, todos os dias do ano, independente de feriado. Qualquer dia a gente está com o celular disponível para atender aos resgates. A gente sempre tem uma equipe de plantão para fazer esse atendimento. Nos casos de animais vivos, a gente faz deslocamento imediato, e no caso de animais mortos às vezes a gente leva um pouco mais de tempo, e a nossa ação vai depender do que a carcaça (no caso dos animais mortos) pode nos oferecer.”
Além do resgate, os profissionais podem realizar procedimentos de perícia para tentar identificar a causa da morte. Quando o animal está vivo, o trabalho inclui avaliação e reabilitação.
Os encalhes podem ocorrer por causas naturais, mas também podem estar relacionados a atividades humanas. Por isso, cada ocorrência precisa ser avaliada individualmente antes que seja determinada a causa.
A recomendação para a população, diante de uma situação desse tipo, é não tocar no animal, manter distância e buscar orientação das equipes responsáveis pelo atendimento.




