Karina Ferreira da Gama passou de uma atuação ligada ao terceiro setor e a eventos de literatura cristã para assumir a produção de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Nesta quinta-feira (10), ela se tornou um dos principais alvos de uma operação da Polícia Federal que investiga o financiamento da produção e possíveis conexões entre recursos públicos, entidades e empresas relacionadas ao projeto.
A Polícia Federal cumpre 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal. Também é alvo da operação o deputado federal Mário Frias (PL-SP), que tem relação profissional e política com Karina e participou da produção do longa. Não há mandados de prisão. As informações foram adiantadas pelo ICL Notícias.
A investigação está sob relatoria do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). O caso chegou à Corte depois que um inquérito que tramitava em São Paulo foi encaminhado ao Supremo em razão do envolvimento de um deputado federal.
Trajetória começou no terceiro setor
Karina é da Brasilândia, bairro da Zona Norte de São Paulo, e sua trajetória profissional esteve inicialmente ligada ao terceiro setor, à literatura cristã, ao audiovisual e à realização de eventos para igrejas da região.
Ela é evangélica e, antes de assumir a produção de “Dark Horse”, não havia produzido um filme. A atuação cinematográfica passou a fazer parte de sua trajetória depois da aproximação com Mário Frias.
Karina conheceu Frias em 2020, quando o deputado ocupava o cargo de secretário de Cultura durante o governo Bolsonaro. Em 2022, ela trabalhou na campanha eleitoral do parlamentar como responsável por serviços de assessoria de imprensa, em um contrato de R$ 54 mil.
A relação entre os dois também se tornou pública durante a diplomação de Frias, quando Karina apareceu ao lado do deputado e da família dele em registros fotográficos.
Posteriormente, Frias indicou a Go Up Entertainment, ligada a Karina, como produtora de “Dark Horse”.
Instituto Conhecer Brasil recebeu milhões em contratos
A principal entidade ligada à trajetória empresarial de Karina é o Instituto Conhecer Brasil (ICB). Criado em 1990, o instituto começou a assinar contratos com a Prefeitura de São Paulo em 2018.
Um dos primeiros projetos de maior dimensão foi o “Encontro Literário IDE”, voltado a escritores de literatura gospel. O evento ocorreu entre 27 e 30 de setembro de 2018 e teve um contrato de R$ 2,5 milhões com a Secretaria Municipal da Cultura.
A iniciativa contou com recursos de emendas de vereadores. Souza Santos destinou R$ 1,33 milhão; Milton Leite, R$ 500 mil; Noemi Nonato, R$ 270 mil; e Atílio Francisco, R$ 400 mil.
Nos anos seguintes, os pagamentos recebidos pelo instituto foram mais esparsos. Em 2023, o valor mencionado nos dados do Portal da Transparência da Prefeitura de São Paulo foi de R$ 500 mil.
O cenário mudou em 2024, quando o ICB passou a administrar um contrato de grande valor relacionado à instalação de pontos de internet gratuita na capital paulista.
Contrato de R$ 108 milhões para instalar Wi-Fi
Em junho de 2024, o Instituto Conhecer Brasil foi a única entidade a participar de um chamamento público da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia para a instalação de 5 mil pontos de Wi-Fi em áreas periféricas de São Paulo.
A Prefeitura de São Paulo, durante a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), firmou contrato inicialmente avaliado em R$ 108 milhões. Naquele momento, o instituto não tinha experiência anterior na instalação desse tipo de equipamento nem contratos semelhantes com a administração municipal voltados a projetos de internet nas periferias.
Depois de obter o contrato, o instituto terceirizou a instalação dos equipamentos e contratou pequenas empresas que já forneciam sinal de internet em favelas e regiões periféricas.
No primeiro ano do contrato, em 2024, o Instituto Conhecer Brasil recebeu pelo menos R$ 40 milhões da Prefeitura de São Paulo.
O acordo estabelecia prazo máximo de 12 meses para a instalação dos 5 mil pontos. A meta não foi cumprida nesse período e o contrato passou por três aditivos que ampliaram o prazo de execução até 2029.
O valor também foi alterado. Segundo a investigação da Polícia Civil de São Paulo citada nos textos, o contrato passou de R$ 108 milhões para R$ 157 milhões.
Contratação virou alvo de investigação em São Paulo
A atuação de Karina e do Instituto Conhecer Brasil já estava sendo investigada antes da operação da Polícia Federal desta quinta-feira.
Em junho deste ano, a Polícia Civil de São Paulo realizou buscas em endereços ligados à produtora, incluindo a residência de Karina e locais relacionados ao Instituto Conhecer Brasil e à Go Up Entertainment.
A investigação paulista apura suspeitas de irregularidades na contratação do instituto pela Prefeitura de São Paulo. A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia também aparece entre os locais relacionados às buscas realizadas na investigação.
Na época, Mário Frias saiu em defesa de Karina e afirmou que ela “não ficará sozinha”. O deputado também disse que a produtora era “humilde, honesta e trabalhadora”.
Em agosto, Flávio Dino autorizou a Polícia Federal a acessar materiais apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo nessa investigação. O compartilhamento permitiu que documentos, equipamentos e outras informações fossem cruzados com a investigação que passou a tramitar no STF.
Relação com Mário Frias também envolve emendas
A ligação entre Karina e Mário Frias não se restringe ao filme. O deputado destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil.
Uma das destinações previa capacitação de adultos e adolescentes em “letramento digital”, com foco no ensino digital para alunos do 4º e 5º anos de escolas públicas municipais.
A outra emenda foi destinada à implementação do projeto de artes marciais “Lutando pela Vida”, em São Paulo.
A PF investiga justamente as conexões entre recursos públicos destinados às entidades relacionadas a Karina e o financiamento de “Dark Horse”. Uma das questões centrais é verificar se houve alguma relação, direta ou indireta, entre esses recursos e a produção cinematográfica.
Além do ICB, a Academia Nacional de Cultura (ANC), também ligada a Karina, está entre as entidades alvo das buscas da Polícia Federal.
Karina abriu novas empresas
A expansão das atividades de Karina também ocorreu no setor empresarial. Em fevereiro deste ano, ela abriu a Gama Participações LTDA, em Aracaju (SE). A empresa tem capital social de R$ 100 mil e Karina aparece como única sócia.
Ela também se tornou sócia da Upcon Serviços Especializados LTDA, uma construtora com sede em Salvador (BA).
A diversificação dos negócios ocorreu paralelamente à atuação no terceiro setor e à aproximação com Mário Frias.
O que a PF investiga sobre o filme
A operação desta quinta-feira busca esclarecer o caminho dos recursos relacionados a “Dark Horse” e as relações entre pessoas, empresas e entidades envolvidas no projeto.
A investigação aponta a possibilidade de participação de agentes públicos e privados em uma estrutura destinada a direcionar recursos para uma organização da sociedade civil e, posteriormente, para empresas contratadas de forma considerada irregular pelos investigadores.
Também é analisada a existência de serviços pagos que não teriam comprovação de execução.
A Polícia Federal identificou movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas associadas ao suposto esquema. A investigação considera ainda a possibilidade de que mecanismos utilizados para ocultar recursos tenham continuado até julho deste ano.
Entre os crimes investigados estão peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades em licitações.
Investigação também alcança operações no exterior
O financiamento de “Dark Horse” também aparece em uma frente relacionada ao empresário Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e ex-proprietário do Banco Master.
A investigação ganhou novo impulso após o ministro André Mendonça homologar, na quarta-feira (9), o acordo de colaboração premiada de Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”.
O colaborador afirmou ter atuado a mando de Vorcaro em operações financeiras internacionais. Os elementos apresentados na investigação apontam que recursos relacionados ao filme teriam sido destinados ao Havengate Development Fund, fundo de investimentos sediado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Segundo o depoimento citado nos textos, sete operações realizadas entre janeiro e setembro de 2025 totalizaram US$ 12,333 milhões, o equivalente a cerca de R$ 62,8 milhões na cotação da época.
Também foram apresentados comprovantes bancários e trocas de e-mails à Polícia Federal e ao Ministério Público.
A investigação ainda analisa operações realizadas por meio da Entre Investments and Arbitrage Ltd., empresa sediada em Nassau, nas Bahamas.
Os investigadores trabalham com a hipótese de que recursos movimentados por estruturas financeiras no exterior possam ter sido destinados ao fundo Havengate ou a pessoas físicas ligadas ao núcleo político da família Bolsonaro.
Um dos pontos que a PF pretende esclarecer é se todo o dinheiro relacionado ao projeto foi efetivamente utilizado na produção do filme ou se parte dos recursos teria sido usada para despesas pessoais e para a manutenção de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Karina é um dos 22 personagens investigados
Com a operação desta quinta-feira, Karina Gama passou a estar no centro de uma investigação que reúne diferentes frentes: contratos públicos, emendas parlamentares, entidades do terceiro setor, empresas privadas e transferências internacionais.
Além dela e de Mário Frias, outras 20 pessoas são alvo das buscas realizadas pela Polícia Federal.
O objetivo da operação é reunir documentos e outros elementos que permitam reconstruir o caminho do dinheiro e esclarecer as relações entre as entidades vinculadas a Karina, os recursos públicos recebidos e o financiamento de “Dark Horse”.




