Os primeiros dias da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão no Ceará foram marcados mais pelo confronto entre Ciro Gomes e Elmano de Freitas do que pela apresentação detalhada de propostas, segundo a avaliação de duas cientistas políticas ouvidas pela reportagem. Enquanto o governador, candidato à reeleição, utiliza o espaço para apresentar realizações da atual gestão e defender a continuidade do projeto político, o ex-governador concentra parte significativa do discurso nas críticas ao governo e na defesa de uma mudança de rumo no Estado.
O horário eleitoral gratuito começou em 28 de agosto e segue até 1º de outubro, três dias antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. O espaço regulamentado pela Justiça Eleitoral permite que os candidatos apresentem suas trajetórias, propostas e avaliações sobre os principais problemas do Ceará.
Na análise da cientista política e professora universitária Carla Michele Quaresma, entretanto, as duas campanhas adotaram desde o início uma estratégia de confronto direto, com o objetivo de influenciar a percepção do eleitor sobre o adversário.
“Desde o momento de inauguração do horário gratuito de propaganda, de rádio e de televisão, os candidatos já adotaram essa estratégia de confronto direto”, afirma Carla.
Segundo a especialista, o cenário cearense contribui para esse comportamento porque a disputa envolve dois políticos com trajetórias conhecidas. Elmano busca a reeleição ao Governo do Estado, enquanto Ciro já foi governador e ministro.
“Principalmente aqui no Ceará, porque nós temos uma eleição extremamente competitiva, estamos tratando de dois candidatos que têm um potencial muito grande”, explica a cientista política.
Elmano aposta na defesa da gestão e na continuidade
No primeiro programa eleitoral, Elmano de Freitas dedicou 4 minutos e 38 segundos à apresentação de sua trajetória pessoal e política. A campanha destacou a origem familiar do candidato, filho e neto de agricultores, e utilizou esse aspecto para construir uma imagem ligada à história e à identidade do Ceará.
Na sequência, o programa apresentou ações atribuídas ao atual governo e defendeu a continuidade de políticas desenvolvidas em administrações anteriores. A parceria com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também foi utilizada como parte da estratégia eleitoral.
Em um dos trechos do programa, Elmano apresenta a atual administração como resultado de uma sequência de governos. “Se combinar o que o Cid fez, o que você fez, o que o Camilo fez, pode pegar a história do Ceará de 300 anos”, afirma.
A estratégia, segundo Carla, está relacionada à posição de Elmano na disputa. Como candidato à reeleição, ele procura apresentar resultados do primeiro mandato e mostrar quais ações pretende aprofundar caso permaneça no cargo.
“No caso do governador Elmano, além disso, houve a apresentação daquilo que foi realizado durante esse primeiro mandato e quais serão os programas, os projetos que serão aprofundados num possível segundo mandato”, afirma Carla.
A defesa da continuidade também inclui a aproximação política com Lula, candidato à reeleição à Presidência da República, apresentada como um elemento da campanha do governador.
Ciro concentra discurso nas críticas ao governo
Ciro Gomes iniciou sua propaganda eleitoral com uma mensagem de mudança. O programa de 4 minutos e 22 segundos utilizou problemas do Estado, especialmente na área de segurança pública, para construir críticas à administração de Elmano.
“Nosso Ceará tem tudo para ser um dos estados mais desenvolvidos do Brasil. Já esteve, por sinal, nesse caminho, mas perdeu o rumo”, declara Ciro.
A campanha também apresentou o caso de uma família que teria sido expulsa de sua área de moradia por uma facção criminosa. O relato foi utilizado para abordar a violência e questionar a atuação do poder público diante do avanço das organizações criminosas.
Para Carla, a postura de Ciro está relacionada à condição de candidato de oposição. A especialista considera natural que o discurso oposicionista enfatize problemas e faça críticas à administração que está no poder.
Ao mesmo tempo, ela identifica uma estratégia diferente na campanha de Elmano, que procura defender o projeto de governo em andamento e destacar a parceria com Lula.
Propostas ficam em segundo plano
A cientista política Mariana Dionísio avalia que as duas campanhas, embora apresentem propostas e informações sobre os candidatos, têm priorizado estratégias destinadas a influenciar a imagem do adversário.
No caso de Ciro, a principal abordagem é destacar problemas que, na avaliação da oposição, ainda não foram solucionados.
“Pelo lado de Ciro Gomes, a principal estratégia tem sido focar nos problemas não resolvidos, nas questões estruturais que realmente são de difícil resolução”, afirma Mariana.
Já na campanha de Elmano, a especialista identifica uma tentativa de associar a imagem de Ciro a setores políticos ligados ao bolsonarismo, buscando atingir principalmente eleitores que ainda não definiram o voto.
“Por outro lado, Elmano de Freitas tenta colar a imagem de Ciro Gomes à ala bolsonarista e tentar gerar alguma antipatia do público dos indecisos”, explica.
Para Mariana, a disputa pela preferência dos eleitores faz com que a apresentação de entregas e propostas tenha menos espaço neste primeiro momento.
“Então, a estratégia dos dois é tentar conquistar votos, de ambos os lados e, nesse sentido, as entregas, nesse sentido, as propostas, elas ficam em segundo plano”, avalia.
A especialista também classifica a estratégia utilizada pela campanha de Ciro como mais próxima de uma propaganda negativa, por concentrar atenção nos problemas e nas críticas ao governo.
Segurança pública é um dos principais pontos de confronto
A segurança pública aparece como um dos temas centrais da disputa entre os dois candidatos. As campanhas partem de diagnósticos diferentes sobre o problema, mas apresentam algumas propostas que possuem pontos semelhantes.
Mariana explica que o discurso da oposição parte da ideia de que uma maior integração entre inteligência e forças de segurança poderia produzir resultados mais rápidos.
“A visão da oposição é sempre de que a segurança pública é um problema mais fácil de resolver. Que se houver o engajamento real e inteligência articulada, basta isso para que a solução chegue”, afirma.
Na avaliação da especialista, a posição da base governista tende a ser mais cautelosa porque o grupo está à frente da administração estadual e precisa responder diretamente aos problemas enfrentados na área.
“Não basta acrescentar inteligência, não basta acrescentar capacitação”, explica Mariana.
Segundo ela, o enfrentamento às organizações criminosas aparece como um dos principais desafios que deverão continuar no centro do debate eleitoral.
Eleitor pode confrontar informações das campanhas
Com a propaganda eleitoral em andamento, o eleitor pode utilizar outras fontes para avaliar as afirmações apresentadas pelos candidatos.
Além de acompanhar os programas eleitorais, é possível buscar reportagens jornalísticas que apresentem dados e informações sobre os problemas citados nas campanhas. A comparação ajuda a verificar se os números e afirmações utilizados no horário eleitoral correspondem aos fatos disponíveis.
“Cada vez mais há necessidade do eleitor buscar informações seguras, inclusive em fontes jornalísticas em que haja realmente apuração, números que realmente expressem uma realidade para que possa tomar a sua decisão da maneira mais racional”, afirma Carla.
Outra ferramenta são os planos de governo apresentados pelas candidaturas à Justiça Eleitoral. Os documentos permitem consultar as propostas formalizadas por cada candidato e comparar os compromissos apresentados durante a campanha.
A propaganda eleitoral gratuita segue até 1º de outubro. Até lá, Ciro Gomes e Elmano de Freitas ainda terão espaço para ampliar a apresentação de propostas, responder aos ataques dos adversários e tentar conquistar os eleitores que ainda não definiram o voto.




